A economia americana voltou a crescer no último trimestre de 2001 - 1,7% em termos anuais - terminando assim a mais breve recessão econômica dos últimos tempos nesse país. É um comportamento extraordinário se considerarmos o impacto terrível da ruptura da bolha especulativa no mercado de ações e os atentados terroristas do ano passado. Várias vezes, nos últimos meses, os especialistas previram um grande desastre na maior economia do mundo – tinha até o nome cinematográfico de Crash Landing – com impactos dramáticos no mundo todo. Eu mesmo andei namorando este cenário, embora em uma versão mais doce chamada de Hard Landing.
Nada disso aconteceu apesar dos dias difíceis por que passaram, e ainda estão passando, setores importantes da maior economia do mundo. A economia suportou todos os impactos decorrentes da queda dos lucros das empresas, da diminuição dramática do investimento nos setores de maior tecnologia, de quebras de empresas importantes e do aumento nos índices de desemprego, mas não entrou em uma recessão profunda.
Os grandes heróis dessa extraordinária vitória da economia de mercado no estilo americano foram dois: os cidadãos consumidores e o Banco Central Americano, conhecido como FED. Os primeiros mantiveram uma confiança patriótica na economia, deixando de lado as análises mais pessimistas e previsões de catástrofes na economia. O FED teve uma coragem extraordinária, de quando identificou os primeiros sinais de recessão ainda em 2000, iniciar a mais agressiva política de redução de juros que se tem conhecimento na história do país. Foi esta ação que, na medida em que reduziu drasticamente o custo dos empréstimos para empresas e consumidores e inundou o mercado financeiro de recursos, evitou uma terrível situação chamada de Credit Crunch. Quando isso ocorre, por medo dos bancos de realizar seus empréstimos normais em função do aumento da inadimplência de seus clientes, a economia morre asfixiada por falta de crédito. É desta forma que uma recessão leve pode transformar-se em uma terrível recessão ou, em situações limites, em depressão.
Nos EUA, país das estatísticas econômicas, um dos indicadores mais seguidos pelos mercados financeiros para balizar seu comportamento futuro é exatamente o que mede as expectativas e humores dos consumidores. Durante o período mais difícil dos últimos anos, o que se seguiu à ruptura da bolha especulativa das ações, os indicadores de confiança dos consumidores enfraqueceram-se, mas em menor intensidade do que o do resto da economia. Aqui mais uma vez ficou clara outra característica da economia americana que é a extraordinária importância do imóvel próprio como item de riqueza familiar. Enquanto as ações e seu valor no volátil mercado de Nova York tem importância para os 10% mais ricos da sociedade, a casa própria é o único item de riqueza importante para quase 70% dos americanos. O valor do imóvel residencial nos EUA depende fundamentalmente dos juros do empréstimo hipotecário que vai financiar sua aquisição. Ora, com a política do FED de redução dos juros, o valor dos imóveis residencial subiu por esse efeito financeiro, e não caíram como aconteceu com outros ativos como as carteiras de ações dos americanos.
A retomada do crescimento nos EUA já está afetando positivamente as economias da Europa e da Ásia, com exceção do Japão. Com isso podemos estar iniciando um novo ciclo de crescimento mundial. Embora não se vá voltar à euforia do final da década dos noventa o otimismo deve normalizar alguns mercados que estavam afetados pelas nuvens negras dos últimos anos. Inclusive para a economia brasileira.
(*) O autor, Luiz Carlos Mendonça de Barros, é economista