A 130 quilômetros de Bauru, em Piraju, existe um paraíso para os pescadores esportivos, o único trecho preservado do rio Paranapanema. Lá, dourados, tabaranas, surubins, piaparas e pacus ainda desafiam os pescadores em grandes corredeiras. Porém, esse lugar está ameaçado pela construção de mais duas barragens.
É difícil ver com alegria a construção de mais uma barragem, seja onde for, pois o Brasil carrega uma série de exemplos desastrosos nesse segmento. Apesar de sua importância na geração de energia, o impacto ambiental causado pela construção de uma barragem chega a ser incalculável.
A Usina Hidrelétrica “Sérgio Mottaâ€, por exemplo, apesar das ações para garantir a preservação ambiental da região inundada, muitas animais desapareceram. Alguns vivem em parques públicos ou foram readaptados em outras regiões, o que não deixa de ser um desequilíbrio ambiental. Sem falar na mata ciliar e nas riquezas minerais e arqueológicas que em muitos lugares ficarão submersos para sempre.
Mesmo com sofisticado elevador para peixes, o único no Brasil, ainda não se sabe o resultado desses investimentos. No período de piracema, quando os peixes sobem para procriar, eles orientam-se pelo leito do rio. Após a barragem, o local está tomado por um gigantesco lago e seu leito modificado.
A maioria das espécies brasileiras encontra nas corredeiras o caminho para subir o rio e se reproduzir, e as barragens têm causado um forte impacto no desenvolvimento desses peixes. Uma das alternativas adotadas nos grandes lagos, além das escadas para peixes, é o repovoamento. Porém, as espécies utilizadas nem sempre correspondem às existentes na bacia hidrográfica.
O tucunaré, por sua fácil reprodução e interesse esportivo, tem sido inserido em diversas bacias brasileiras. A espécie, natural da bacia Amazônica, é muito procurada pelos pescadores por sua agressividade. O predador, como é conhecido, assemelha-se ao dourado em voracidade e esportividade, mas sua forma de reprodução é em lagoas, o que facilita sua adaptação.
A Organização Ambiental Teyquê-pê foi criada em setembro de 2001 com o objetivo de desenvolver programas de pesquisa, estudos e projetos voltados à preservação dos recursos hídricos na área da Bacia Hidrográfica do Alto Paranapanema. Seu presidente é o ambientalista e pescador esportivo João Kleber Dealis, que vem mobilizando comunidades e entidades na defesa do meio ambiente na região.
Em Bauru, o engenheiro civil Rodrigo Salles, 25 anos, é representante da ONG e faz um apelo aos pescadores e amantes do meio ambiente a engajar-se na preservação da região de Piraju. Pescador esportivo de fly há quatro anos, Salles vê com tristeza a construção de novas barragens no rio Paranapanema. “Já fiz várias pescarias de tabarana no rio Paranapanema, onde em breve haverá um grande lago.†Prima do dourado, a espécie já ameaçada de extinção, habita as águas de corredeira, o que dificilmente encontrará com a formação de novos lagos.
Segundo informações de Salles, uma das barragens que fornecerá energia para a Companhia Brasileira de Alumínio, do grupo Votorantim, deverá ser concluída em setembro, momento em que o lago será inundado. A segunda barragem, informa o engenheiro, está prevista para o ano de 2003. A cidade já possui duas hidrelétricas (Jurumirim e Paranapanema) e deverá ter mais duas (Paraju I, que está praticamente pronta, e Piraju II), o que preocupa os ambientalistas.
Apesar da Companhia Brasileira de Alumínio, que coordena o projeto da usina, garantir que serão desenvolvidas ações para a reprodução das espécies, João Kleber Dealis não acredita no desempenho da escada artificial. “Por mais que você faça a escada, estará modificando o ambiente, a reprodução e a vida dos peixes para sempreâ€, comenta o ambientalista.
Outro alerta da organização não governamental é relativa ao patrimônio histórico e cultural do município, o salto do “Pira-Yúâ€, que no idioma indígena quer dizer “peixe douradoâ€, o que deu origem ao nome da cidade. Eles temem pelos saltos, corredeiras e mata ciliar primária remanescentes da Mata Atlântica.
Os ambientalistas fazem um apelo a outras organizações e população para aderir ao movimento. “Somos uma organização nova, que está se estruturando e queremos ajuda para evitar a construção da quarta barragem em Pirajuâ€, finaliza Dealis.
O engenheiro civil e pescador de fly Rodrigo Salles lembra ainda dos esportes e do turismo dependentes do rio Paranapanema. “Piraju já sediou uma etapa do brasileiro de rafting (descida do rio em barco inflável) e etapas do Campeonato Brasileiro de Slalow (descida pelas corredeiras em caiaque) é o município pode se desenvolver muito no setor turístico e de pesca esportiva. Pescadores de fly têm valorizado a região, que possui excelentes espécies esportivasâ€, comenta Salles.
Segundo informações veiculadas no site na Companhia Brasileira de Alumínio, do grupo Votorantim, a unidade em construção em Piraju deverá chegar a uma geração anual de 400.000 MWh. “Essa usina aproveitará as águas do rio Paranapanema em trechos distante dez quilômetros da cidadeâ€, informa o site.
O empreendimento prevê, ainda de acordo com o site, um conjunto de programas ambientais, como limpeza da área de inundação, reflorestamentos, construção de escada de peixe e conservação da ictiofauna, além do resgate do patrimônio arqueológico e usos múltiplos do reservatório.
Serviço
Informações sobre a Organização Ambiental Teyquê-Pê podem ser obtidas no site www.piraju.com.br/teyquepe ou com Rodrigo Salles pelo telefone (14) 9652-4452. O endereço é rua Washington Osório de Oliveira, 819, Piraju, SP, telefone (14) 3351-3858.