09 de julho de 2026
RH & Tendências

Palestras convencionais estão em extinção

Gustavo Cândido
| Tempo de leitura: 4 min

“Por mais interessante que seja o tema, que seja o palestrante, é cansativo ficar olhando duas horas para a mesma pessoa”, justifica a publicitária, atriz e diretora de teatro paulistana Bruna Gasgon, que há cinco anos atua como consultora de recursos humanos dando palestras sobre temas relativos ao mundo empresarial usando encenações. A consultora sentiu a tendência das palestras-show se aproximando ainda nos anos 90. “Naquela época as empresas começaram a contratar atores para darem cursos de desinibição para os seus funcionários que precisavam dar palestras ou representar a empresa fora”, conta. O sucesso das aulas lhe mostrou o quanto era viável apresentar qualquer tipo de tema de maneira não-convencional. “As empresas gostaram, foram encomendando palestras sobre outros temas e eu abri uma empresa”, explica.

Hoje, Gasgon realiza performances sobre todos os tipos de assuntos comuns ao dia-a-dia de uma empresa, do relacionamento interno dos funcionários às técnicas de venda. Além disso, desenvolve palestras com temas específicos de acordo com a necessidade da empresa. Seus clientes vão de microempresas, de uma dúzia de funcionários à grandes multinacionais. “Já fiz apresentações para 2 mil pessoas”, lembra.

Melhor aproveitamento

Na opinião da consultora, uma das grandes vantagens das apresentações não-convencionais é que a pessoa que está assistindo a palestra se diverte ao mesmo tempo em que adquire uma informação que vai melhorar sua vida profissional. Para o empregador também é vantajoso. “Às vezes a empresa quer passar algo para o funcionário mas tem medo de colocar isso diretamente para ele, então eu passo a informação na apresentação”, aponta Gasgon. Para ela, o distanciamento faz com que o funcionário consiga captar a mensagem sem achar que a empresa está puxando sua orelha. “Ele vai aprender a se criticar, se corrigir, sem se melindrar”, explica.

As psicólogas Cassiane Poiato Gaffo, Karina Furlanetto, Michela Kauffmann Pires e Danielle Ferrarezzi, que desenvolvem o projeto Psicoart, de assessoria em desenvolvimento humano para empresas, escolas e instituições com o uso de técnicas teatrais para a exposição dos temas, apontam ainda outra vantagem de se usar a encenação em palestras, a percepção visual. Numa palestra convencional, a pessoa se limita a ouvir um palestrante que quase não se movimenta ou se altera, então sua percepção é quase exclusivamente auditiva. Quando há uma encenação há o estímulo visual, há uma historinha a seguir, o que facilita a memorização e o entendimento do tema. â€œÉ mais fácil das pessoas assimilarem as idéias. O público se projeta no personagem e assim fica mais fácil dele ‘participar’”, diz Gaffo.

O grupo, que desenvolve as encenações de acordo com a necessidade do cliente, além de ter algumas palestras-show prontas com temas mais comuns como 5S, qualidade total e liderança, surgiu justamente por acreditar que as empresas atualmente querem formas inovadoras de levar informações e conhecimento para os seus funcionários. Assim como Bruna Gasgon, as quatro psicólogas também acabam tomando parte nas encenações, além de criá-las com a ajuda do teatrólogo Munir Zalaf. “Viramos atrizes também”, brinca Gaffo.

Para a psicóloga Regina Maria Vidotti o uso de encenações em palestras é positivo para sensibilizar as pessoas e passar uma idéia geral sobre um conteúdo, de um modo lúdico, mais leve do que em uma palestra comum. “As pessoas realmente compreendem as coisas com mais facilidade”, diz. Vidotti salienta, porém, que a técnica não seria a mais apropriada para um programa constante, de educação continuada em uma empresa. “O ideal não é um curso todo com o teatro, apenas um início de projeto, uma palestra para desenvolver um tema e sensibilizar as pessoas”, afirma.

Mágica

O designer e professor do curso de Publicidade da Universidade do Sagrado Coração André Luiz Petraglia desde 1999 dá palestras-show, nas quais faz uso de encenações. O que o torna diferente dos outros que atuam na mesma área é o uso de truques mágicos durante suas apresentações. “Comecei a mexer com mágica ainda na juventude e utilizo até hoje em algumas das minhas apresentações”, conta.

O que o motivou a criar a palestra “Atitude Criativa”, que possui quatro formatos predeterminados - nos quais há maior ênfase no lado lúdico ou no científico, de acordo com o desejo do cliente, que também sugere o tema central a ser abordado - foi idéia era unir palestra e espetáculo para fugir da monotonia das apresentações. “Normalmente você paga R$ 25,00 ou R$ 30,00 para assistir uma palestra de uma hora para que a pessoa fique passando dados de uma maneira que não dê nem para anotar. Eu prefiro comprar o livro da pessoa. Se a pessoa não passa a mensagem que eu possa fixar de maneira diferente não tem o interesse de assistir”, declara.

Na opinião de Petraglia, em palestras comuns as pessoas vão embora com a impressão de que ouviram uma porção de informações mas que só conseguiram captar 10 ou 15% do conteúdo.

“As pessoas têm que sair da palestra com a impressão de que assistiram um bom filme”, afirma o professor. Para Petraglia, o objetivo da sua palestra-show é aumentar o nível de fixação da mensagem. “Isso acontece porque se associa uma idéia teórica, a uma brincadeira inesquecível porque está associada a uma piada, um elemento visual muito forte. É uma maneira mais fácil e agradável de guardar a informação”, diz.