11 de julho de 2026
JC Criança

Uma professora muito maluquinha passou por Bauru

Luly Zonta
| Tempo de leitura: 3 min

Ela é professora de verdade e dá aulas desde os 15 anos. Ela não gosta de falar, mas tem 36 anos. Piedade Rosa, conhecida por todo mundo como Tuca, um apelido que acabou virando nome. Essa professora muito maluquinha esteve em Bauru, participando da 2a Feira do Livro Infantil e andou aprontando por toda cidade.

Tuca veio mostrar para as crianças a importância da leitura e contar que o “livro quando está sozinho, está morto e só quando é lido pode voltar a viver”.

Entretanto, ela quase não consegue conversar com todas as crianças. Essa professora chegou atrasada em Bauru por causa do avião que demorou e do táxi que não estava no aeroporto. Mas como é muito maluquinha mesmo, ao entrar no Centro Cultural e descobrir que os alunos da escola estadual Luiz Braga, ficaram esperando, esperando e ela não veio, pegou uma perua da prefeitura e foi até a escola. Lá, ela pôde conversar com todo mundo, mais de 230 crianças. Teve até uma classe de alunos “muito, muito, muito especiais”, como ela diz, que estava lá para ouvir suas histórias a-través de uma professora que traduziu tudo simultaneamente na linguagem dos surdos-mudos.

“Um garotinho, que participou da história do ‘Joe-lho Juvenal’ me fez até chorar, mesmo sem escutar ele demonstrava uma alegria tão grande”, se emociona novamente. â€œÉ por isso que eu abdiquei da minha vida para contar histórias.”

Na verdade, o projeto da Professora Maluquinha é um trabalho onde as crianças vão descobrir o livro, mas o encontro com a professora maluquinha vai fi- car marcado para sempre. “Essa mestra nada mais é do que aquela professora que a gente nunca esqueceu e que aprendeu muito com ela”, explica Tuca.

Na sua palestra, a professora maluquinha não fala só sobre as obras do Ziraldo, mas também lembra Monteiro Lobato e outros autores que fazem a rica literatura nacional. Mais que contar uma história, Tuca quer deixar uma mensagem: “O livro é o nosso melhor amigo”, diz a professora, que tem olhos brilhantes e cujas palavras voam na sala de aula ou nos corredores de uma biblioteca.

Ela é de carne e osso

Há quatro anos, Tuca desenvolve este trabalho de valorização da leitura por todo o Brasil. Ela foi escolhida pelo próprio Ziraldo, autor de “O Menino Maluquinho” e “Uma Professora Muito Maluquinha” para ser a única personagem real. Ela conta que no teatro outros atores interpretam a turma criada pelo Ziraldo, mas para ensinar de verdade só ela.

“Eu estava numa escola em São Paulo, onde trabalhei por 13 anos, cuidando do pré-primário num colégio com dez mil alunos aguardando a vi-sita do Ziraldo. “Quando o Ziraldo chegou ele sofreu um impacto, porque eu sou a capa do livro. O meu rosto é muito parecido com o desenho que ele fez em 95, mas ele me conheceu em 97.”

O livro “Uma professora muito maluquinha” foi uma homenagem que o autor fez para a sua primeira professora, a Tia Catá. Na época, o garoto ainda respondia pelo seu nome completo de Ziraldo Alves Pinto.

“Quando eu comecei a contar história, o Ziraldo chorou, porque o meu tom de voz e o jeito com que eu conto história, era realmente igual ao da Tia Catá”, ela relembra.

Depois disso, Tuca ouviu o Ziraldo dizer para o pessoal da editora que não iria mais às escolas para contar história. Ela é quem deveria ir no seu lugar.

“Isso foi em julho. Quando foi em dezembro, ele chegou para o diretor da Editora Me-lhoramentos e perguntou: você já contratou aquela moça? Aquela maluquinha? Aquela doida, que conta histórias como eu nunca vi na minha vida? O diretor nem não sabia quem eu era, mas em janeiro de 1998 iria ser realizada a Bienal Internacional do Livro, em São Paulo. Achei que fosse um free lancer (trabalho temporário, sem compromisso), mas estou contando histórias até hoje. São mais de 200 mil crianças. Conheço cada canto desse País de gente pobre e gente rica que só a edu-cação pode mudar.”