09 de julho de 2026
Geral

Crise esfria mercado de piloto de avião

Marcelo Ferrazoli
| Tempo de leitura: 5 min

Demissões em massa, cortes de gastos, prejuízos milionários e ameaça de falências. Esse é o cenário atual da aviação comercial brasileira, que enfrenta uma das maiores crises já vistas no setor. Reflexo disso pode ser visto na dificuldade enfrentada por pilotos experientes ou recém-formados em conseguir uma vaga no mercado de trabalho.

Considerada um dos “celeiros” nacionais na formação de pilotos, Bauru não foge aos fatos que hoje já se tornaram regra. O jovem Salvatore di Gesu, 24 anos, é um dos que vivenciam esta situação. Ele concluiu o curso de piloto há cerca de um ano e, desde então, vem sofrendo com a falta de oportunidades para a categoria. Depois de enviar uma infinidade de currículos para as companhias de aviação e táxi aéreo e fracassar nas tentativas para arrumar emprego na área, teve de apelar para o seu lado “professor”.

Fluente em inglês e italiano, duas línguas consideradas fundamentais ao exercício da profissão, Salvatore ministra atualmente aulas de ambos os idiomas em uma escola do setor na cidade. “Depois dos atentados terroristas nos Estados Unidos, até as empresas que estavam contratando começaram a demitir funcionários e, assim, o mercado estagnou. Por isso, dar aulas foi a alternativa que encontrei para me sustentar”, afirma ele.

Mesmo diante das adversidades, Salvatore diz que não desiste e pretende seguir a carreira. “Muitos pilotos dizem que não investem um centavo na área. Penso de maneira diferente, pois somente investindo é que se criam as oportunidades profissionais. Continuo procurando e meu objetivo profissional, que é, e sempre será, a aviação, pois gosto dela desde criança”, conclui Salvatore.

O piloto bauruense Marcelo Pedroso de Freitas, outro que já teve de lançar mão das aulas de idiomas há cerca de dois anos, relata que seu pai, também piloto, encontrou emprego somente no exterior. Depois de ter sido demitido de uma companhia, atualmente atua em uma empresa aérea chinesa. “Foi a alternativa que ele encontrou para se encaixar no mercado. Isso não ocorre com todo piloto, pois é necessário ter, no mínimo, cerca de 10 a 12 mil horas de vôo e experiência de operação em aeroportos internacionais e nacionais”, afirma ele.

O Aeroclube de Bauru também sente, mesmo que timidamente, os reflexos do momento desfavorável para o setor. Edson Mitsuya, um dos administradores da instituição, afirma que a procura pelos cursos sofreu uma pequena redução, mas insuficiente para alterar a média anual - cerca de 60 - de formação de novos pilotos, mecânicos e comissários. Segundo ele, os atentados terroristas nos Estados Unidos colaboraram para a diminuição da demanda. “Tínhamos a expectativa, no ano passado, de aumentar para 100 os freqüentadores dos cursos, mas não foi possível em virtude dos ataques”, diz ele.

Perspectivas

Na área há 12 anos, dois deles como instrutor teórico, o administrador do aeroclube destaca que, antes das ações terroristas, as perspectivas para o setor eram positivas. “Durante o primeiro semestre do ano passado, grande parte dos que se formavam em Bauru conseguiam se inserir no mercado. Depois dos atentados o mercado esfriou e sentimos até hoje suas conseqüências, que estão até piorando, pois as companhias estão demitindo e cancelando rotas internacionais”, frisa Mitsuya.

Segundo ele, outro ponto atingido diretamente pela crise da aviação foi a remuneração dos empregados. “As empresas, que antigamente disponibilizavam altos salários, estão contratando hoje com valores bem menores que os praticados anteriormente”, enfatiza o administrador. “Com isso, muitos pilotos têm optado por voar em outros países. Outros têm desistido da aviação, mas estes são a grande minoria”, completa Mitsuya.

Para ele, as perspectivas a curto e médio prazo para o setor não são animadoras e a situação só deve melhorar dentro de três anos. Mas Mitsuya destaca que os pretendentes a seguir carreira na aviação não devem desanimar diante do cenário desfavorável. “Mais do que nunca, a pessoa tem de se preparar justamente quando o momento está desfavorável. Se ela deixar para fazer isso quando o mercado estiver aquecido, certamente ela não se encaixará devido à inexperiência e não terá os requisitos que uma companhia aérea busca.”

Segundo o administrador, as empresas alteraram suas posturas diante da formação de novos pilotos. “Elas não investem mais nisso como faziam antigamente, pois é um fator gerador de custos enormes. Por isso, quanto mais qualificado for o currículo do piloto, melhor. Desta forma, as companhia os contratarão quase prontos, bastando uma pequena adaptação”, finaliza Mitsuya.

Paixão antiga

O jovem bauruense Sérgio Pereira Gomes é piloto desde 1999 e atualmente opera na aviação comercial. Ele conta que a escolha pela profissão ocorreu precocemente, quando ainda era garoto. “Procurei ser piloto movido por uma mistura de sonho e de paixão pela máquina. Desde pequeno, vivia em ambiente de aeroporto e acompanhava os amigos dos meus pais que eram pilotos. Fui pegando gosto e vendo o estilo de vida que levavam”, conta ele. E acrescenta: “Por isso, desde os 6 anos de idade já tinha decidido o que iria ser quando crescesse.”

Sérgio frisa que, quando era aluno, muitos falavam que ser piloto era difícil em razão da situação do segmento. “Realmente hoje o setor está em crise, mas não me arrependo de nada porque para mim tudo deu certo e obtive retorno. A pessoa que gosta tem que fazer com paixão e ir atrás para conseguir espaço no mercado”, salienta o piloto.

Exigência profissional

O bauruense Manoel Fernando de Oliveira é piloto há 11 anos, nove deles também dedicados à função de instrutor prático de vôo. Para ele, os primeiros passos para ter sucesso na carreira é gostar daquilo que se vai fazer e se preparar o máximo possível. “A concorrência é muito grande e o mercado não está fácil”, considera ele.

Para Manoel, o importante é não ser “imediatista”. “Não é porque o mercado está restrito e as companhias estão com problemas que se deve pensar em desistir da carreira. O que move a sociedade é acreditar naquilo que se faz e a pessoa que pensa dessa forma terá tudo para ser um excelente profissional e ter uma carreira brilhante”, destaca o piloto.

Outras preocupações importantes para quem quiser seguir carreira na aviação são o domínio de vários idiomas e os cursos superiores. “Fazer faculdade antes de partir para o curso de piloto é fundamental, pois irá contar pontos na hora da seleção pelas companhias. A fluência em outras línguas, principalmente o inglês, também representa um diferencial considerável na hora da disputa por uma vaga nas empresas aéreas”, teoriza ele.