10 de julho de 2026
Geral

Atraso na consulta médica vira rotina

Rose Araujo
| Tempo de leitura: 8 min

A Cartilha dos Direitos dos Pacientes é clara e incisiva: “as pessoas têm direito a consultas marcadas, antecipadamente, de forma que o tempo de espera não ultrapasse a trinta minutos”. No entanto, não é essa realidade que pode ser verificada em consultórios e postos de saúde. Os pacientes, sejam eles usuários do sistema público, conveniados ou até mesmo particulares, muitas vezes ficam duas, três horas além do horário marcado à espera do atendimento.

O que era para ser uma exceção acabou se transformando em tradição. Hoje as pessoas que precisam passar por uma consulta médica já vão preparadas para aguardar um longo período na sala de espera. “Quando eu marco um horário no médico já reservo um bom período do meu dia para isso”, revela a escriturária Tanusa Dias.

O representante comercial Antonio (nome fictício), que pediu para ter sua identidade preservada, faz o mesmo. Ele prefere desmarcar os seus compromissos durante a manhã ou a tarde - dependendo do horário da consulta - para não ter problemas com seus clientes. “A gente sabe que dificilmente será atendido com pontualidade”, destaca.

Falta de médico não é. A cidade possui 680 profissionais, o que dá um índice de dois médicos por cada 1.000 habitantes. A média recomendada pela Organização Mundial de Saúde (OMS) é de um médico para cada 1.000 habitantes.

O atraso nas consultas pode ser explicado por diversos outros motivos. Mas, o principal deles, é a imprevisibilidade. O vice-presidente da Associação Paulista de Medicina (APM), regional Bauru, José Fernando Casquel Monti, diz que os cirurgiões são os que mais enfrentam essa situação. “Muitas vezes o médico está atendendo em seu consultório e surge uma emergência. Ele tem de deixar os pacientes na sala de espera e priorizar o socorro a quem está em situação grave”, ressalta.

Como urgências não acontecem a toda hora, outra explicação para o atraso no atendimento seria mais um tipo de situação imprevisível: a própria consulta. O pneumologista Carlos Eduardo Sacomandi, presidente da Unimed-Bauru (cooperativa de trabalhos médicos), destacou que nem todo atendimento demora o mesmo tempo. “Os médicos costumam estipular meia hora de intervalo entre uma consulta e outra. Tem algumas que duram cinco minutos, outras, ultrapassam 40 minutos. Depende da necessidade de cada paciente”, diz.

Monti complementa dizendo que, se o profissional atender quatro casos complicados por dia, vai gastar um tempo muito grande e atrasar as outras consultas que estão programadas. “Cada vez menos o médico é dono do seu tempo”, salienta.

Outro fator a ser levado em consideração é a multiplicidade de tarefas. “Aquela figura do médico que fica o dia todo atendendo somente no seu consultório não existe mais”, salienta Monti.

Hoje, com a diversidade do mercado, o profissional acaba se engajando em serviços públicos ou privados de saúde, reservando períodos para o consultório e para seus plantões em hospitais ou clínicas. “Quase a totalidade da classe é obrigada a ter múltiplos vínculos”, salienta o vice-presidente da APM. Ele não acredita que isso ocorra por causa apenas da remuneração. Para ele, os postos de trabalho nessa área cresceram muito e o médico quer estar inserido no contexto.

Em média, segundo Monti, a carga horária do médico é de 12 horas por dia, sendo que as outras 12 horas restantes ele precisa ficar à disposição para qualquer emergência.

Indelicadeza

Sacomandi e Monti fazem coro ao dizer que nenhum médico gosta de atender com atraso os seus pacientes. â€œÉ uma indelicadeza muito grande, mas garanto que ninguém faz isso por que quer”, frisa o vice-presidente da APM.

Ele ressalta que o ideal seria que todas as consultas fossem atendidas no horário, tanto para o cliente, quanto para o profissional.

O presidente da Unimed conta que também passou pelo transtorno de não ser atendido no horário. “Desmarquei uma consulta com um cliente para ir ao médico. O atendimento atrasou e eu acabei indo embora sem passar pela consulta, já que ainda tinha pacientes a atender no consultório”, lembra.

Ele admite que existe um ou outro profissional que não faz a mínina força para ser pontual. Fariam parte dessa categoria alguns médicos de renome, que têm uma clientela fiel e que não fazem questão de manter uma cordialidade com os pacientes. Mas Sacomandi ressalta que são exceções dentro da classe médica.

Para Monti, os profissionais têm a consciência de que existe livre concorrência no mercado. “Se o médico demonstra que o atraso acontece por descaso com o paciente, com certeza ele vai acabar perdendo esse cliente para um colega da mesma especialidade”, destaca.

Funcionários têm de pedir dispensa do trabalho para consultar médico

Muitas pessoas precisam pedir dispensa por algumas horas do trabalho para se consultar no médico. Quando o atendimento atrasa, o reflexo se dá diretamente no emprego. “Eu já perdi dia de serviço para ir ao médico”, diz a doméstica Neide Rodrigues Baracat.

Ela leva todos os meses a sua mãe, que já é idosa, a uma Unidade Básica de Saúde do município para consultas de rotina e todas as vezes fica horas para ser atendida. “Eu costumo chegar às 8h e só saio de lá ao meio dia, pois é preciso aguardar a ordem de chamada”, diz.

Isso quando consegue ser atendida no mesmo dia. Quando concedeu a entrevista, por exemplo, ela havia acabado de sair do posto. Foi lá tentar uma consulta com um ginecologista e saiu decepcionada. “Só tem vaga para maio. Até lá, tenho que agüentar os meus problemas de saúde, sem saber que tratamento seguir”, reclama.

Neide diz que o patrão entende essa dificuldade e não costuma achar ruim quando ela se ausenta do trabalho para procurar o médico. Mas, isso não diminui o transtorno causado pela demora no atendimento.

A geógrafa Ednéia Moreno Carvalho precisava consultar um médico, mas ele só tinha vaga às 18h30. Como sai às 20h do trabalho, ela pediu à sua chefe para dispensá-la mais cedo. Chegou no horário ao consultório, mas só foi atendida uma hora e meia depois. “Eu já estava quase indo embora. Mas, a secretária do médico disse que seria complicado marcar um outro dia, pois ele tem a agenda lotada”, ressalta.

Ela conta que sua chefe entendeu o problema, mas que se fizer isso outras vezes, a reação poderá não ser a mesma. “Uma vez ou outra, tudo bem. Mas, se isso começa a acontecer com certa freqüência, a tendência é o patrão ficar desconfiado e se negar a permitir essas saídas”, explica.

A ex-secretária municipal de Saúde, Eliane Fetter Telles Nunes (ela foi entrevistada para esta matéria antes de deixar o cargo, na última quinta-feira) diz que o atraso não costuma ser grande nos postos de saúde. Ela salienta que isso ocorre mais em determinadas especialidades, como ginecologia e obstetrícia, já que os médicos precisam muitas vezes sair para atender uma emergência.

A ex-secretária explica que não há déficit de médico no município. “O que precisa fazer é ampliar a capacidade de atendimento das Unidades de Saúde”, diz.

O atendimento nos postos são agendados só para casos específicos, como gestantes, hipertensos, diabéticos e puericultura. O horário que restar é aberto à população.

Médico ganha prêmio por sua pontualidade

O que deveria ser considerado normal, acabou se destacando e merecendo prêmio. O dermatologista Wagner José Monteiro Cardoso faz tanta questão de atender seus pacientes dentro do horário que acabou ganhando até um prêmio por conta disso.

Empresários da cidade de Avaré, onde o médico clinicava na época, concederam uma premiação por considerar que a pontualidade dele contribuía para o bom andamento dos trabalhos em suas empresas. “Como eu atendia no horário marcado, os funcionários não precisavam perder dia de serviço e, geralmente, voltavam para o trabalho logo após a consulta”, conta.

Metódico e muito organizado, Wagner consegue trabalhar em quatro lugares diferentes sem ter de atrasar o seu atendimento na clínica, que recebe uma média de 30 clientes por dia.

Ele consegue essa proeza usando algumas táticas fundamentais.

Uma delas: em sua clínica ele mantém um circuito interno de tevê que permite acompanhar a movimentação na sala de espera. “Da minha mesa eu observo se há muita gente para ser atendido. Não gosto de ver a sala muito cheia e procuro agilizar meus atendimentos, sem prejudicar o paciente que está em atendimento”, esclarece.

Cardoso costuma agendar suas consultas com intervalo de meia hora e não permite que suas secretárias façam encaixes, a não ser que seja de uma grande emergência. Todos os dias, ele deixa dois horário em aberto para o caso de surgir um atendimento de urgência. “Dessa maneira, se eu for chamado para alguma emergência tenho essa mobilidade dentro da minha agenda”, explica.

Defendendo a sua categoria, ele lembra que muitas vezes o atraso é causado pelos próprios pacientes. “Tem muita gente que é prolixa e não consegue explicar para o médico o seu problema com objetividade, extendendo o horário da consulta”, conta.

Outro problema levantado por ele é que alguns clientes marcam a consulta e não aparecem, atrapalhando o andamento das clínicas. “Tem muita gente que não cancela a consulta e simplesmente deixa de comparecer, acarretando transtornos para o profissional”.