08 de julho de 2026
Pesca & Lazer

Uma história de amor e pescaria...

Roberta Mathias
| Tempo de leitura: 6 min

Na semana passada, em uma breve visita ao rio Mogi Guaçu, em Santa Eudóxia, distrito de São Carlos, conversamos com Moacir Bregagnollo, que aos 80 anos carrega histórias de amor e respeito ao velho Mogi. O rio que nasce no município de Cambuí (MG), possui 470 Km de extensão, dos quais 377 percorrem o Estado de São Paulo, e guarda em suas águas um dos mais importantes peixes brasileiros: o dourado. Bregagnollo possui um pesqueiro às margens do rio Mogi há mais de 30 anos, local que foi palco de histórias de sucuri, raposa, sapo ensinado e muita pescaria.

Nessa aventura de vida, uma personagem acompanha o pescador oficialmente há 54 anos, Zulmira Bregagnollo, 78 anos, sempre foi companheira de Moacir. Mesmo sem pescar, a esposa cuidava da turma de pescadores com paciência e respeito.

Casados há tanto tempo, a união começou ainda muito antes. Conta Moacir que aos 9 anos ela já o observava: “A Zulmira me olhava andando de patinete”.

Do primeiro olhar nasceu um namoro que durou nove anos. “Uma vez eu peguei na mão dela e foi um mês sem conversa.” Naquela época, os namoros eram muito diferentes, Bregagnollo conta que eles gostavam de conversar e muito. “O primeiro beijo só consegui depois de cinco anos de namoro. Aí esperei mais um ano para o segundo beijo”, lembra o pescador.

Naquele tempo, Bregagnollo nem imaginava que teria uma companheira para a vida toda. “Ela sempre gostou de ir para o rio Mogi. Antes de sair, Zulmira preparava tudo, eu só tinha que colocar a tralha no carro. Depois, ela ficava no rancho e a gente saía para a pescaria. Na volta, tava tudo pronto.”

O primeiro peixe

A paixão pela pescaria começou quando Bregagnollo ainda usava “calças curtas”. Eu tinha uns 10 anos quando meu pai me levou a pé para pescar traíra na Água Fria, um lugar perto da Vila Nery (São Carlos). Eu comecei a chorar de medo, mas meu pai fez eu pegar o peixe na mão.”

E deu certo. A insistência do pai despertou na criança um forte interesse pela pescaria. “Um dia, eu roubei um alfinete da minha mãe para fazer um anzol e com linha de carretel fisguei meu primeiro peixe, um lambari”, lembra com alegria o pescador.

Desta vez, ele estava pescando em uma represa onde o proprietário cobrava “200 réis” para pescar. “O Pio Barnabé, que era manco, cuidava de lá. A gente era criança e esperava ele entrar no quartinho (onde ele pegava os calções que eram alugados para os homens) para mergulhar no lago, escondidos. Ele ficava louco. Quando ele percebia, mergulhava atrás da gente e o Pio Barnabé nadava muito bem”, comenta Bregagnollo.

Nessas aventuras de garoto, um dia o grupo foi surpreendido. “Os meninos tiravam a roupa para mergulhar, a gente não tinha calção. Um dia, o Pio Barnabé deu a volta e escondeu todas as nossas roupas. Ficamos desesperados. Depois ele devolveu, mas choramos bastante”, brinca.

Mogi e suas pescarias

Bregagnollo comenta com tristeza que o rio Mogi Guaçu já ofereceu muitos momentos formidáveis aos seus pescadores, mas muito se perdeu com o passar dos anos. “Naquela época, a região era mais selvagem, a gente tinha que estar previnido, pois era perigoso encontrar onça, sucuri.”

Os amigos costumavam ficar dias acampados no rancho. “Um dia, estava pescando com o Mário Moita e sua cachorrinha branca, na Lagoa dos Anjos. Eu remava devagar, a gente iria pegar algumas traíras. De repente, só vi uma sucuri subir no barco e pegar a cachorrinha. Ela fez um “au” e não tivemos tempo para mais nada”, relembra. Não há pescador do Mogi sem história de sucuri e de onça para contar.

E tem também uma de onça. “Era comum a gente levar espingarda, no caso de encontrar algum animal perigoso. Uma noite, um dos pescadores acordou de madrugada para fazer suas ‘necessidades’. Com medo, ele ‘aprontou’ bem perto do acampamento, pensando em enterrar pela manhã. Só que na hora que ele acordou e foi terminar o serviço, tomou um baita susto e chamou toda a turma. Uma onça tinha pisado sobre o montinho deixado na madrugada e ainda continuou com o rastro. A onça passou muito perto do acampamento.” Imagina só como ela ficou depois de pisar no cocô do pescador, uma onça!

Isca fedida e boa de pesca

Preparar iscas é um importante ritual e garante o sucesso da pescaria. “Isca fedida é isca boa”, explica o pescador, que também dá sugestões para “sobreviver” durante o preparo. Bregagnollo, em sua primeira pescaria no rio Miranda (MS), aprendeu um segredo com os ribeirinhos. “A gente queria pegar pacu. Eu nunca tinha fisgado um pacu. O pirangueiro levou a gente até uma praia onde tinha um curimba enterrado. O peixe estava até estufado de tão podre. Usando aquele peixe fedido de isca, pegamos um atrás do outro”, lembra o pescador.

Sem coragem de enfrentar aquele cheiro mais uma vez, Bregagnollo optou por outra isca. “Você pega um coração de boi, pica bem, coloca em um saco plástico transparente, fecha e deixa uns dois dias no sol. No dia da pescaria, é preciso tomar muito cuidado para o saco não furar na condução (se furar, pode vender o carro!). É uma ótima isca, porque o coração fede menos que o curimba, mas não fica podre e é ótimo para pegar pacu.”

O pescador comenta que há mais de dez anos é possível pegar pacu também no Mogi Guaçu. “Os maiores que eu já peguei foram um de 12 Kg e dois de 11 Kg. O maior foi levado para ser analisado em Pirassununga”, relembra.

O dourado continua sendo o preferido dos pescadores, mas hoje não é encontrado com tanta facilidade. “Tem muito dourado no Mogi, mas não é em qualquer lugar. Infelizmente, muitos pescadores matam peixe na desova. Já vi pescador pegar dourado de 22 Kg que tinha mais de 1,5 Kg de ovas. Dizem que 30% dos ovos vingam, imagina só quantos peixes deixaram de nascer no Mogi!”

Bregagnollo ainda se emociona ao ver as águas correntes do rio Mogi Guaçu e espera que as pessoas tenham consciência para preservar o que ainda existe. “Não vejo gosto em pescar de rede, mas tem muita rede por aí”, finaliza.

O rio Mogi ainda está para peixe

Apesar de ser depositário de grande carga de poluentes domésticos e industriais,o rio Mogi Guaçu ainda é considerado um dos rios mais piscosos do Estado de São Paulo. A grande capacidade de depuração, o número significativo de lagoas marginais e de áreas de preservação ao longo de seu curso bem como o pequeno número de barragens hidrelétricas, são fatores que têm favorecido a sobrevivência e reprodução de espécies de peixes de valor econômico, já extintas em outras bacias hidrográficas do Estado. (Boletim do Instituto de Pesca de São Paulo, edição 2000).