08 de julho de 2026
Geral

Animais tornam-se reis dentro de casa

Rose Araujo
| Tempo de leitura: 5 min

Fiéis, charmosos e muito carinhosos, os bichos de estimação estão cada dia mais inseridos no cotidiano das pessoas. De acordo com o médico veterinário Marcos Antonio Silvério, que atua há mais de 20 anos na profissão, nos últimos tempos a paixão pelos animais está atingindo cada vez mais pessoas. “Tem aumentado consideravelmente o número de pessoas que possuem bichos de estimação”, conta.

Para ele, isso é conseqüência do final de século. “O relacionamento com o ser humano está ficando difícil. As pessoas se isolam no seu mundo e o canal para liberar as emoções está nos animais domésticos”, salienta.

Em sua clínica, ele conhece os mais variados tipos de relacionamento entre homens e animais. “Tem gente que tem verdadeira adoração pelos seus bichinhos”, diz.

O caso da socialite Vera Loyola foi o que mais chamou a atenção do País nos últimos anos. O amor pela sua cadela pequinês Pepezinha era tão grande que ela promoveu festas de aniversário e de casamento para a cachorrinha, com direito a glamour e Parabéns a Você cantado na linguagem canina.

O relacionamento entre as duas volta a tona agora, com a morte do animal, que deixou a empresária muito abalada.

Exemplos como o de Vera não são difíceis de serem encontrados. A oficial de justiça Cibeli Ana Rosetti, por exemplo, tem a tradição de presentar os seus dois gatos todos os anos com uma festa de aniversário e outra de Natal. “Eu faço como se fosse um aniversário de criança. Mando fazer bolo, docinhos, decoração especial temática e convido meus amigos para comemorar”, conta.

Kyan, de 9 anos, e Anselmo, de 8, são como reis na casa de Cibeli. Ganham presentes todos os meses e vivem cercados de carinho e atenção.

Fanática por gatos, Cibeli coleciona miniaturas dos bichanos, tem almofada, colcha, telefone, tudo com desenho desses animais. “Sou realmente apaixonada por gatos. Eles são carinhosos, engraçados e têm uma coisa diferente na personalidade que me chama a atenção”, explica.

Ela diz que já chegou a receber algumas críticas por causa dos mimos que faz aos seus bichos de estimação, mas procura não dar atenção aos comentários. “Cada um tem um gosto diferente. O meu, são os gatos”.

Os bichanos também tomam conta da casa da vendedora Susan Braga de Souza. Na última contagem, haviam 30 gatos na residência. “Eu nem sei mais quantos são, já que alguns foram embora e outros, meu pai doou”, salienta.

De acordo com ela, há cerca de quatro anos, uma gata apareceu na casa dela e conquistou a simpatia da família. “Nós a achamos lindinha, demos comida e carinho e ela acabou ficando conosco”, diz.

Passados uns dias, a gata deu cria a quatro filhotes fêmeas. Susan e a irmã, Érica Braga de Souza, ficaram encantadas e decidiram que iriam ficar com a prole também. A história se repetiu tempos depois e os filhotes foram ficando na casa. Hoje, já chegam a 30 exemplares. “Nós temos consciência dos problemas que essa quantidade de animais causa, mas procuramos cuidar deles da melhor maneira possível”, diz.

O pai da vendedora, o empresário João Bosco de Souza, é o único na casa que é contra a permanência dos gatos. Ele tentou doar uma parte dos bichanos, mas encontrou resistência da família. “Minha irmã conhece os bichinhos pelo miado. É incrível”, salienta Susan.

Atendendo às necessidades

Não são apenas os gatos que despertam grandes paixões. Os cachorros são campeões nesse quesito e honram com todas as letras o ditado “o cão é o melhor amigo do homem”.

A recíproca é verdadeira. Banzé, um pincher de quatro anos de idade, escolheu como companheiro uma pessoa 90 anos mais velha do que ele: o aposentado Carlos Loschl. Do alto dos seus 94 anos, ele conta que o cãozinho é o seu grande amigo no momento. “Onde eu vou, ele me segue. Quando sento para assistir televisão, ele deita do meu lado e não sai enquanto eu não me levantar. A gente conversa bastante também”, conta.

A dona-de-casa Elizabeth Pagano, filha de Carlos, lembra que ele tinha certa resistência a animais. “Eu tinha um outro cachorro antes, da mesma raça, e meu pai nem ligava para ele. Com o Banzé foi diferente. Eles ficaram amigos desde que se conheceram”.

A empresária Ondina de Carvalho Brustello diz que nunca sente-se sozinha quando os seus cachorros estão por perto. “Eles são atenciosos e muito companheiros”, salienta.

Apaixonada por bichos de estimação, ela conta que sofre até hoje quando lembra da morte de um outro cachorro que teve. Max, um boxer de 9 anos de idade, ficou doente e acabou morrendo em maio do ano passado. “Eu fiquei acabada. Emagreci um quilo em uma semana e não me conformei com a perda dele”, destaca.

Ela conta que os animais tem liberdade total em sua residência. “Eles só não dormem dentro de casa porque não querem”.

Ela costuma presenteá-los com freqüência e nunca levantou um dedo para castigá-los. “Deus me livre. E se eu souber que alguém deu um tapa sequer nos meus cachorros eu viro fera”, salienta.

Para a psicóloga Claudia Tebet Manaia, o convívio com os animais é altamente positivo para o ser humano. “Os bichos costumam ser muito carinhosos e ensinam as pessoas a como ter amor incondicional”, explica.

De acordo com ela, a paixão pelos bichos pode estar associada a muitos fatores, entre eles a solidão e a dificuldade em dar afeto para outros seres humanos. “Tem gente que não consegue se relacionar com outras pessoas, mas demonstra um carinho incrível pelos animais”, diz.

Ela só desaconselha o amor em exagero. “Tudo que é demais é prejudicial. Tratar o animal como ser humano pode ser sinal de algum tipo de distúrbio”.

O veterinário Marcos Antonio Silvério destaca que, para os bichos, essa relação muito intensa também pode trazer conseqüências ruins. â€œÉ preciso respeitar os limites de cada um. Os animais têm suas particularidades que precisam ser observadas”, salienta.

Alimentar o cachorro com a mesma comida da família, por exemplo, pode ser prejudicial para o bicho. “Nem sempre o que faz bem para a gente é saudável para o animal”, diz.