08 de julho de 2026
Tribuna do Leitor

RESERVAS DE VAGAS

Ivan Garcia Goffi
| Tempo de leitura: 3 min

Na minha leitura diária do JC e desta coluna, diante da carta da leitora Iris Linhares F. de Mello, que defende a reserva de 40% de vagas para negros, no ensino universitário, não posso e não devo deixar de expressar minha indignação com essa insanidade que vem tomando conta de alguns setores. Primeiramente, idolatrar aquela figura rara de Anthony Garotinho, que foi o único governador a adotar legalmente essa hipócrita medida, é o máximo do contra-senso. Talvez a missivista também acredite no governador quando, nas suas propagandas eleitorais, diz que o Rio é o Estado mais seguro do Brasil. Realmente, Garotinho é uma sapiência e um exemplo a ser seguido.

Um médico, ao abrir a caixa craniana e postar um bisturi a laser no cérebro do paciente, ou ao fazer uma incisão segura no ventre de uma mulher para trazer ao mundo um novo ser, seccionando vasos, músculos e órgãos, não o faz apenas porque trilhou a faculdade, mas porque galgou um nível educacional e alçou um desenvolvimento mental e psicológico satisfatório ao longo de toda sua vida. E isso se aplica ao engenheiro, advogado, dentista, enfermeiro, enfim, a todos que têm o vasto dever de zelar pela vida ou interesses de outrem. O curso superior recebe essa denominação porque sua própria natureza é assim; não estamos falando de cursinho de pintura e modelagem.

A missivista em questão alega que contou, no JC, 73 fotos de alunos aprovados em faculdades de Bauru e que nenhum deles era negro. Será que parou para analisar quantas dezenas de milhares fizeram as provas e foram reprovados, inclusive “brancos”? E esses milhares que não atingiram índices satisfatórios de classificação não foram “excluídos” porque eram negros, amarelos, vermelhos ou azuis. Não passaram porque não têm conhecimento técnico suficiente e, acredite (caso ainda não saiba), a faculdade não tem que suprir o que o ensino médio e fundamental deixou de fazer. E, exame vestibular é prova de conhecimento do ensino médio.

Tomemos por exemplo a USP-Bauru, com um dos vestibulares mais concorridos do País. Talvez o universo de negros naqueles corredores seja ínfimo, mas alguém, em sã consciência, acredita que reservar 40% de vagas a negros (mulatos também estão incluídos?) será fazer justiça? Enquanto 60% tiverem um nível técnico e educacional elevadíssimo, 40% sequer saberão resolver “pobreminhas” de 2o grau. Se o problema existe, é pela desídia estatal com o ensino público, mas isso tem que ser atacado pela raiz. Uma casa não começa a ser construída pelo telhado, mas pelos alicerces, tal qual a educação em casa e na escola. Abrir vagas a incapazes só porque são negros (calma, existem milhares de brancos incapazes também) é tapar o sol com a peneira, fingindo que combatem o racismo e a discriminação quando, na verdade, praticam uma insensata estupidez, bem típica de político neste País.

Felizmente, nossas faculdades nunca registraram um único caso de cancelamento ou recusa de matrícula porque um dos candidatos aprovados fosse negro. Nem as universidades católicas porque o aprovado é evangélico, espírita ou umbandista. Isso sim seria discriminar. Vamos fazer o seguinte, cara leitora. As penitenciárias possuem 90% de negros presos. Tome a frente na luta para que se reservem 40% de vagas nos presídios para brancos, pois assim os negros não carregarão a pecha de serem a maioria de criminosos no País. Justiça é tratar os desiguais na justa medida de suas desigualdades. Enfiar nas faculdades qualquer um que não tenha a reles capacidade de fazer uma medíocre prova vestibular será, aí sim, acender o estopim do ódio e da discriminação, a começar por mim mesmo. (Ivan Garcia Goffi - OAB/SP 165.173)