11 de julho de 2026
Cultura

Famílias fazem opção por vida dupla

Fabiano Alcântara
| Tempo de leitura: 3 min

“Pega o cavaquinho aí”, pede o dono de padaria e clarinetista Júlio César Geraldelli Spagnollo, 36 anos, para a filha Emili, uma garotinha de 11 anos que tira seus primeiros acordes do instrumento. Na tarde de quinta-feira, o comerciante divide-se entre a fornada de pão quente e a execução de um chorinho junto com os filhos. O outro integrante do grupo, Júlio Spagnollo Filho, de 15 anos, dedilha um violão de sete cordas.

O cotidiano desta família é o resultado de uma vida dupla. Entre o comércio e a música há quase dez anos, Júlio, o pai, acha que é perfeitamente viável conciliar as duas atividades. “Minha principal função é a panificadora, fora isso eu estou sempre disposto a tocar música. Trabalho com todo mundo, faço 90% do que aparece”, comenta.

Júlio, que também domina outros instrumentos de sopro, como o saxofone e a flauta transversal, integra três grupos no momento: toca samba de raiz e choro no Balaio de Gato, choro tradicional com o Chorando Alto e disco com a banda Good Times. A versatilidade é o resultado de uma cabeça aberta, de artista e discípulo da deusa música. Um prova disso é a placa pregada com a partitura de “Carinhoso”, do mestre Pixinguinha, na fachada da sua padaria, no Centro de Bauru.

Ter a vida cruzada por duas profissões chamou a atenção do meio literário para o poeta e encanador Luiz Antônio Barbosa da Silva, 46 anos, dono de uma cadeira na Academia Bauruense de Letras.

Autodidata, Barbosa não tem o primeiro grau completo, mas fala com a correção de um professor de língua portuguesa. “Às vezes é difícil para mim. Na construção civil você não encontra muitos intelectuais. Alguns nem entendem bem o que eu faço, acham que é ilusão”, revela.

O poeta-encanador, que também já foi conhecido como poeta-pedreiro, acaba de finalizar seu terceiro livro, depois de duas obras publicadas e de ter aparecido em quatro antologias poéticas.

Seu novo trabalho chama-se “Arranjo Afro-Brasileiro”, mas ele ainda não tem apoio para publicá-lo. “Minha situação é conflitante. Se de um lado eu sou reconhecido, do outro eu nunca achei alguém que decidisse apostar no meu trabalho. No campo das artes é difícil, se uma pessoa se sobressai, outras 300 mil ficam esquecidas, no ostracismo.”

Telefonia e MPB

Quando tinha 40 anos, hoje ele tem 47, o percussionista William Dias Barbosa formou um grupo com mais dois amigos, todos da empresa de telefonia que ele trabalha até hoje. O Awê Trio começou ganhando um festival de música e não parou mais. Para acompanhar seus dois amigos, o técnico em telecomunicações teve que dividir as audições de rock progressivo, seu gênero preferido, com a MPB.

Com o tempo, o trio ganhou prestígio e hoje ele ajuda a complementar o orçamento doméstico com a música. “Uma coisa não atrapalha a outra. Eu encaro as duas coisas com profissionalismo”, avalia William.

Júlio, o clarinetista, assina embaixo. Para ele, ter duas atividades pode até ajudar os músicos a manterem os pés em terra firme. “Eu não levo muito naquela de que eu sou o artista, de querer chegar atrasado nos compromissos e ficar fazendo exigências absurdas”, conta.

O músico, que já viveu exclusivamente da atividade, conta que muitos têm vida dupla não porque fracassaram em seu lado artístico, mas por opção. “Passei um tempo da minha vida sofrendo preconceito porque muita gente achava que música não era trabalho. Hoje não tenho mais problemas desse tipo”, resume.