Além da pá e da colher de pedreiro, os coveiros dos cemitérios públicos e privados de Bauru vão ter que usar, em breve, luvas, botas e máscaras para realizar os sepultamentos. A obrigatoriedade está no projeto de lei do vereador Roberto Bueno (PTB), protocolado na última segunda-feira. A proposta já tramita pelas comissões temáticas do Poder Legislativo e deverá ser votada nas próximas semanas.
Segundo Bueno, a atividade de coveiro obriga o profissional a manter contato com pessoas que morreram em decorrência de doenças contagiosas. “Tanto que para isso eles têm assegurado na legislação municipal e na Consolidação das Leis do Trabalho (CLT) o adicional de insalubridadeâ€, justifica.
O parlamentar defende que seu projeto visa aperfeiçoar as regras de segurança e higiene da atividade, garantindo aos profissionais o uso de equipamentos de proteção. A proposta determina que o cumprimento da lei, se aprovada, ficará sob a responsabilidade dos membros da Comissão Interna de Prevenção de Acidentes (Cipa) da Empresa Municipal de Desenvolvimento Urbano e Rural de Bauru (Emdurb).
A matéria também estabelece multa de R$ 1.000,00 para o descumprimento das normas, dobrando-se o valor em caso de reincidência. Se aprovada, a lei entrará em vigor no prazo de 30 dias. A administração terá o mesmo tempo para providenciar a compra dos equipamentos.
Sem novidades
O gerente do Departamento de Cemitérios da Emdurb, José Tavares Martins, diz que, na prática, o projeto de lei de Bueno já é cumprido pelos coveiros. “Mas a proposta é bem-vinda, porque sempre há o interesse de aperfeiçoar aquilo que já é determinadoâ€, explica.
Tavares conta que o uso de luvas, botas e máscaras é mais comum no serviço de exumação de corpos devido ao adiantado estado de decomposição dos cadáveres. Mas o gerente concorda que no ato do sepultamento os profissionais da área são os que mais mantêm contato com a urna na qual estão os mortos.
“O uso desses equipamentos citados no projeto proporcionam higiene e proteção no serviço diário dos coveirosâ€, ressalta. Se aprovada, a lei terá que ser cumprida nos quatro cemitérios municipais - Saudade, Redentor, São Benedito e Cristo Rei - e no único particular, Jardim do Ypê.
“Bigode e cabeloâ€
Por força da profissão, as atividades de um coveiro são associadas à histórias do além, recheadas, em sua maioria, de fantasias que dão asas à imaginação. O coveiro Jorge Amadei confessa que no início tinha muito medo do serviço.
“Fiquei sem comer e dormir durante um bom tempo quando comecei a trabalhar aqui (no Cemitério da Saudade). A bebida ajudava a aliviar um pouco a situação, mas parei com ela depois que encarei o serviço com naturalidade.â€
Mas todo coveiro tem uma passagem do além que carregará para o resto de sua vida. Amadei conta que em 1985 foi pedida a retirada de uma urna de um jazigo para juntar os ossos de um cadáver, sepultado há 12 anos. O lugar seria tomado por um morto que seria enterrado naquele dia.
Ao abrir o túmulo, ele percebeu que o caixão estava inteiro e pesado, o que não é normal, já que a decomposição se encarrega de pôr fim à urna. “Chamei um colega e quando abrimos o caixão o morto estava inteiro depois de 12 anos de enterrado, inclusive com bigode e cabelo.â€
Amadei garante que não ficou com medo, mas guardará a cena para sempre. “Era um rapaz que foi enterrado nu. Sua pele estava intacta. Fiquei curioso e procurei no arquivo seu nome e consegui manter contato com a família para informar o ocorrido. Fiquei sabendo que ele foi vítima da doença de Chagas. Talvez o efeito de remédios tenha provocado essa situaçãoâ€, finaliza.
Categoria diz que exigência é bem-vinda
O projeto de lei que obriga os coveiros dos cemitérios de Bauru a usarem luvas, botas e máscaras nos sepultamentos foi bem recebido pela categoria. Embora os equipamentos de proteção já sejam utilizados nos serviços de exumação de cadáveres, os profissionais afirmam que vão cumprir a determinação caso a Câmara Municipal aprove o processo.
O coveiro Jorge Amadei - há 27 anos na profissão - trabalha no Cemitério da Saudade e diz que o uso dos protetores não mudará a rotina de suas atividades. O dia-a-dia do serviço fez com que ele se acostumasse com o ambiente do trabalho sem a necessidade, no passado, do uso de equipamentos.
“Mas acho importante usar luvas, botas e máscara. Afinal, não sei quem estou enterrando e o motivo de sua morte.†Seu irmão, Gérson Amadei - há 20 anos na profissão - concorda com a justificativa. “Não custa se proteger, embora não tenha conhecimento de transmissão de doenças de cadáveres para coveirosâ€, observa.
No início de carreira, ele assume que era resistente ao uso de máscara durante as exumações porque o forte cheiro exalado dos corpos em decomposição acabou se tornando corriqueiro no dia-a-dia do trabalho.