Apesar de ninguém gostar de falar sobre demissão, para que ela aconteça basta estar empregado. Mesmo os profissionais mais estáveis e competentes na sua função um dia imaginam o que poderia acontecer caso fossem demitidos. As pessoas mais equilibradas, otimistas e sociáveis, porém, são as que podem temer um pouco menos esse fantasma. Isso porque, de uma maneira geral, são pessoas com esse perfil que ganham a parada e mantém o emprego quando a direção precisa escolher quem fica e quem sai da organização.
É claro, que nenhuma pessoa centrada, alegre e prestativa mantém o seu cargo se não for competente. Se o profissional não estiver desempenhando bem a sua função, seu temperamento não vai salvá-lo de uma demissão. Essa vantagem só vai existir no caso de uma disputa entre um par ou um grupo de pessoas, no qual todos têm a mesma capacidade técnica. De um modo geral, as empresas, mesmo aquelas que possuem um sistema de avaliação dos seus funcionários, na hora da demissão escolhem aqueles que não estão bem, “que estão no fim da fila dentro de um critério técnicoâ€, diz o consultor Davison de Lucas.
Qualidades
Se todos os que estão “no fim da fila†(ou quase na porta da rua) e possuem a mesma habilidade, são seus dotes pessoais que passam a contar. “Se a pessoa tem um relacionamento interpessoal positivo dentro da empresa, por exemplo, isso conta a favor dela porque traz harmonia para o ambienteâ€, diz a psicóloga organizacional Maria Madalena Lazari Kawashima. Na opinião dela, harmonia no local trabalho é muito importante para empresa que pode usar esse quesito num critério de desempate entre dois ou mais funcionários na berlinda.
“Se pessoa tiver uma boa comunicação e souber trabalhar em equipe melhor para ela. Para isso a pessoa precisa ter um equilíbrio maiorâ€, afirma Kawashima. Quem não consegue estabelecer essa relação positiva com os companheiros vai ter um ponto a menos com quem vai decidir a sua posição, acredita a psicóloga.
O equilíbrio é outra qualidade que tende a ser avaliada e nessa hora, os casados tendem a levar uma certa vantagem. Isso porque, em teoria, as pessoas que tem um companheiro, casa e família, tendem a ser mais responsáveis e tranqüilas no trabalho porque precisam mais dele do que os solteiros. Uma das defensoras dessa tese a sexóloga americana Shere Hite, autora de “Sexo & Negóciosâ€, publicado pela Bertrand Brasil. Ela se interessou pelo assunto ao verificar que 95% dos executivos das 500 maiores empresas americanas, de acordo com a revista Fortune, são casados. O que seria coincidência demais na sua opinião. “Tenho a impressão de que existe uma regra implícita nas empresas... Como se ter uma família desse ao profissional mais estabilidade emocional para lidar com os desafios da carreiraâ€, analisa a autora.
Isso não significa que os solteiros sempre percam no quesito estabilidade, mas se eles pretendem deixar a disputa no mesmo nível, devem deixar claro para a empresa que não pretendem, de uma hora para outra, seguir um impulso e largar tudo por falta de vínculos na vida pessoal.
Ser uma pessoa otimista também pode contar um ponto a favor e por uma razão simples: ninguém gosta de ter por perto uma pessoa que vive sempre vendo o lado negativo das coisas. â€œÉ muito melhor trabalhar com pessoas que têm uma visão positiva dos fatosâ€, avalia Kawashima.
Empresas ainda não têm política de demissão
Não são raros os casos de pessoas que perdem o emprego de um dia para o outro sem saber exatamente a razão e deixam o ex-local de trabalho cheias de ressentimentos e dúvidas sobre a qualidade do seu serviço.
A razão para isso é a falta de uma política de demissão na maioria das empresas brasileiras, como explica o consultor Davison de Lucas. Na opinião dele, apenas as grandes companhias e multinacionais praticam a chamada demissão responsável, que não se limita a apenas colocar o empregado na rua, mas também a pensar em como ele vai conseguir se recolocar no mercado ou ser recompensado pelo tempo de dedicação à empresa.
Um exemplo de demissão responsável foi praticado pela Brasil Telecom, empresa de telefonia surgida em 1998 com a privatização do sistema Telebrás. A empresa criou um programa de demissões para enxugar o seu quadro de funcionários. O programa previa três opções para os funcionários: se recolocar dentro da empresa em outro cargo; receber salários extras para realizar projetos pessoais; e contar com a ajuda da empresa para abrir um negócio. O resultado: 5.569 profissionais de vários os setores foram dispensados e saíram felizes.
Para criar seu programa de demissões a Brasil Telecom teve a ajuda de uma consultoria francesa. Em vários países da Europa - entre eles a França e Espanha - as organizações são obrigadas a traçar um plano social e ajudar as pessoas. No Brasil, a prática talvez ainda demore para se democratizar. “As empresas pequenas e médias e as familiares ainda não escreveram seus procedimentos, não têm um manual de qualidade. Isso gera a criação de critérios subjetivos de análise na hora da demissão e, é claro podem ocorrer injustiçasâ€, diz Lucas.
Um exemplo positivo em Bauru é a Caetano Tubos, que há alguns anos possui um sistema de avaliação interna do seus profissionais que facilita o trabalho no caso de uma eventual demissão, embora o seu propósito não seja só esse. Além disso, a empresa, segundo a assistente de diretoria Adenise Maire Saraiva Ramirez, tem o hábito de fazer um acompanhamento dos profissionais dispensados, que são encaminhados para uma empresa para serem recolocados no mercado.