08 de julho de 2026
Cultura

Euforia eletrônica

Ricardo Polettini
| Tempo de leitura: 3 min

Tudo que é bom tem seu preço. Em relação ao festival de música eletrônica Skol Beats, realizado no final de semana, em São Paulo, saiu caro para quem deixou a curtição para última hora.

A explicação talvez não se resuma à organização do evento, que dos portões para dentro do autódromo de Interlagos funcionou bem. O pecado aconteceu do lado de fora.

A festa começou cedo, às 16h. Mas, cá entre nós, quem sai para balada numa tarde de sábado em São Paulo, a não ser para uma matinê no shopping mais próximo?

Logicamente, a imensa maioria deixou a noitada para mais tarde, chegando ao festival entre 22h e meia-noite. Conseqüência óbvia: trânsito caótico e portaria lenta demais para o grande fluxo.

Teve gente que esperou quase três horas para entrar. Quem contava com ingressos de cambistas, pagou o dobro, de R$ 80,00 a R$ 100,00.

Dentro

Dos portões para dentro, dava-se de cara com a maior celebração eletrônica já vista na América Latina. Nas quatro tendas, no palco externo e em toda a extensão do autódromo, a paisagem era tomada por cabeças e braços balançando.

O tum-tum-tum-tum alucinado soava aos ecos. Era a música eletrônica que entrava nos corações e mentes. Reflexo de uma era pós-industrial, mesmo com um certo atraso.

Ainda banhada de preconceitos analógicos, os diversos estilos do novo jeito de fazer música - sem instrumentos - ajustam-se a tribos diferentes.

A tenda Movement, de drum’n’bass, a maior do festival, também foi a mais muvucada. Quente e sufocante, seria a mais divertida também se não fosse o público, predominantemente masculino.

Abrigou Xerxes, Mark e Patife, estrelas brasileiras em meio à constelação mundial. O gênero mais quebradeira da música eletrônica tem sotaque daqui - e é o mais popular também. “Até meu ex-professor de matemática está na área!”, comentou Patife.

Mas os gringos não deixaram para trás, como o arraso das apresentações de Ed Rush e Bryan Gee.

Outro brasileiro, Renato Cohen, tocando tecno - o vulgarmente conhecido bate-estaca - soltou-se mais no “Outdoor Stage” que na tenda “The End”. Mostrou que o estilo tem futuro garantido nas pistas por aqui.

Na Gatecrasher, a dupla iraniana Deep Dish e o inglês John “00” Fleming fizeram frente aos brasileiros Leozinho e Rodrigo Paciornik. A tenda era a sede do gênero tecno mais progressivo, viajante, antes denominado trance.

Fleming, considerado um dos melhores do estilo no mundo foi um verdadeiro maestro com o público.

Em arranjos pianísticos e orquestrados, sua batida precisa era aguardada às palmas pelo público a cada instante. Dos rufos à pulsação, urros extasiados.

Expectativas frustradas

Para variar, as maiores expectativas foram as piores da noite. O Groove Armada, do hit “My Friend”, que não tinha nada a ver com a pancadaria toda que dominava o festival. Começaram bem, com “I See You Baby”, mas foram se afundando, cansando os ouvidos antes do tempo.

O mesmo pode-se dizer do Technasia, que entrou no palco externo às 6h45. Numa rave, isso significa o auge, mas parece que o duo formado por um francês e um nativo de Hong Kong não sabe disso - resumindo, som chato demais, salvo pelas imagens do telão.

Surpresa, mesmo foram os brasileiros do Influx, que mandaram bem no live PA (som executado na hora com pick-ups e outras maquininhas). Quase anônimos, eram vistos sentados em meio à multidão pela manhã.

Plena luz do dia e os beats continuavam. Era o melhor da festa. As cores berrantes das roupas e cabelos viraram confete no mar de gente. O sol não brilhou tanto quanto prometia, mas os previnidos, com óculos escuros, finalmente justificaram o assessório usado à noite. Quando é a próxima?