09 de julho de 2026
Saúde

Primeiros socorros são garantia de vida

Fabiana Teófilo
| Tempo de leitura: 5 min

A maioria dos acidentes fatais teria uma melhor evolução se tratada devidamente nos primeiros minutos após o acidente, principalmente quanto à assistência respiratória, ao controle imediato de hemorragias, posicionamento e transporte. Os pacientes que sobrevivem e que chegam ao hospital poderiam sofrer menos seqüelas caso fossem tratados corretamente, de acordo com o grau do traumatismo craniencefálico.

Devido à grande importância sócio-econômica da invalidez pós-trauma, é urgente a necessidade de se estabelecer mais dados epidemiológicos em relação ao controle e aos resultados do traumatismo craniencefálico em todos os seus graus (leves, moderados e graves).

Com este objetivo, um grupo de pesquisadores ingleses do Department of Neurosurgery, University Glasgow and Department of Community Health Sciences, University of Edinburg, liderados pela médica Sharon Thornhill, conduziram um estudo para determinar a freqüência de invalidez em jovens e adultos, admitidos em hospitais da Inglaterra com traumatismo craniencefálico e estimar a taxa de incidência de invalidez após um ano do trauma.

O estudo

Entre fevereiro de 1995 e fevereiro de 1996, os pesquisadores enviaram representantes aos hospitais de urgência de Glasgow, a fim de identificar pacientes jovens (acima de 14 anos) e adultos, admitidos com traumatismos craniencefálicos. Estes pacientes tinham o grau de gravidade avaliado pela escala de coma Glasgow (teste que avalia o estado de consciência da pessoa, utilizada em muitos países), que divide os pacientes de acordo como a pontuação obtida em resposta a estímulos, com a abertura dos olhos, com a resposta verbal e capacidade motora. O número máximo da escala de Glasgow é 15 e significa que o paciente está consciente. A menor pontuação é três, e sinaliza que a vítima está em coma.

Os pacientes selecionados foram então classificados como portadores de trauma leve (Glasgow 13-15), trauma moderado (Glasgow 9-12) e trauma grave (Glasgow 3-8). Os pacientes que obtiveram alta hospitalar foram reavaliados pelos pesquisadores três e seis meses depois do acidente. As vítimas e seus familiares foram submetidos a um questionário um ano após o trauma, onde se requeria informações complementares à entrevista pessoal prévia e visava avaliar a presença de seqüelas e invalidez nesses pacientes.

Resultados e conclusões

Dos casos acompanhados de traumatismo craniencefálico, mais da metade era composta de homens com 40 anos de idade ou menos, e a maioria foi classificada como portadora de trauma leve. Quanto aos pacientes restantes, cerca de metade foi classificada como portadora de trauma moderado e a outra metade como portadora de trauma grave. As causas mais comuns foram quedas de grandes alturas, assaltos e acidentes automobilísticos, respectivamente. Em mais de 50% dos casos foi constatada associação com álcool, e cerca de um quarto dos pacientes já havia sido tratado previamente para esse tipo de trauma. A maioria foi liberada do hospital com 48 horas.

Após um ano, os pesquisadores notaram que o trauma grave estava mais associado com taxas de mortalidade ou vida vegetativa, do que com taxas de boa recuperação. De maneira contraditória, incapacidade tardia não foi associada a traumas graves, mas aconteceu em cerca da metade dos pacientes com trauma leve e moderado.

A maioria dos sobreviventes com trauma grave é inválida, e cerca de metade dos pacientes com trauma leve e metade dos pacientes com trauma moderado são igualmente inválidos. A taxa de dependência de cuidados aconteceu em aproximadamente 45% dos sobreviventes de traumas graves, de 30% nos casos de traumas moderados e de 28% nos de traumas leves.

Entre os pacientes com invalidez, menos da metade procurou o hospital. Apenas um quarto dos pacientes inválidos foi admitido em serviços de reabilitação física, sendo que, mesmo a despeito da maioria das seqüelas serem de estado mental, os serviços mais procurados foram os de fisioterapia. Apenas 15% dos pacientes tiveram contato com terapeutas sociais e psicólogos.

Diante desses fatos, pesquisadores puderam notar que é comum a sobrevivência com incapacidade em pacientes que tiveram traumatismo leve, e que essas taxas são similares às encontradas nos traumatismos moderados e graves. Constataram ainda que grande parte desta população permanece inválida após um ano, visto que a grande maioria não procura serviços de recuperação.

Ao final da pesquisa, os autores chegaram à conclusão de que o número de inválidos em conseqüência de traumas classificados como leves, é muito grande, e que a classificação desses traumas pela escala de Glasgow como leves pode ser inapropriada em muitas situações. Mas, eles acreditam que mais investigações devem ser feitas para confirmar se esses achados podem ser aplicados em outros locais e também que novos trabalhos devem ser feitos a fim de se avaliar os serviços de reabilitação para que se promova uma redução das seqüelas em todos os tipos de trauma craniencefálico.

Cuidados emergenciais

O manuseio pré-hospitalar foi muito aperfeiçoado nas últimas décadas, a triagem rápida e evacuação via ambulâncias e helicópteros equipados diminuíram a mortalidade dos pacientes. De acordo com documentos publicados por autoridades médicas indianas em dois centros hospitalares da Índia que o atendimento pré-hospitar por médicos e o rápido transporte do paciente para um hospital preparado foram fundamentais para o aumento da sobrevivência dos pacientes com traumatismo moderado.

As medidas primárias visam proteger o cérebro contra as lesões secundárias. Essas medidas são baseadas no estabelecimento, proteção e manutenção das vias aéreas; prevenção e correção da hipóxia; prevenção e correção da hipotensão; imobilização do cordão espinhal; identificação, estabilização e tratamento de injúrias extra-cranianas associadas.

Na sala de emergência é preciso avaliar o estado de consciência; determinar a severidade do trauma; identificar o risco do paciente para deteriorização; estabelecer um diagnóstico anatômico; prevenir e corrigir a hipóxia e a hipotensão.

Imobilização espinhal

As lesões espinhais estão associadas com 5% a 10% aos casos de TCE. Ainda no atendimento pré-hospitalar, enquanto o paciente é estabilizado, há necessidade de imobilização espinhal. A intubação, quando necessária, deve ser realizada com pescoço em posição neutra.

O uso de colar cervical não produz estabilização absoluta. As espinhas toráxica e lombar devem receber a mesma atenção que a cervical, pois de 25% a 30% das lesões espinhais envolvem essas regiões. Em 15% dos pacientes com trauma espinhal existe um segundo trauma espinhal associado. Na rotina do tratamento da hipertensão intra-craniana a cabeceira deve ser elevada a 30 graus com alinhamento neutro.

Principais causas

As estatísticas mostram que os traumas têm três causas principais: em primeiro lugar estão os acidentes de trânsito; em segundo, as quedas; e, em terceiro, o mergulho em piscinas, rios e mares rasos demais ou com pedras.