09 de julho de 2026
Política

Projeto pede máscara para coveiros

Gilmar Dias
| Tempo de leitura: 4 min

Além da pá e da colher de pedreiro, os coveiros dos cemitérios públicos e privados de Bauru vão ter que usar, em breve, luvas, botas e máscaras para realizar os sepultamentos. A obrigatoriedade está no projeto de lei do vereador Roberto Bueno (PTB), protocolado na última segunda-feira. A proposta já tramita pelas comissões temáticas do Poder Legislativo e deverá ser votada nas próximas semanas.

Segundo Bueno, a atividade de coveiro obriga o profissional a manter contato com pessoas que morreram em decorrência de doenças contagiosas. “Tanto que para isso eles têm assegurado na legislação municipal e na Consolidação das Leis do Trabalho (CLT) o adicional de insalubridade”, justifica.

O parlamentar defende que seu projeto visa aperfeiçoar as regras de segurança e higiene da atividade, garantindo aos profissionais o uso de equipamentos de proteção. A proposta determina que o cumprimento da lei, se aprovada, ficará sob a responsabilidade dos membros da Comissão Interna de Prevenção de Acidentes (Cipa) da Empresa Municipal de Desenvolvimento Urbano e Rural de Bauru (Emdurb).

A matéria também estabelece multa de R$ 1.000,00 para o descumprimento das normas, dobrando-se o valor em caso de reincidência. Se aprovada, a lei entrará em vigor no prazo de 30 dias. A administração terá o mesmo tempo para providenciar a compra dos equipamentos.

Sem novidades

O gerente do Departamento de Cemitérios da Emdurb, José Tavares Martins, diz que, na prática, o projeto de lei de Bueno já é cumprido pelos coveiros. “Mas a proposta é bem-vinda, porque sempre há o interesse de aperfeiçoar aquilo que já é determinado”, explica.

Tavares conta que o uso de luvas, botas e máscaras é mais comum no serviço de exumação de corpos devido ao adiantado estado de decomposição dos cadáveres. Mas o gerente concorda que no ato do sepultamento os profissionais da área são os que mais mantêm contato com a urna na qual estão os mortos.

“O uso desses equipamentos citados no projeto proporcionam higiene e proteção no serviço diário dos coveiros”, ressalta. Se aprovada, a lei terá que ser cumprida nos quatro cemitérios municipais - Saudade, Redentor, São Benedito e Cristo Rei - e no único particular, Jardim do Ypê.

“Bigode e cabelo”

Por força da profissão, as atividades de um coveiro são associadas à histórias do além, recheadas, em sua maioria, de fantasias que dão asas à imaginação. O coveiro Jorge Amadei confessa que no início tinha muito medo do serviço.

“Fiquei sem comer e dormir durante um bom tempo quando comecei a trabalhar aqui (no Cemitério da Saudade). A bebida ajudava a aliviar um pouco a situação, mas parei com ela depois que encarei o serviço com naturalidade.”

Mas todo coveiro tem uma passagem do além que carregará para o resto de sua vida. Amadei conta que em 1985 foi pedida a retirada de uma urna de um jazigo para juntar os ossos de um cadáver, sepultado há 12 anos. O lugar seria tomado por um morto que seria enterrado naquele dia.

Ao abrir o túmulo, ele percebeu que o caixão estava inteiro e pesado, o que não é normal, já que a decomposição se encarrega de pôr fim à urna. “Chamei um colega e quando abrimos o caixão o morto estava inteiro depois de 12 anos de enterrado, inclusive com bigode e cabelo.”

Amadei garante que não ficou com medo, mas guardará a cena para sempre. “Era um rapaz que foi enterrado nu. Sua pele estava intacta. Fiquei curioso e procurei no arquivo seu nome e consegui manter contato com a família para informar o ocorrido. Fiquei sabendo que ele foi vítima da doença de Chagas. Talvez o efeito de remédios tenha provocado essa situação”, finaliza.

Categoria diz que exigência é bem-vinda

O projeto de lei que obriga os coveiros dos cemitérios de Bauru a usarem luvas, botas e máscaras nos sepultamentos foi bem recebido pela categoria. Embora os equipamentos de proteção já sejam utilizados nos serviços de exumação de cadáveres, os profissionais afirmam que vão cumprir a determinação caso a Câmara Municipal aprove o processo.

O coveiro Jorge Amadei - há 27 anos na profissão - trabalha no Cemitério da Saudade e diz que o uso dos protetores não mudará a rotina de suas atividades. O dia-a-dia do serviço fez com que ele se acostumasse com o ambiente do trabalho sem a necessidade, no passado, do uso de equipamentos.

“Mas acho importante usar luvas, botas e máscara. Afinal, não sei quem estou enterrando e o motivo de sua morte.” Seu irmão, Gérson Amadei - há 20 anos na profissão - concorda com a justificativa. “Não custa se proteger, embora não tenha conhecimento de transmissão de doenças de cadáveres para coveiros”, observa.

No início de carreira, ele assume que era resistente ao uso de máscara durante as exumações porque o forte cheiro exalado dos corpos em decomposição acabou se tornando corriqueiro no dia-a-dia do trabalho.