O documento final da Conferência das Nações Unidas sobre Financiamento para o Desenvolvimento, realizada na cidade mexicana de Monterrey, foi decepcionante para as organizações não-governamentais (ONGs), cuja participação nas reuniões preparatórias, que duraram um ano, as levou a pensar que poderiam conseguir resultados concretos. De fato, o Consenso de Monterrey aprovado no dia 22 de março, ao término da conferência, continha apenas uma retórica ineficaz. O documento foi esvaziado de conteúdo pela delegação dos Estados Unidos, conduzida pelo embaixador perante à ONU, John Negroponte, que fez com que o texto fosse adaptado ao enfoque unilateral de seu país e ao dogma do livre comércio, que despertam reações em todo o mundo.
Muitas propostas de reformas da arquitetura financeira global, promovidas desde a crise asiática, em 1997, por iluminados bancos centrais e ministros de finanças, bem como por ONGs, não foram levadas em consideração. Essas propostas incluíam a reforma e a democratização do Banco Mundial e do Fundo Monetário Internacional (FMI), sugestões para cancelamento de dívidas, além da proteção para os países insolventes sob regras semelhantes às da legislação municipal dos Estados Unidos sobre bancarrota (que permitem a continuação dos serviços públicos e sociais).
O presidente George W. Bush propôs aumentar a ajuda internacional dos Estados Unidos em US$ 5 bilhões nos próximos três orçamentos anuais. Muitos dos participantes rejeitaram a proposta e a qualificaram de totalmente insuficiente.
O choque entre diferentes modelos de desenvolvimento foi evidente. Poul Nielsen, da União Européia, disse que o total da ajuda da UE é de US$ 25 bilhões contra os US$ 9,6 bilhões dos Estados Unidos. Por sua vez, o presidente da Venezuela, Hugo Chávez, destacou que deveria ser definido o tipo de desenvolvimento que se quer, e que o modelo de desenvolvimento dos países industrializados freqüentemente causa o subdesenvolvimento dos menos desenvolvidos. Chávez acrescentou que os países em desenvolvimento pagam US$ 800 bilhões de juros aos países industrializados mais a mesma quantia em capital. “Ainda assim a dívida - como um estranho monstro - cresce e cresceâ€, disse.
Os delegados presentes na Conferência de Monterrey viram-se presos à “realpolitik†posterior à Guerra Fria, na qual os Estados Unidos são a única superpotência do mundo e onde, inclusive, as alianças mudaram. Desde 11 de setembro e a partir da reativação por parte de Bush do programa Guerra nas Estrelas, de Ronald Reagan, e do esforço das estruturas militares, o unilateralismo dos EUA dominou os assuntos internacionais.
A UE e a China têm o potencial - não utilizado - para desafiar economicamente os Estados Unidos. A América Latina ainda está muito dividida. A Rússia muito ocupada tentando mostrar-se amistosa com os EUA. As esperanças do mundo em desenvolvimento sobre os avanços em Monterrey naufragaram diante dessas realidades.
Os países em desenvolvimento poderiam aprender outra técnica de auto-ajuda dos membros da Organização de Países Exportadores de Petróleo (Opep), que trocam petróleo por outros produtos, economizando preciosas divisas fortes ao mesmo tempo que se desembaraçam de produtos subavaliados. Para fomentar um regime monetário de paridade euro-dólar, a Opep poderia decidir-se por maiores reservas de euros e cotar seu petróleo na moeda européia. Enquanto a receita do Consenso de Washington para o crescimento do PIB se manteve ainda como a doutrina do estabilishment em Monterrey, a nova receita para um desenvolvimento humano sustentável está entrando na corrente principal.
(*) A autora, Hazel Henderson, é economista e autora de “Mais Além da Globalização†e outros livros