Os velhos anarquistas, que já estavam flertando com os socialistas, diziam que as barricadas não eram mais necessárias. Tinham surgido as “pedras de papel†para serem arremessadas contra a burguesia. As “pedras de papel†eram os votos, talvez o principal instrumento da democracia colocado nas mãos do cidadão para firmar o seu poder político.
Nós já não temos as antigas e boas “pedras de papelâ€. As urnas são eletrônicas e a nossa maneira de ser é novidadeira. Grandes democracias não adotaram ainda o voto por computador. Primeiro, porque ainda acreditam no poder simbólico da cédula eleitoral. Depois, porque o sistema do voto informatizado ainda não foi totalmente testado contra fraudes e tramóias e é preferível esperar mais um pouco até que o sistema seja totalmente seguro. Não importa, mesmo essas grandes democracias vão chegar lá, obedecendo ao caminho inexorável da globalização. Dentro de algum tempo não haverá mais a “pedra de papel†em lugar nenhum.
A imagem das “pedras†é muito boa para mostrar que quando o poder cidadão está unido pode sepultar, através do voto, uma idéia que repudia. Pode também legitimar um projeto ou um nome que aprova. Perfeito, mas toda essa idéia pode estar meio antiquada.
O professor Roberto Gargarella, da Universidade de Buenos Aires, em um artigo recente, lembra que o voto precisa ser mais que uma pedra, “uma ferramenta pobre, pesada, rígidaâ€, onde não entra em discussão a questão da maioria. E é verdade. Com todas as novas ferramentas que foram incluídas nas batalhas eleitorais e com a complexidade crescente que existe na gestão pública fica difícil saber quem são os justos e quem são os pecadores. Os que tiveram 40% ou os que tiveram 30% dos votos? O jogo da maioria pode não estar mais exemplificando os desejos da sociedade, ela também, desigual, fracionada, multifacetada.
Gargarella recorre à crise da Argentina. Ele diz que as milhares de pessoas que foram para as ruas protestar demonstram que alguma coisa foi rompida, que uma maioria está cansada de não poder falar, se exprimir, de não contar com meios para fazê-lo. Pior, uma maioria vítima da má interpretação de seus recados explicitados na últimas rodadas eleitorais. O professor afirma que nem as pedras reais e nem as pedras de papel são suficientes para tornar efetiva a sustentação ou a mudança de um governo. Hoje em dia é preciso mais. “Depois de mais de 200 anos de vigência da democracia constitucional no mundo, é hora de começarmos a repensar o sistema institucional que, desde então, só tem envelhecidoâ€. Um sistema que vem deixando à margem aquilo que mais diz respeito ao cidadão - o direito de decidir e escolher.
O sociólogo francês Edgar Morin vai mais longe. Ele acha que se, com a globalização, existe uma sociedade-mundo, porque não existe também uma governança democrática mundial baseada no sentido de um civismo planetário. De uma emergência de uma sociedade civil mundial, de uma ampliação das Nações Unidas. A globalização é movida por quatro motores associados e ao mesmo tempo descontrolados: ciência, técnica, industria e capitalismo (lucro). O problema está em estabelecer um controle desses motores através da ética, que só pode ser implementada através da política. Edgar Morin é pessimista com relação a isso. Ele acha que para chegarmos à civilização mundial a humanidade vai passar muito tempo sofrendo as dores do parto - ou do aborto.
Mais rápidos são os candidatos, na mesma França de Morin. A presidencial será no dia 21, com 16 candidatos no primeiro turno. E a maioria deles tem uma receita para diminuir a distância entre o representante e o representado, mas todas se resumem no seguinte: a democracia participativa, o novo remédio contra a fratura política. Lionel Jospin propõe que sejam desenvolvidos referendos locais e regionais para uma melhor participação dos cidadãos nas administrações. Jacques Chirac quer renovar o pacto democrático recorrendo com freqüência ao referendo, principalmente o referendo de iniciativa popular. Na verdade eles querem mesclar a democracia representativa com a democracia direta para dar maior legitimidade política aos seus mandatos. É que a cada dia mais a população se distancia da política, não se interessa mais. O que não é bom para a sociedade, mas, num primeiro momento, é muito pior para o político que se torna uma figura dispensável. Aqui a discussão está nas universidades, nos institutos de estudos sociais, entre os pesquisadores. Os políticos ainda não tiveram tempo de tratar do assunto. (Fernando José Dias da Silva é articulista da Agência Estado)