09 de julho de 2026
Articulistas

As semelhanças entre 2 golpes

(*) José Cademartori
| Tempo de leitura: 3 min

O golpe de Estado do dia 11, contra o presidente Hugo Chávez, mostra notáveis analogias com o que foi cometido no dia 11 de setembro de 1973 contra o presidente Salvador Allende. Com quase 30 anos entre um e outro, vale a pena repassar as circunstâncias que os cercaram e as funções cumpridas por diferentes atores, que parecem movidos por um mesmo roteiro e com um diretor acostumado a repetir seu trabalho. Nos dois casos, tratavam-se de governos legitimamente eleitos e regidos por constituições democráticas: a chilena vigente desde 1925, a venezuelana sancionada por plebiscito em 1999.

Tanto a Unidade Popular do Chile quanto o Movimento Bolivariano da Venezuela levantaram programas de reformas sociais e econômicas profundas que estavam sendo executados tal como haviam prometido seus líderes. As minorias oligárquicas afetadas nos dois países sentiram, pela primeira vez, que perderiam o poder e seus seculares privilégios e decidiram não esperar o cumprimento dos prazos constitucionais - mais três anos para Allende e mais três anos para Chávez - para tentar recuperar o poder através de eleições. Assim, os planos para derrubá-los foram decididos no início de seus mandatos presidenciais. Allende declarou que somente morto o fariam desistir do cumprimento de suas promessas. Chávez assegurou que não renunciaria e esteve prisioneiro dos generais que o atraiçoaram e ameaçaram sua vida.

Em ambos os casos, a ordem partiu da Casa Branca, coincidentemente quando seus inquilinos, Nixon naquela época, e agora Bush, pertencem ao Partido Republicano, que não esconde sua predileção pelo uso da violência e pelas “operações encobertas”, que incluem em seu repertório subornos, mentiras através dos meios de comunicação e assassinatos, com a intenção de tirar e colocar governos no continente. Consumados os golpes, declararam seu pleno apoio às juntas de governo por eles mesmos sugeridas. Embora os partidos políticos locais estivessem, sem escrúpulos, envolvidos nos trabalhos golpistas, como o Partido Nacional e a Democracia-Cristã, no Chile, Ação Democrática e Copei, na Venezuela, o primeiro plano da sedição ocupou “as organizações sindicais”, para dar a aparência de que foram as forças vivas da sociedade que se rebelaram contra governos ilegítimos.

Um papel especial na estratégia golpista é o cumprido pelas ações de sabotagem nas principais indústrias de ambos os países, com a finalidade de afetar a entrada de divisas no país e prejudicar as relações com seus clientes estrangeiros. No Chile, no grande setor de mineração do cobre, supervisores e altos funcionários recrutados pelos golpistas pretendiam paralisar os trabalhos. Na Venezuela, os executivos da Petróleos da Venezuela, que gozam de privilégios exorbitantes, realizaram paralisações ilegais para afetar as exportações e opor-se ilegalmente à nova administração.

Aproveitando o monopólio dos meios de comunicação, os golpistas venezuelanos instalaram na mente dos espectadores a noção de que lutavam pelas liberdades e direitos políticos ameaçados pelo “ditador” Chávez. Do mesmo modo, no Chile os golpistas asseguravam que Allende estava a ponto de instaurar “a ditadura do proletariado”. Nos dois casos, a farsa foi desmascarada. A junta pinochetista do Chile e a junta cívico-militar da Venezuela, junto com a derrubada dos presidentes legítimos, instalaram regimes sem Constituição, sem poder legislativo nem judicial.

Na Venezuela, seguindo seus êmulos chilenos, os donos dos meios de comunicação se encarregaram de ocultar a repressão e facilitar a impunidade das violações dos direitos humanos. (IPS)

(*) José Cademartori é presidente do Instituto de Ciências Alejandro Lipschutz, em Santiago do Chile