08 de julho de 2026
Auto Mercado

Era ou não do Pelé?

Marcelo Ferrazoli
| Tempo de leitura: 7 min

A Romiseta pode ser considerada um ícone da indústria automobilística nacional, pois foi o primeiro carro a ser produzido em larga escala no País. Mas este veículo, que por si só já chama a atenção pelo design diferenciado, torna-se ainda mais especial quando em sua história aparece um personagem famoso mundialmente pelo futebol: Pelé.

Mas o que o considerado atleta do século e uma Romiseta teriam a ver? À primeira vista nada, mas em Bauru essa é uma relação, que mistura nostalgia e realidade, reacendida pelo médico José Carlos Tosi, um dos maiores colecionadores de automóveis antigos da região. O fato é que Tosi possui na garagem uma Romiseta amarela que teria sido de Pelé. Ele admite que nunca ligou muito para saber da veracidade da questão, mas depois de ver em um programa de TV a história do rei do Futebol chegou a ficar curioso.

A busca de Tosi pela Romiseta começou cedo, em meados da década de 70, quando havia acabado de se mudar para Bauru. “Eu a vi perto da rua XV de Novembro, em uma cerca de balaústre. Fui lá e perguntei para o dono se queria vendê-la. Ele disse que não, pois argumentou que a Romiseta era muito valiosa porque tinha sido do Pelé”, afirma ele.

Depois de muito insistir - e também ter seu plano frustrado por várias vezes - Tosi conseguiu realizar seu desejo. Há cerca de cinco anos, o então dono lhe liga oferecendo a Romiseta. Mais que depressa, o colecionador fecha o negócio, com a condição de ter de buscá-la, no máximo, no dia seguinte da transação.

Quando chegou ao local, Tosi não conseguia esconder a decepção. “Deu vontade de chorar, pois ela estava quase inteira podre e com o motor fora do lugar. Mas como sempre vejo esses carros com outros olhos, sabia que tinha condições recuperá-lo, o que acabei conseguindo”, destaca ele. E acrescenta: “Ela tem detalhes que são raros de se ver em uma Romiseta, como a chave original. Até hoje não conheço ninguém que tenha.”

Tosi pensou até em tentar levantar a documentação original do veículo, mas como tratava-se de um carro muito antigo e já havia tentado - sem sucesso - com outros veículos, desistiu. “Quando queremos alguma coisa, vamos atrás. Para mim, o mais importante não era saber se o automóvel foi ou não do Pelé, e sim conseguir um exemplar dele”, diz ele.

Depois de comentar a compra do carro com alguns amigos, entre eles o empresário bauruense Milton Simão, este lhe confirmou que Pelé tinha sido o dono de uma Romiseta. “A única coisa que ele não podia me garantir era se a que tenho era a do rei”, frisa Tosi.

Procurado pela reportagem do JC, Milton Simão confirmou que Pelé teve uma Romiseta. “Ela foi o primeiro carro dele e foi dado de presente pelo prefeito da época, o Nicola Avalone Júnior, por ele ter sido o campeão do mundo em 58. Na época, éramos os revendedores da Romiseta e a entregamos em uma solenidade que se realizou na esquina da Agenor Meira com a Rodrigues Alves”, relembra Simão. E complementa: “Apesar da cor da Romiseta que demos ao Pelé ter sido amarela, não posso afirmar que a do Tosi seja a dele.”

Seguindo o raciocínio de Simão, o historiador Luciano Dias Pires, do Instituto Histórico Antônio Eufrásio de Toledo, é outro que também revela não ter condições de atestar que a Romiseta de Tosi seja a de Pelé. “Temos até a foto do ato da entrega do carro a ele, mas daí a dizer que é o mesmo do Tosi é impossível”, salienta Pires.

História

A Romiseta entrou para a história da indústria automobilística nacional por ter sido o primeiro veículo a ser fabricado em série no país. Sua produção - que durou apenas cinco anos e contabilizou apenas três mil veículos - iniciou-se em 5 de setembro de 1956.

A Romiseta brasileira é derivada da Isetta italiana, desenvolvida pela Iso Automoveicoli, com projeto de Renzo Rivolta, que foi apresentada ao público no Salão do Automóvel de Turim em 1953. Era equipada com um motor Iso de dois cilindros, dois tempos, com 236 centímetros cúbicos e 9,5 cavalos de potência.

Dois anos depois, em 1955, a Iso deu licença para a BMW alemã produzir o veículo, que passou a chamar-se Isetta BMW. Assim, ela foi equipada primeiramente com um motor monocilíndrico quatro tempos de 245 cc e 12 cv e, posteriormente, com um propulsor monocilíndrico quatro tempos de 298 cc e 13 cv. Este último modelo é conhecido por Isetta BMW 300.

O motor Iso fez parte do modelo brasileiro, produzido pela Automóveis Isetta do Brasil, em Santa Bárbara d’Oeste (SP), entre 1956 e 1958. A partir de 1959, a Romiseta passou a utilizar o motor BMW de 298 cc e 13 cv.

Casos curiosos

Mecânico de confiança de Tosi, o bauruense João Tatsumi foi um dos principais responsáveis pela revitalização da Romiseta. Antes de iniciar a reforma, que demorou pelo menos cinco anos para o carro chegar ao atual estágio de conservação, ele filmou o automóvel. “O único componente dela que não é original é o motor, que teve de ser substituído por o de uma motocicleta Strada 200 cilindradas. Fora isso, ela ainda guarda todas as suas características de fábrica”, diz ele.

Mais do que as dificuldades para reformá-la, o que mais ficou guardado em sua memória foram alguns casos curiosos que envolveram a Romiseta. O primeiro deles aconteceu justamente na oportunidade em que Tosi efetuou a concretização da compra do automóvel. Além de estar malconservada, uma árvore frutífera nasceu no interior do carro e complicou a sua retirada. “Como o então dono da Romiseta não queria que o pé fosse danificado, tivemos de levantar o veículo. Para isso, precisamos da ajuda de seis homens”, conta ele.

O outro ocorreu recentemente. Tatsumi levava a Romiseta até Bauru e, no meio do caminho, resolveu parar em uma oficina de um amigo. Ao estacioná-la, notou uma imensa aglomeração de curiosos para observar o automóvel. “Um menino chegou a entrar embaixo da Romiseta e, quando ele se levantou, me perguntou se ela era minha. Falei que cuidava dela e ele me pediu até um autógrafo justificando que eu era o herói dele”, relembra Tatsumi, rindo.

Polêmica

O assunto Romiseta também gera polêmica. O bauruense Luiz Cury afirma que, depois de Pelé, tornou-se o segundo dono do veículo, que teria sido adquirido por ele em 1960. Cury diz que Pelé a guardava juntamente com outro carro em um local próximo às ruas Sete de Setembro e Cussy Júnior. “Como ali era meu caminho para ir ao trabalho, eu a via sempre. Certo dia, o Galileu (dono do veículo que ficava na garagem com a Romiseta) falou que ela estava à venda. Acertei o negócio e, quando fui fazer o pagamento, o próprio Pelé veio de Santos para assinar o certificado no verso. Pena que não tenho documentação dela”, conta Cury.

Quem conta uma história diferente é Luiz Carlos Lockmann, morador da rua Quintino Bocaiúva. Ele garante que a Romiseta do médico José Carlos Tosi é a mesma do Pelé, mas que a teria adquirido quando o pai do Rei, seu Dondinho, queria ir embora para Santos, há cerca de 40 anos. “Na época eu comercializava Romisetas e aproveitei a ida do Dondinho para o litoral para comprá-la”, afirma ele.

Lockmann revela que, na ocasião, a Romiseta era da cor coral, em um tom próximo ao vermelho desbotado. “Depois pintei-a de amarelo, que foi a cor que o Tosi a encontrou quando quis comprá-la de mim”, ressalta ele.

Por ironia do destino, a Romiseta chegou a ficar abandonada em um terreno da casa de Lockmann. “Hoje ela é uma relíquia, pois garanto que o carro era do Pelé”.