10 de julho de 2026
Articulistas

A sangrenta guerra de Israel

(*) Mario Soares
| Tempo de leitura: 2 min

Estamos vivendo uma inesperada regressão em relação às conquistas que demoramos mais de um século para se conseguir: o respeito pelos direitos humanos, o conceito do Estado de Direito, o respeito à legislação internacional e ao sistema das Nações Unidas. Parece que hoje em dia só vale a força e quem a tem se atribui o direito de empregá-la sem restrições.

A espiral de violência que continua impossível de ser freada no Oriente Médio, apesar das repetidas ameaças do presidente George W. Bush, está atingindo dimensões insuportáveis. Invocando a luta contra o terrorismo, Israel pretende, pura e simplesmente, eliminar - política e, talvez, também fisicamente - Yasser Arafat e destruir a Autoridade Palestina, no momento em que as Nações Unidas reconhecem o Estado Palestino. Ignora-se que Arafat foi signatário dos acordos de Oslo (hoje convertidos em letra morta), prêmio Nobel da Paz e que, sem ele, dificilmente se poderia contar com um interlocutor idôneo para negociar a paz. Seu desaparecimento levaria ao caos. É isso que quer Ariel Sharon?

Na verdade, o Exército de Israel, o Tsahal, respeitado nos tempos de David Ben Gurion como uma “nação em armas”, hoje, sob o comando de Sharon, comporta-se como um autêntico exército colonial de ocupação, responsável por atrocidades terríveis e irrefutáveis, descritas em detalhes por testemunhas oculares. Para quem viveu o holocausto como uma afronta insuportável, um crime repugnante contra a humanidade, e depois assistiu com tanta esperança o nascimento do Estado de Israel como abrigo e terra de paz, é muito duro ver, agora, os antigos perseguidos se transformarem em perseguidores.

É óbvio que também acontecem atentados dos “camicases” palestinos, que se matam para assassinar civis israelenses. Como todos os atos terroristas, estes são inaceitáveis, mas como não notar nesses atentados suicidas o desespero absoluto das pessoas acossadas e profundamente humilhadas? Como se poderá, nesta trágica situação, restabelecer a paz e o diálogo, pondo fim a esta “guerra dos cem anos”, como alguns jornalistas a chamam?

Discutimos no Parlamento Europeu, onde há tantos amigos de Israel, a gravíssima situação provocada pelo conflito israelense-palestino.

Entretanto, há em Israel vozes que não se calam. Israelenses civis e militares (muitos reservistas) que não se rendem e continuam lutando valentemente contra a política e o exército de Sharon, e em favor da paz, do diálogo e da convivência, com respeito mútuo, de israelenses e palestinos. Alguns deles o fazem associando em seu próprio combate os palestinos. É nas mãos dessas mulheres e desses homens de paz, de boa vontade e de justiça, que descansa hoje a honra de Israel!

(*) O autor, Mario Soares, é parlamentar europeu e ex-presidente de Portugal