09 de julho de 2026
Tribuna do Leitor

PAIXÃO SEGUNDO CRISTINO

Frei Lourenço M. Papin
| Tempo de leitura: 3 min

Na década de 60, no período áureo do cantor e compositor Geraldo Vandré, os dominicanos de São Paulo lhe pediram que compusesse um canto especial para ser apresentado numa Sexta-feira Santa. Ao que ele respondeu negativamente, pois não queria ocupar-se com alienação! Um frade pediu-lhe, então, que pelo menos lesse a Bíblia. E ele leu a Bíblia inteira e ficou impressionado e foi tocado por um versículo da carta de Paulo aos colossenses: “Eu completo na minha carne o que falta ao Cristo sofrer pelo seu corpo que é a Igreja” (Cl. 1, 24). Vandré muito bem entendera que a paixão do Cristo continua na história daqueles que sofrem. Na sua sensibilidade social compôs então uma opereta, cheia de unção humana e cristã, intitulada “Paixão segundo Cristino”: um sofrido pescador nordestino que conta a dolorosa história de seu povo migrante. Numa Sexta-feira Santa de 1968, ele mesmo cantou com o povo essa opereta.

Estamos em plena Semana Santa, durante a qual a Igreja celebra a Paixão, os sofrimentos do Cristo pela humanidade. A Paixão do Cristo continua nos milhões de sofredores em todos os recantos do mundo, vítimas das injustiças sociais, do egoísmo e da falta de solidariedade. São crianças, jovens, anciãos, pais e mães de família, sacerdotes e religiosos. Há multidões carregando pesada cruz, exploradas pela ganância dos poderosos e excluídas do convívio de uma vida digna. Como Cristo, quantos derramam seu sangue no Calvário da própria vida. É a Paixão segundo Cristino, segundo Paulo, Pedro, Maria e João. É a Paixão de Cristo prolongando-se na história dos homens.

É a Paixão segundo o arcebispo de Cali, na Colômbia, dom Isaias Duarte Cancino. No passado dia 16 de março, num bairro pobre da cidade, ele acabara de rezar a Missa, presidindo a uma celebração matrimonial de um grupo de casais. Ao voltar para casa, dois pistoleiros se aproximaram de seu carro e bárbara e covardemente o assassinaram, atirando seis vezes. Dom Duarte era conhecido por seus destemidos pronunciamentos contra a guerrilha e o narcotráfico, inclusive denunciando vários candidatos às eleições legislativas da Colômbia (ocorridas no dia 10/3/02), que eram patrocinados pelos traficantes de drogas. Foi um pastor que lutou pela dignidade e promoção social de seu povo e por ele derramou seu sangue. Um mártir de nossos dias.

É a Paixão segundo dom Oscar Romero, arcebispo de San Salvador, assassinado aos pés do altar, no dia 24 de março de 1980. Dom Oscar lutava em defesa de sua gente pobre e oprimida, denunciava e enfrentava a violência brutal dos poderosos de seu país. Enquanto celebrava a Missa, uma bala traiçoeira traspassou-lhe o coração. Misturava seu sangue com o de Cristo pela vida de seu povo. Dom Duarte e dom Oscar, pastores, profetas e mártires da justiça e da paz, exemplos impressionantes de amor-doação até o fim!

Cristino, Duarte, Romero, Pedro, Paulo, Maria e João, enfim, milhares de pessoas conhecidas ou anônimas, de ontem e de hoje, prolongam com seus sofrimentos, no aqui e agora, o mistério da Paixão de Cristo que solidariamente redime e salva. Depois da Paixão de Cristo, porém, aconteceu a ressurreição, semente de vida e esperança plantada no coração da história. Numa perspectiva de fé pascal acreditamos que essa nuvem de dores e sangue de tanta gente, está descendo sobre a terra como chuva benfazeja, fazendo germinar sementes de vida e esperança para toda a humanidade. (Frei Lourenço M. Papin)