10 de julho de 2026
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Pedofilia na igreja

Zarcillo Barbosa
| Tempo de leitura: 3 min

A Igreja Católica não sabe mais o que fazer para abafar os escândalos que pipocam no mundo inteiro, envolvendo religiosos em casos de pedofilia, homossexualismo e abuso sexual. Nos Estados Unidos, as ações indenizatórias perpetradas pelas vítimas põem em cheque até a vida econômica das dioceses, num país onde a economia de mercado, o respeito à Justiça e o cumprimento das leis servem para todos.

O papa, muito sabiamente, preferiu não ignorar mais que esse problema existe e até o aborda em suas homilias. No Brasil, a Igreja pede ajuda a pedagogos e psicólogos para reforçar a formação dos padres, principalmente no parâmetro humano-afetivo. No entanto, o papa e os seus purpurados continuam fechados na questão do celibato clerical. O padre já é casado com a fé e a família seria um fator desviante de suas obrigações para com o rebanho. Essa forma de abstinência nasceu entre os cristãos primitivos, os hindus e os budistas como simples forma de racionalização da necessidade. Lutero foi o primeiro a se rebelar contra “a prática perversa e impura do celibato”.

Foi editado no Brasil o interessante livro “A assustadora história da maldade” onde Oliver Thomson faz uma genealogia da moralidade e das tendências éticas ao longo dos tempos. Conta que o desequilíbrio na quantidade relativa dos sexos ou as condições econômicas tornaram o casamento difícil durante toda a Idade Média até o século XIX. A média européia de celibatários era de 33% em 1850. Santo Agostinho e Santo Tomás de Aquino surpreendentemente abençoaram a prostituição como um meio para reduzir o adultério e de “quebrar o galho” dos que não tinham como manter uma esposa. Receberam, inclusive, o aval do Estado.

Os desvios sexuais têm sido vistos como conflitantes como o sistema familiar e, portanto, considerados tabus para a maioria das sociedades. Mas, muitas vezes foram provocados pela falta de mulheres. Sodoma e Gomorra, embora não esteja claro no Antigo Testamento, parece que foram acometidas do mesmo mal.

Vários povos têm sido tolerantes com a homossexualidade – os gregos no período clássico, os vikings, os normandos ingleses, os japoneses medievais, os chineses modernos. Epaminondas de Tebas tinha um exército formado por pares masculinos, guerreiros temíveis que se exercitavam nus. Houve um templo homossexual em Jerusalém. Nos anos 60 do século XX a homossexualidade chegou a se tornar uma moda, de maneira que nesses períodos foi não apenas tolerada como também encorajada.

O abuso das crianças tem sido mais universalmente condenado mas pode ter prevalecido em algumas épocas. A pederastia com meninos de 12 anos era aceitável na Grécia antiga. Os romanos achavam que a pedofilia ajudava na perpetuação do Império porque as vítimas cresciam com espírito mais ofensivo para serem soldados e estuprar os vencidos como forma de espalhar o terror. Um exemplo clássico e recente foi o estupro em massa de mulheres muçulmanas da Bósnia por soldados sérvios à guisa de “limpeza étnica”. A isso se acrescenta a longa história de estupro individual – de escravas, serviçais, inquilinas e esposas – ao qual se tem feito vistas grossas durante milênios.

A sociedade é dinâmica. As coisas mudam e a Igreja também precisa pensar em mudanças. Os colonizadores europeus escandalizavam-se com o topless das mulheres africanas no século XIX. No final do século XX as mulheres européias vão às praias africanas de topless, enquanto tribos locais adotaram o puritanismo europeu.

A lição da história, conclui Thomson, é que as moralidades mais bem sucedidas basearam-se no medo. Quando os membros do grupamento social começam a achar que esse negócio de tormento eterno, exposição ao ridículo e desaprovação social deixaram de ser relevantes, o medo desaparece e o sistema cai no desequilíbrio. O desafio para este novo século é construir um etos amadurecido, baseado em objetivos positivos, e não negativos. Para a Igreja e para todos nós o único código capaz de ajudar a compreender a crise que desafia o Planeta, será aquele construído a partir da compaixão e não só do medo. (O autor, Zarcillo Barbosa é jornalista e colaborador do JC)