09 de julho de 2026
Cultura

Dos cafundós para o cinema

(*) Katy Fabruzzi
| Tempo de leitura: 4 min

Deve chegar às telas dos cinemas no próximo ano o filme “Cafundó”, que aborda a vida, a cultura e os milagres do ex-escravo e líder religioso João de Camargo. Os autores do projeto, Clóvis Bueno e o ator Paulo Betti, estão contando com o apoio de municípios do Interior de São Paulo.

O filme está orçado em R$ 5,2 milhões. Metade do valor já foi arrecadado. Com 60% do dinheiro, as filmagens terão início em Sorocaba (SP).

Paulo Betti acredita que, a partir deste filme, novas produções podem ser estimuladas em outras cidades do Interior, criando mais postos de trabalho na área. Segundo ele, “Cafundó” pretende gerar cerca de 2.000 empregos diretos e indiretos.

A escolha do nome está relacionada com a região onde nasceu João de Camargo, em Cocais - Saraphuy. Betti explica que a palavra cafundó quer dizer lugar longe, “onde Judas perdeu as botas”. Leia a seguir entrevista com o ator, em que fala sobre o projeto, a captação de recursos e cinema brasileiro.

Pergunta - Há quanto tempo você vem se dedicando ao projeto ‘Cafundó’? Paulo Betti - Estou trabalhando diretamente no projeto nos últimos 10 anos. A história começou quando eu tinha uns 3 anos de idade e ia visitar meu avô, que era um imigrante italiano que trabalhava à “meia” nas terras de um fazendeiro negro.

No caminho da roça de meu avô, tomei conhecimento da história de João de Camargo. Havia uma igreja, que está lá até hoje, tombada pelo patrimônio histórico. O mistério e a riqueza de significados da história me encantam desde então.

Pergunta - Quais as dificuldades encontradas para a implantação do projeto? Betti - As dificuldades são imensas e normais num país que está acostumado a consumir prioritariamente filmes americanos. Uma questão ideológica de primeira ordem se coloca. Cinema faz a cabeça das pessoas.

Cinema está relacionado com auto-estima, com memória. Até quando vamos deixar que nossos filhos e nossa população consuma apenas o imaginário americano? Falo americano porque dificilmente vemos filmes de outra origem. Com exceção de um ou outro filme francês ou espanhol, não temos acesso a cinematografia mundial, com raras exceções nos festivais.

Não é só no Brasil que isso ocorre. Mas não podemos ser tão passivos. Cinema custa dinheiro. Essa é a maior dificuldade. Conseguir dinheiro para fazer o filme.

Pergunta - De que forma Bauru e cidades vizinhas podem participar e que benefícios estes municípios terão com o filme? Betti - As empresas podem abater do imposto de renda a pagar. O mesmo acontece com as pessoas físicas. Os aposentados do Banco do Brasil podem descontar direto, é só preencher o holerite que aparece com o formulário do Cafundó.

O benefício direto é estar adquirindo ações de um filme, podendo no futuro lucrar com isso, sem gastar nada, pois o dinheiro é do imposto a pagar. O benefício também é colaborar para valorizar o Interior de São Paulo e sua cultura. Sem gastar, efetivamente, nada.

Pergunta - Você acredita nos milagres de João de Camargo? O tema tem esbarrado em algum tipo de preconceito? Betti - Einstein disse que há duas maneiras de viver a vida. Uma é pensar que nada é milagre. A outra é pensar que tudo é milagre. Penso em fazer um filme e não uma investigação sobre a realidade. Existe muito preconceito ligado à questão religiosa e racial. O filme ajuda a combater esse preconceito.

Pergunta - Como você avalia o cinema nacional? É uma aventura produzir filmes brasileiros? Betti - Estamos totalmente dominados pela produção americana. Quase 95% do que vemos é cinema deles, é uma vergonha. É como se puséssemos nossos filhos no colo dos americanos para que eles contem histórias.

Cada vez mais vamos querer ser americanos, sem poder sê-los, o que gera uma insatisfação e uma baixa estima horrorosa. Vivi na América e posso afirmar. É muito difícil para um ator se impor lá, barreiras como o sotaque, cultura, etc.

Portanto é melhor pensarmos em criar um espaço para nós aqui mesmo. E você leitor, parece que não tem nada a ver com isso. Mas tem, e total. É de sua cultura que estamos falando. O cinema é nosso álbum de fotografias. Preservá-lo e ampliá-lo é o nosso dever.

Pergunta - Quais suas expectativas em relação ao público e bilheteria para o filme ‘Cafundó’? Betti - Estou trabalhando, criando uma rede de universidades e alternativas para não depender apenas dos cinemas de shoppings. Vamos fazer pelo menos um milhão de espectadores. Vou levar o filme debaixo do braço e viajar o Brasil inteiro com ele. Faço isso com o teatro, vai ser mais fácil fazer com a fita.

(*) Especial para o JC Cultura / A jornalista escreveu em colaboração com o Jornal da Cidade.