10 de julho de 2026
Cultura

Vivo aqui; crio aqui

Fabiano Alcântara
| Tempo de leitura: 3 min

O artista bêbado e sujo de tinta entra em seu estúdio. Ele grita com seus ajudantes, que terminam de montar sua próxima obra. O local imenso reúne artistas, poetas, intelectuais, críticos, acadêmicos. Uma imagem como esta, do ateliê romântico, propagada em filmes de Hollywood, nunca existiu em Bauru.

Nem parece que vai existir. Devotados a uma atividade solitária e pouco rentável, pelo menos enquanto não conseguem entrar no circuito comercial das capitais, os artistas da cidade até confundem a vida e a arte, mas passam longe do estigma de loucos e desregrados.

A reportagem do Jornal da Cidade visitou ateliês de dois artistas que criam em casa, Marly Jacó Hessel e Walther Mortari. Encontrou-se também com Gastão Debreix, que revelou estar mudando sua oficina-ateliê para um espaço inusitado, a Penitenciária 2.

“Essa coisa de ateliê romântico, nesse momento da minha vida, quando eu estou passando da curva dos 40, está ficando um pouco complicado”, confessa Gastão. “Vou pegar minha marcenaria e levar para a P2. Lá, através de um processo de concessão do espaço e de mão-de-obra, eu vou poder produzir a minha parte de marcenaria e de marchetaria.”

Com a mudança para a penitenciária, o artista espera, além de desenvolver um trabalho social com os detentos, aumentar a produção e exportar. O galpão já está em construção.

Situado entre o universo da pop art e da poesia concreta, o trabalho conceitual e cheio de referências de Gastão nunca foi muito compreendido em Bauru. Marginalizado, ele procura a viabilidade econômica do seu trabalho firmando uma parceria com os escanteados da sociedade.

Corte e pintura

Na sala de sua casa, a pintora e cabeleireira Marly Jacó Hessel encontra a paz necessária para pintar suas telas alegres e coloridas. Dividida entre os pincéis e a tesoura, Marly planeja, em breve, construir um ateliê em cima do salão.

Enquanto o espaço não sai, ela pinta apoiando a tela sobre um fogão à lenha. “Eu gosto de criar aqui. É um lugar onde eu fico isolada e tem bastante luz natural”, conta.

A artista, que é formada em artes pela Unesp, também comenta que o fato de cortar cabelos ajudou a ter firmeza na mão para empunhar pincéis e espátulas.

Da Vila Nipônica, onde mora Marly, para o Higienópolis. Quem passa pela rua não imagina o que o muro da casa de Walther Mortari esconde. Aos 78 anos, o artista, que já foi bancário, dedica-se a atividades artísticas em tempo integral. O maior exemplo é um mural de 23 metros, pintado em uma parede externa de sua casa. Como um grafiteiro adolescente, ele pensa em ocupar outras paredes.

Expoente do modernismo em Bauru, Mortari não pensa muito em revolucionar a arte, mas trabalha intensamente. No dia em que recebeu a reportagem, com a paciência e o bom-humor que lhes são característicos, pintava dois quadros ao mesmo tempo e tinha uma pedra para esculpir preparada. Enfim, trabalhava como sempre.

“Eu sempre digo que 1% é inspiração e 99% transpiração”, ensina. Desde 1984, quando criou um esquema de produção sistemático, Mortari pintou 1.470 telas.

Para criar, ele adaptou uma edícula como ateliê. Em silêncio, ele passa ali a maior parte do tempo, pensando e pintando. Na sua casa, obra, artista e espaço confundem-se.

Da mesma forma, as cores quentes das suas obras parecem ser resultadas da sua personalidade. “Eu sou aberto, gosto de brincar. De espírito, eu tenho muito menos que 78 anos”, comenta. E, questionado sobre a sua impressionante semelhança física com Pablo Picasso, aproveita para fazer piada. “Eu não queria parecer com ele, eu queria pintar como ele, mas vou fazer o quê?” Se Picasso fosse bauruense, poderia até desbancar Mortari, mas, provavelmente, não envelheceria com tanta elegância.