09 de julho de 2026
Rural

Cultivo de orgânicos precisa de incentivo

Rose Araujo
| Tempo de leitura: 6 min

A agricultura orgânica pode ser tão lucrativa e tão produtiva quanto a convencional. Mas, ainda é pequeno o número de agricultores que estão se dedicando a esse tipo de cultivo no Estado. Agrônomos e produtores acreditam que a falta de incentivo do governo e a inexistência de uma consciência politicamente correta dos agricultores e da população em geral sejam os responsáveis por essa situação.

A engenheira agrônoma da Coordenadoria de Assistência Técnica Integral (Cati) de Campinas, Escolástica Ramos de Freitas, diz que ainda existem poucas linhas de crédito das instituições financeiras para incentivar a produção de orgânicos. “Deveria ter alguma coisa que fizesse com que os agricultores optassem por esse tipo de cultivo”, salienta.

De acordo com ela, apenas um banco mantém uma linha de crédito voltada para essa área. Trata-se do Banco do Brasil, que oferece crédito especial para custeio, investimento e comercialização de produtos orgânicos, desde que eles tenham certificação de entidades parceiras da instituição.

Escolástica, que está desde ontem ministrando um curso voltado para o tema em Mineiros do Tietê, explica que optar por cultivar produtos orgânicos é uma inicitiva de vida de cada produtor. “Quando a pessoa escolhe se dedicar ao cultivo sem agrotóxico tem que pensar não só no lucro, mas na saúde dela e de quem vai consumir os seus produtos”, salienta.

Isso porque a adaptação a esse estilo de agricultura pode ser lenta e gradual. “Quem pensa só em ganhar dinheiro, acaba desistindo no primeiro obstáculo que encontra”, ressalta a agrônoma.

Para cultivar produtos sem agrotóxico é preciso que haja uma mudança de valores do agricultor. Ele tem de ter a certeza de que quer utilizar apenas os recursos da natureza para conseguir obter a sua produção.

Escolástica diz que o número de agricultores que estão se voltando para esse cultivo está crescendo, mas que ainda há muito espaço a ser preenchido. “Há um longo caminho pela frente.”

O curso realizado em Mineiros do Tietê é uma prova disso. Programado inicialmente para 30 alunos, só contava com 15 ontem, primeiro dia do evento. “Esperava que tivesse mais pessoas”, diz a agrônoma.

Amanhã, os participantes deverão vir a Bauru fazer a aula prática. Eles visitarão o sítio de Lúcia e Silvana Gaio, um dos poucos da região a investir na cultura orgânica.

Pelo Estado

Atualmente, os produtores de orgânicos já estão em todas as regiões do Estado, mais concentrados na região de Campinas. Botucatu também está se destacando nesse setor. Os produtores de lá já chegaram a criar, inclusive, uma feira especializada em vender a sua produção.

Em Bauru, foi organizada há cerca de seis anos a Associação dos Produtores Rurais e Orgânicos do Centro Oeste Paulista (Aprocop). A entidade ficou um período sem ter muita atuação e está tentando retomar o fôlego agora, com a ajuda do Sistema Agroindustrial Integrado (SAI).

Sem estarem filiados a qualquer entidade, os irmãos Lúcia Helena Gaio Martins, Silvana Gaio de Oliveira e Marcelo Gaio decidiram se dedicar aos orgânicos por conta própria.

Há cerca de um ano, eles estão comercializando olerícolas e verduras cultivadas de modo totalmente orgânico, ou seja, sem a utilização de agrotóxicos. “Estamos muito satisfeitos com o nosso trabalho, pois sabemos o bem que estão fazendo para o meio ambiente e para os consumidores”, salienta Silvana.

Para obter verduras e legumes dessa forma é necessário conhecer técnicas que a própria natureza oferece. “O segredo do cultivo é a qualidade do solo”, salienta a agrônoma Escolástica Ramos de Freitas, da Cati/Campinas.

Lúcia conta que produz em sua propriedade os recursos para tornar o solo nutritivo. “Fazemos uma compostagem de esterco com folhagem para alimentar a terra”, frisa.

Ela diz que o ideal é que o agricultor produza todos os recursos para serem usados no cultivo, uma forma de baratear a produção.

O engenheiro agrônomo e agente de desenvolvimento do SAI/Jaú, Márcio Tolosa, salienta que, se o produtor souber lidar com o agricultura orgânica, terá um futuro financeiro promissor. “Como não é preciso gastar com insumos agrícolas e o produto tem mais valor no mercado, a tendência é de se conseguir um lucro maior na comercialização”, explica.

Os gastos maiores, segundo ele, ocorrem no início, quando é preciso preparar a propriedade para produzir alimentos orgânicos. “Toda a propriedade tem de ser livre de contaminação”, diz.

Certificados

Para garantir que isso realmente está ocorrendo, há o trabalho das organizações certificadoras.

Elas são responsáveis por fiscalizar as terras, o manejo e o produto final da lavoura orgânica, evitanto que se venda “gato por lebre”.

Em Botucatu, por exemplo, existe o Instituto Biodinâmico de Desenvolvimento Rural (IBD).

Lúcia e Silvana mantém uma parceria com a Fundação Mokiti Okada, que visita a horta a cada três meses com o objetivo de verificar se estão sendo cumpridas regras de cultura orgânica. “Só pelo tipo de mato que nasce na propriedade os técnicos já sabem se trata-se de uma área própria ou não”, explica Lúcia.

Até a água utilizada na lavoura passa por inspeção. Ela tem de estar livre de contaminação por qualquer tipo de coisa, principalmente coliformes fecais.

Silvana e Lúcia Gaio dizem que ainda não conseguiram lucrar muito com a horta. “Tudo o que ganhamos, investimos na terra”, conta Silvana, destacando que elas estão sempre experimentando novos tipos de cultura. “Acabamos de comprar sementes de tomates para tentar produzir de forma orgânica”, salienta.

Por tratar-se sementes especiais - o que teoricamente garantiria um fruto mais resistente e produtivo -, elas custaram muito caro, de acordo com as produtoras. “Pagamos R$ 178,00 por 500 sementes, que vão nos render 500 mudas”, enfatiza Silvana.

Escolástica Freitas explica que qualquer tipo de produto pode ser produzido de forma orgânica. No entanto, lembra que alguns são mais resistentes que outros.

Os que dariam mais trabalho seriam morango, batata e berinjela. Já alface, cenoura e rúcula seriam mais adaptáveis.

Silvana conta que, para evitar o ataque de pragas, os produtos são colhidos antes de se desenvolveram muito. “Temos que colher antes do tempo para não dar chance das pragas atacarem”, frisa.

A produtora destaca que os clientes questionam, algumas vezes, o tamanho das folhas e legumes. “Explicamos que não damos adubo para as plantas se desenvolverem além de suas possibilidades, como ocorre com a agricultura convencional”, salienta.

Ela ressalta que, além de serem livres da contaminação por agrotóxico, as verduras, legumes e frutas orgânicas também têm mais durabilidade e um sabor diferenciado.

Entre as técnicas naturais utilizadas pelos agricultores estão deixar o mato crescer próximo à horta, para servir de barreira a pragas e insetos; plantar girassóis e flores coloridas para atrair abelhas polinizadoras e utilizar capim seco para proteger e manter a terra umidecida.

A produção dos irmãos Gaio é vendida para uma rede de supermercado de Bauru e entregue de porta em porta aos clientes que assim desejarem.

Para obter produtos orgânicos é preciso:

• Desintoxicar o solo antes de começar a plantação

• Não utilizar qualquer tipo de agrotóxico ou outro agente químico na produção

• Combater pragas e ervas daninhas através de controle biológico

• Utilizar matéria-prima selecionada

• Higienizar caminhões que transportam as matérias-primas para a produção

• Usar maquinário adequadamente preparado para receber essa matéria-prima

• Armazenar os produtos em embalagens recicláveis