Enquanto parte dos moradores providencia alterações e adaptações nas casas, um mundo paralelo começa a surgir nos núcleos habitacionais: o comércio. Os moradores têm inúmeras necessidades e quem tem algum capital para investir acaba abrindo uma “portinha†em frente de casa.
É o caso de Rodinelly Tech, 25 anos. Ele conta que trabalhou em casas de ração desde os 14 anos. Quando mudou-se para o Núcleo Nobuji Nagasawa (Bauru 2000), já tinha a intenção de montar algum negócio, mas não sabia o quê. “Fiz uma pesquisa no bairro e observei grande quantidade de cachorros. Investiguei o tipo de ração que usavam e concluí que o volume era interessante para mimâ€, comenta.
Ele construiu um cômodo na frente da casa e montou uma loja de rações, que funciona há mais de um ano e, segundo ele, continua crescendo. “Chego a ser considerado o veterinário do bairro, algumas vezes, mesmo não sendo. Valeu a pena o esforço. Acho que se você trabalha de forma correta, com gosto, alegria e dedicação, você cresceâ€, alega.
Francisco Antonio Miguel, 42 anos, também usou a frente da casa para montar uma mercearia. Ele diz que inaugurou o estabelecimento há cerca de dois anos, vendendo de tudo um pouco. “A gente oferece até mais barato que nos supermercados, porque paga menos impostos. O movimento é razoável. Poderia ser melhor, mas a crise não deixaâ€, lamenta.
Mercado restrito
A reclamação é compartilhada por Toshio Seto. Ele montou, há quatro meses, uma grande padaria no bairro onde mora, mas diz que o que vende não cobre as despesas do estabelecimento. “Eu teria que vender cerca de 1.000 pães por dia para cobrir meus gastos e estamos vendendo entre 500 e 600 unidades. É muito pouco para bancar os gastos com energia e funcionáriosâ€, afirma.
Ele não informa, mas, aparentemente, o investimento foi alto, pois sobrou apenas uma parede da antiga casa. Ele construiu um sobrado ocupando praticamente o terreno todo, mantendo o espaço comercial na parte de baixo. O comerciante diz que vai tentar mais um pouco, mas que não poderá bancar o prejuízo por muito tempo.
O que se percebe é que os núcleos habitacionais comportam estabelecimentos menores e que ofereçam diversas opções. Seto confirma que há vários bares e mercearias vendendo pão e leite nas redondezas. “E as pessoas preferem comprar de quem está mais pertoâ€, admite.
Apesar das queixas dos comerciantes, os conjuntos habitacionais atraem diversos serviços, entre lanchonetes, bares, mercados, sorveterias, pizzarias, farmácias, cabeleireiros, açougues, distribuidores de água e gás, lojas de roupas, papelaria, banca de revistas e até sala de velório.
Em poucos anos, cada um destes conjuntos transforma-se num grande bairro, com vida e comércio próprios. Um mercado que só não é bem aproveitado pelas instituições bancárias - aliás, uma importante reclamação dos moradores, que têm que se deslocar até o centro da cidade para movimentar seu dinheiro.
Condição de sobrevivência
Oferecer serviços que atendam às necessidades básicas dos moradores é essencial para garantir a permanência das famílias num núcleo habitacional. Um exemplo disso ocorreu no Rio de Janeiro, segundo informação do professor do Departamento de Psicologia da Universidade Estadual Paulista (Unesp/Bauru), Sandro Caramaschi.
“O governo fez um projeto de desfavelamento e levou as famílias para o plano habitacional. Mas em pouquíssimo tempo, aquelas pessoas voltavam para a favela. Ao investigar, eles descobriram que, na favela, existia a ‘birosca’, que nada mais é que um armazém que vende em pequenas quantidadesâ€, conta.
Ele ressalta que os moradores de favela, na grande maioria das vezes, são trabalhadores não assalariados. Elas obtêm dinheiro através de “bicos†e recebem por dia ou por semana. “Não dá para ir ao supermercado e comprar 5 quilos de arroz. Elas querem comprar um copo de arroz, dois cigarros e uma caixa de fósforos. Ou seja, a ‘birosca’ dá uma flexibilidade maior para eles e foi só levar o birosqueiro para o plano habitacional, ou seja, levar uma característica daquela população, para viabilizar a permanência deles nas novas casasâ€, completa.
Autônomo
O dentista Ronie Tavares Barros mudou-se de São Paulo para Bauru há cerca de um ano. Depois de investigar o preço do aluguel na região central da cidade e identificar que o volume de profissionais formados anualmente pelas três faculdades de Odontologia existentes no município (Universidade do Sagrado Coração, Universidade Paulista e Faculdade de Odontologia de Bauru) é alto, ele resolveu montar consultório no próprio bairro.
Fez uma reforma na frente da casa, onde construiu salas de espera e atendimento. Depois, pintou “Dentista†na mureta da residência e começou a atender. “Devo ter tratado umas 50 pessoas em um ano, fora os casos avulsos em que as pessoas aparecem para fazer uma extração ou um curativo. Desta forma, evito o aluguel e o que vier é lucroâ€, alega.