09 de julho de 2026
Articulistas

Leão, verdadeiro "amigo-da-onça"

(*) B. Requena
| Tempo de leitura: 2 min

A Receita Federal está anunciando o desencadeamento de uma campanha com o objetivo de correr atrás ou colocar na malha-fina profissionais liberais como advogados, médicos, dentistas, psicólogos, engenheiros, arquitetos e outros por suposto escamoteamento, isto é, sonegação de impostos. É curiosa a preocupação dessa usina tributária do Governo Federal e essa fúria arrecadatória parece se manifestar como um verdadeiro contra-senso, justamente num período em que em todas as áreas nacionais há a concordância de que o Leão já foi muito além, com sua fome, da capacidade do trabalhador brasileiro em supri-lo com todo o dinheiro cobrado.

Nas cidades, nos Estados e mesmo na área federal, a imprensa, os vereadores, deputados, senadores passaram o ano todo fustigando o governo FHC justamente por causa dessa ganância que ultrapassa a capacidade da população trabalhadora em contribuir.

Conheço um dentista que está quase a ponto de vender amendoim torrado para mandar consertar sua dentadura, cheia de falhas. Há médico precisando trabalhar oito dias por semana para poder oferecer o mínimo de condições dignas de subsistência para sua família. Sei de psicóloga a ponto de perder a cabeça pela falta de dinheiro e jornalista que não tem mais palavras para criticar tamanho butim aos bolsos do povo. Há engenheiro “construindo” cachorro-quente na chapa e advogada que trabalha como secretária de ricaço semi-analfabeto. Portanto, embora se reconheça que esta não é a situação de todos esses profissionais, não há dúvida que com a aridez generalizada de recursos financeiros na praça, esse tal Leão está transitando na total contramão da realidade.

É curioso, para não dizer odioso, que se anuncie a corrida atrás de profissionais que trabalham diariamente numa difícil luta pela sobrevivência, num evidente erro - por conveniência? - de pontaria. É a eterna responsabilização e o sacrifício permanente da classe média em nosso País.

Nada se diz, nem se planeja, quanto aos impostos das grandes fortunas. Ninguém vê a mesma disposição com relação aos grandes nababos, usineiros que fazem empréstimos públicos para fazer plantios... só no papel! Grandes empresários e redes que emprestam até R$ 1 bilhão do BNDES - Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (entidade financeira que a partir desta negociata deveria chamar-se apenas BNDE). Ninguém monta malha-fina para pegá-los. É intrigante o temperamento desse tal Leão, que se faz cego com relação a grupos e conglomerados e tem olhos de lince quando quem está à sua frente é o trabalhador. Para se ter uma idéia da maneira injusta como age, basta dizer que morde o desempregado até no momento em que ocorre a perda do posto de trabalho, durante a homologação. Daí a conclusão lógica a que todos podemos chegar: esse Leão é mesmo amigo-da-onça! (O autor, B. Requena, é editor de Internacional do JC)