08 de julho de 2026
Articulistas

Esquerda em crise

Márcio Chalegre Coimbra
| Tempo de leitura: 3 min

Há algum tempo fala-se que a esquerda perde espaço no cenário político mundial. Ao contrário da segunda metade da década de 90, quando socialistas e social-democratas venciam eleições em países importantes como a Inglaterra, França e Itália, o início do novo milênio tem mostrado que as fórmulas propostas por este setor político para resolver os problemas do Estado não geraram resultados eficientes.

Estes governos, outrora eleitos com entusiasmo, não encontraram êxito. A única exceção do bloco foi a Inglaterra, conduzida com astúcia e maleabilidade pelo primeiro-ministro Blair por meio de políticas que conquistaram parte do eleitorado conservador. Os demais países do Velho Mundo, como Áustria e Itália fizeram opção mais conservadora aliada à direita, assim como tende a fazer a Alemanha. Já, Espanha, Dinamarca, Portugal, Irlanda e Holanda optaram pela tese liberal. Logo, o desgaste da esquerda já era sentido, contudo, atingiu seu ápice quando foi golpeada em seu ponto nefrálgico, a França. No último final de semana os franceses negaram ao premiê Jospin a possibilidade de disputar o segundo turno das eleições presidenciais.

Ao invés de enviar Jospin ao segundo turno, como todos previam, os franceses chancelaram duas candidaturas para o embate final das urnas: o atual presidente gaullista Jacques Chirac e o conservador Jean-Marie Le Pen. Este último é representante de parte considerável do eleitorado francês, não há dúvida. Suas teses isolacionistas e nacionalistas, entretanto, assustam. A ascensão da direita é resultado direto da incapacidade dos socialistas em gerar bem-estar. Logo, não é uma crença na direita, mas um desencanto com a esquerda. Esta desilusão não é só francesa, é generalizada na Europa.

Enquanto algumas nações procuraram os liberais para corrigir o rumo do país, outros buscam refúgio na direita ou sequer exercem o direito do voto. O Brasil, entretanto, parece não querer enxergar os exemplos vizinhos.

A França é, tradicionalmente, o berço das modernas teses da esquerda, por isso a perplexidade geral. A sensação à margem esquerda do Sena, a charmosa rive gauche, onde se localiza a Sorbonne, no Quartier Latin, é de extrema tristeza. Deve-se atentar, contudo, para o fato de que esta foi uma decisão tomada democraticamente pelo povo francês, portanto, soberana. Ao invés de tentar justificar a derrota, os socialistas devem perceber que seu sistema e teses, em implementação há cinco anos por Jospin, falharam, ou seja, não corresponderam aos anseios da nação. O recado do povo francês foi claro: depois de experimentar, não deseja mais o programa socialista, como já previu Jean-François Revel.

Logo, o comentário do presidenciável Lula não faz sentido. O candidato alegou que houve um desastre para o mundo democrático na eleição francesa.

Ora, a democracia não foi afetada, pois a vontade da maioria prevaleceu. A forma democrática de governo enseja a possibilidade de alternância no poder e é exatamente isto que acontece atualmente na França. Pluralidade e liberdade democrática – sobre isto a França pode se orgulhar. Lula errou o alvo. Radicalismos como o de Le Pen não preocupam quando existe uma democracia consolidada.

É inegável o retrocesso que pode haver em um eventual governo de extrema esquerda ou extrema direita. Lembremos que a França foi governada por um trotskista nos últimos cinco anos. O remédio para o excesso de intervenção estatal das forças de esquerda nos últimos anos, levou a Europa e outros países do mundo a adotar o outro extremo, regimes de direita.

Contudo, os melhores índices são daqueles países que conseguiram fugir tanto da esquerda, quanto da direita. Estes países, como as pujantes Espanha e Irlanda, optaram pela solução do liberalismo e encontraram a saída para o extremismo. Talvez países como a França, com tal maturidade democrática, possam vir a encontrar este caminho em breve. Oxalá consigam, pois só assim estarão livres dos nefastos fantasmas da esquerda e direita. Enquanto isso, na bela Paris, o mágico Chirac caminhará tranqüilamente para mais alguns anos na condução da 5ª República no Palácio Elyseé, apoiado, curiosamente por Jospin. É, a política tem dessas coisas curiosas.... (*) Márcio Chalegre Coimbra, é advogado - Artigo redigido em 23.04.2002, Em Brasília, DF