Uma criança de pouco mais de um ano, que mora no Jardim Tangarás, e foi submetida a exame de sangue está com uma dosagem altíssima de chumbo, o que preocupa os órgãos de saúde. O exame apresentou 90 microgramas do metal por decilito de sangue enquanto o máximo tolerável pela Organização Mundial de Saúde (OMS) é de dez.
A informação foi dada pelo médico Affonso Viviani, diretor técnico substituto da Direção Regional de Saúde (DIR-10). Em função da alta concentração de chumbo, a criança foi internada no Hospital da Universidade Estadual Paulista (Unesp) de Botucatu para a realização de exames. Viviani, porém, tranqüiliza a população ressaltando que, até então, não foi verificada nenhuma alteração neurológica na criança.
Além disso, explica o diretor da DIR, a alta concentração de chumbo pode estar relacionada ao fato de a criança ter tido a clavícula fraturada recentemente. “A criança está bem e não apresenta nenhum sintoma clínico. Mas a encaminhamos para a internação, para a realização de examesâ€, frisa.
A médica Maria Helena Abreu, diretora do Departamento de Saúde Coletiva (DSC) de Bauru, ressalta que a literatura médica prevê o retorno do chumbo acumulado nos ossos para o sangue em caso de fratura. “Provavelmente, essa criança tinha chumbo depositado nos ossos, que foi liberado para o sangue com a fraturaâ€, diz. A criança deve ser submetida a tratamento medicamentoso para reduzir a taxa do metal no sangue.
A alta concentração de chumbo no organismo pode causar uma doença chamada saturnismo, que provoca alteração neurológica. Das crianças que moram num raio de um quilômetro do setor metalúrgico da Ajax e foram submetidas a exame, 76 estavam com mais de dez microgramas de chumbo por decilitro de sangue, limite tolerável pela OMS.
Essas crianças, exceto as quatro primeiras encaminhadas para Botucatu e a que apresentou altíssima dosagem de chumbo, serão atendidas por médicos aqui em Bauru. A DIR-10, a Secretaria Municipal de Saúde, a Unesp de Botucatu e o Hospital de Anomalias Craniofaciais, o Centrinho, firmaram uma parceria para oferecer o tratamento na própria cidade.
De acordo com Maria Helena, a equipe técnica será coordenada por uma médica do Departamento de Neuropediatria da Unesp de Botucatu. Médicos especialistas na área de Bauru que atendem pelo Sistema Única de Saúde (SUS) vão integrar a equipe, que examinará as crianças no Centrinho. A previsão é que o atendimento comece na próxima semana.
Além da interdição feita pela Companhia de Tecnologia e Saneamento Ambiental do Estado de São Paulo (Cetesb), as atividades do setor metalúrgico da Ajax estão suspensas por decisão judicial. Para o vereador Rodrigo Agostinho, membro do Instituto Ambiental Vidágua, que entrou na Justiça contra a Ajax por causa da emissão de chumbo, é gravíssimo o fato de uma criança apresentar 90 microgramas do metal por decilitro de sangue.
Ele afirma que tanto faz se o chumbo estava acumulado nos ossos e foi liberado após a fratura da clavícula ou estava no sangue. “O resultado do exame mostra que a criança estava com altíssima dosagem de chumbo no organismo e isso é gravíssimo. Nós estamos na expectativa da análise do solo que será feita pela Cetesb porque suspeitamos que o solo está contaminadoâ€, diz.
Na avaliação de Agostinho, se o solo estiver contaminado, os moradores das proximidades da empresa de baterias continuam expostos. “Desconfiamos que esteja ocorrendo uma recontaminação em função do solo. A estimativa do Vidágua é que cerca de 900 crianças estão contaminadasâ€, afirma.