08 de julho de 2026
Rural

Fungos contaminam 30% dos grãos

Rose Araujo
| Tempo de leitura: 3 min

Apesar de ter havido uma melhora considerável no controle de qualidade dos grãos produzidos no Brasil, ainda assim cerca de 30% da produção nacional desse produto está contaminada por fungos e pragas. O índice consta de um estudo feito pela Organização das Nações Unidas (ONU) e foi apresentado pelo professor Jânio Santúrio, da Universidade Federal de Santa Maria, no Rio Grande do Sul, durante um Congresso sobre micotoxina realizado recentemente, em Campinas.

De acordo com ele, a contaminação afeta diretamente os animais que se alimentam de ração, como bovinos, suínos, aves, cachorros e gatos, e pode trazer prejuízos grandes para a saúde dos bichos e também do ser humano. “O problema é sério e os profissionais envolvidos na fabricação desse tipo de alimento devem ficar atentos”, salienta.

O veterinário Emílio Fanton destaca que os suínos e as aves são os mais suscetíveis à contaminação por micotoxinas. “Eles têm uma sensibilidade à aflatoxina, que é uma toxina produzida pelo fungo”.

Esse tipo de toxina pode ocasionar doenças no fígado e até câncer nos animais, quando consumida em larga escala.

Fanton lembra que os bovinos têm um pouco mais de resistência, por possuírem um processo de digestão diferenciado. “O sistema digestivo desses animais elimina algumas toxinas, mas não todas”, explica o veterinário.

Quando não é fatal, a contaminação por micotoxina pode trazer muitos prejuízos também para os criadores, afetando diretamente a produção, a produtividade e a imunidade dos animais. “Queda no desempenho e baixa eficiência alimentar se complementam, derrubando os índices produtivos dos lotes de aves e suínos”, explica o engenheiro agrônomo Everton Krabbe, que também participou do congresso sobre micotoxinas.

Origem do problema

A contaminação das rações com fungos ocorre antes mesmo da sua produção - nasce na sua matéria-prima.

Fanton lembra que os processos de armazenamento de grãos no Brasil evoluíram muito nos últimos anos, conquistando um alto grau de controle de qualidade. Mesmo assim, ainda existem muitos agricultores que não tomam os cuidados necessários para evitar o problema. “São justamente esses que entram para a estatística, compondo os 30% da produção atingida pela contaminação”, diz o médico veterinário.

Para que os fungos não atinjam os grãos, é necessário tomar uma série de cuidados. Entre eles, o armazenamento em silos monitorados, que permitem um controle de temperatura. “Esses silos têm sensores que indicam quando a temperatura está muito alta em seu interior, o que propicia o aparecimento de fungos”, esclarece Fanton.

Quando a temperatura sobe, o produtor precisa providenciar o resfriamento dos grãos, expondo-os à ventilação até que a temperatura abaixe e o nível de umidade também. Após esse processo, o produto deve ser armazenado novamente.

Segundo explicou Jânio Santúrio, as condições de transporte, fabricação de rações, distribuição e consumo final, aliadas ao clima e à geografia do Brasil, compõem um cenário perfeito para a proliferação das micotoxinas. “Ao contrário do que muitos pensam, os fungos agem até o produto final acabo, levando problemas sérios aos animais que consomem rações infectadas”, ressalta.

No que diz respeito aos animais de pequeno porte, os cuidados devem ser redobrados em relação aos cachorros, já que os gatos são mais seletivos e não consomem ração mofada. Estudos mostram que a ingestão de 1,5 miligrama por quilo vivo nos cães pode ser fatal.

Isso é especialmente problemático porque a mesma ração é oferecida ao cachorro durante alguns dias. Ou seja, se o alimento contido em um saco estiver com fungos, o animal estará consumindo micotoxinas diariamente sem que o proprietário saiba. “Se o saco de ração estiver com micotoxinas, o risco é multiplicado e os sintomas virão com o acúmulo de micotoxinas no organismo do animal”, diz Santúrio, ressaltando que o problema é maior com os animais na fase inicial de vida, quando estão em crescimento mais acelerado.

Para minimizar o risco da contaminação por micotoxina, existem no mercado produtos específicos para esse fim. São os adsorventes, que impedem a proliferação dos fungos nos alimentos. Eles agem extraindo as micotoxinas presentes nos alimentos ingeridos, retirando-as do organismo.