A problemática da drenagem das águas pluviais em Bauru talvez fosse menor se a idéia dos bairros-jardim tivesse emplacado na cidade. Importado da Inglaterra e “vendido†para São Paulo a partir de 1910, o modelo foi um sucesso na capital, que ainda hoje tem na região dos Jardins sua mais bela paisagem em termos de área verde. E não é só a beleza. A fartura de terrenos permeáveis, obviamente aliada à infra-estrutura bem dimensionada, também livra a nobre região paulistana das inundações.
Bauru tem sim os reflexos dessa concepção urbanística, pois nada menos que um terço dos 303 loteamentos existentes - uma área total de 1.979 hectares - leva jardim no nome. A relação, entretanto, ficou restrita à nomenclatura. Como na capital, a Sem Limites tem seu Jardim América fazendo divisa com o Jardim Europa, mas nada mais que possa servir de comparativo.
Segundo a professora de paisagismo Norma Constantino, da Faculdade de Arquitetura, Artes e Comunicação da Unesp de Bauru, o modelo de ruas sinuosas, grandes lotes não murados e jardins comuns contíguos não foi adotado na cidade. “Percebemos que a idéia dos bairros-jardim foi explorada aqui somente do ponto de vista comercial. Comprar um lote com o nome jardim cria no imaginário a sensação de bem-estar e de qualidade de vida, mas o que poderia consolidar essas expectativas não saiu, ou melhor, nem foi colocado no papelâ€, evidenciou.
“O local mais apropriado de Bauru para moradia, oito alqueires de esplêndidas terras divididos em 311 lotes. Só em um ano foram construídas 105 residências.†A citação foi extraída de um anúncio datado de 1929 e referia-se ao então recém-lançado Jardim Bela Vista, que mantém a sisudez de um traçado quadrado e poucos sinais de área verde farta.
Em 1940, surgiam os jardins América, Paulista, Aeroporto e Europa, todos buscando atender à população de classe média. Também longe do padrão dos bairros-jardim, a região é mais verticalizada nos dias atuais. Até mesmo a praça Palestina, incrustada no Jardim América, nunca teve o objetivo de deixar a região mais verde.
Segundo os registros, a praça, construída na década de 80, localiza-se em uma área originalmente loteada e tornou-se logradouro de lazer devido à degradação do solo por uma erosão. Não fosse isso, hoje estaria ocupada por casas. Tanto ela quanto as residências situadas nas partes mais baixas dos jardins América e Europa são alvos de enchentes.
De todos os bairros chamados jardins em Bauru, Norma Constantino destaca apenas o Estoril 2 e o Redentor como remissivos à tendência urbanística. “No Estoril, podemos notar a presença de grandes jardins e ruas sinuosas, enquanto o Redentor é interessante por causa de suas seis praças. O Vista Alegre, embora não tenha jardim no nome, também saiu um pouco do traçado xadrez da cidade com as ruas curvas, mas não podemos falar de outros reflexos além dessesâ€, pontuou a professora.