10 de julho de 2026
Economia & Negócios

Funcionários da fábrica da Ajax temem pelo emprego

Patrícia Zamboni
| Tempo de leitura: 5 min

Funcionários da fábrica de baterias Acumuladores Ajax estão preocupados com a manutenção de seus empregos. Na opinião de um grupo de trabalhadores que procurou o Jornal da Cidade para falar sobre o assunto, o Instituto Ambiental Vidágua estaria tomando “atitudes precipitadas”, sem pensar que o possível fechamento da empresa geraria cerca de 1.100 demissões (total de empregos diretos).

Desse total, aproximadamente 200 postos de trabalho são especificamente do setor metalúrgico da fábrica, cujas atividades estão paralisadas temporariamente.

O líder do grupo que procurou o JC representando a comissão de funcionários da Ajax - formada por 350 pessoas - afirma que a maioria dos seus companheiros é responsável pela única fonte de renda da família.

A pedido dos entrevistados, os quatros integrantes do grupo não terão seus nomes identificados na reportagem. Eles temem reações negativas por parte da direção da Ajax já que, apesar de estarem defendendo a manutenção das atividades da empresa, eles também estariam cobrando o cumprimento das 28 exigências feitas pela Companhia de Tecnologia e Saneamento Ambiental do Estado de São Paulo (Cetesb) para que a fábrica volte a funcionar.

O vereador e diretor do Instituto Ambiental Vidágua, Rodrigo Agostinho, é o principal alvo das críticas e desabafos dos funcionários.

“Na época das eleições, Agostinho foi várias vezes até a porta da empresa pedir votos para nós. Agora, parece que ele só está pensando na questão ambiental e esqueceu do desemprego. Como homem público, ele não poderia estar agindo assim”, diz o líder do grupo.

Para eles, o vereador não estaria levando em conta a idoneidade da Ajax - que atua em Bauru desde 1958 - e não estaria apresentando soluções para o problema.

“Ele não está apresentando propostas de melhoria sobre a poluição ao meio ambiente. É claro que a saúde da população precisa ser avaliada e levada em conta. Mas por que ele não se preocupou com isso antes? Só agora os problemas começaram? Pretendemos nos mobilizar contra as atitudes que ele vem tomando”, reclama um dos funcionários que falou ao JC.

O líder do grupo diz que trabalha há mais de 20 anos no segmento de baterias e que somente uma vez precisou ser afastado do trabalho por estar contaminado com chumbo. Com tratamento, o problema teria sido resolvido.

“Não estamos aqui para defender a empresa, e sim, porque estamos preocupados com a sobrevivência de nossas famílias. Eu trabalho na Ajax há 18 anos e nunca fui afastado por contaminação com chumbo. Fazemos exames a cada três meses”, diz um dos funcionários.

Dos quatro integrantes do grupo, todos eles têm esposa, filhos pequenos e seriam, segundo eles, os responsáveis pelo sustento de toda a família.

Vereador rebate

O vereador Rodrigo Agostinho nega a afirmação feita pelo grupo de funcionários da Ajax, de que ele teria pedido votos aos funcionários da empresa na campanha de 2000.

“Eu nunca fiz campanha eleitoral em nenhuma empresa da cidade. Não tenho nada contra quem faz isso, mas eu só fiz campanha nas escolas”, rebate.

Quanto às cobranças de ter tomado atitudes há mais tempo em relação à poluição que a fábrica estaria causando ao meio ambiente, bem como os danos à população, Agostinho diz que vem denunciando as atividades da Ajax desde 1994.

“Em momento algum o Vidágua disse querer que a empresa simplesmente feche. O que nós queremos é a sua adequação à legislação ambiental. A Ajax atua desde 1958 sem nunca ter tirado licença ambiental para funcionar. A partir do momento em que se adequar e parar de poluir, não haverá motivos para continuar paralisada”, afirma o vereador.

Sem cortes

O diretor de marketing da Ajax, Paulo da Silva Neto, diz que a empresa tem uma reunião agendada para hoje com o Sindicato dos Metalúrgicos, para tratar de questões trabalhistas.

Mas mesmo antes do encontro, ele adianta que, por enquanto, a empresa não pensa em fazer cortes de pessoal.

“Por ora, tudo continua como está. Os funcionários do setor metalúrgico foram transferidos para a unidade da empresa que fica no Distrito Industrial e permanecerão trabalhando lá. A empresa não pensa em demissões”, afirma Silva Neto.

O sindicato

O presidente do Sindicato dos Metalúrgicos, Cândido Augusto Gonçalves Rocha, procurou o Jornal da Cidade para registrar sua preocupação em relação à forma com que os problemas envolvendo a fábrica de baterias Acumuladores Ajax estariam sendo tratados.

“Eu considero que a maneira com que os fatos estão sendo tratados, em relação à contaminação por chumbo, é uma forma de terrorismo. Os funcionários estão muito preocupados e com medo de perder o emprego. O sindicato quer que a situação seja esclarecida, mas com cuidado e de maneira justa”, diz.

Rocha apresentou à reportagem os resultados dos últimos mil exames realizados com funcionários da empresa - no período de 13/1/98 a 1/3/2002 -, afirmando que nenhum teria acusado “nível preocupante” de contaminação por chumbo superior ao permitido pela Organização Mundial de Saúde (OMS), que é de 40 ug/100 ml (40 microgramas por 100 mililitros de sangue).

De acordo com os resultados, 404 exames ficaram na faixa de 0 a 10 ug/100 ml. Outros 596 ficaram entre 11 e 45 ug/100 ml.

Rocha critica algumas atitudes do Instituto Ambiental Vidágua, em relação a insistir em discutir laudos emitidos pela Companhia de Tecnologia e Saneamento Ambiental do Estado de São Paulo (Cetesb).

“O laudo da Cetesb já mostrou que a água coletada num córrego próximo à fábrica não está contaminada por chumbo. Não entendo de onde vêm tantas especulações por parte do Vidágua”, reclama o presidente do sindicato.

Por sua vez, o diretor do instituto, vereador Rodrigo Agostinho, diz que os exames não teriam acusado a contaminação pelo fato do chumbo ser um metal que não se dissolve na água.