08 de julho de 2026
Ser

Vergonha de tudo

Gustavo Cândido
| Tempo de leitura: 5 min

“Tenho vergonha de falar com pessoas que eu não conheço no telefone”, confessa estudante Mônica Figueiredo Cardozo. Não há limites para as situações que podem fazer alguém se sentir embaraçado. No caso da estudante, que não tem o menor problema em falar em público, por exemplo, o telefone é o vilão. Já sua irmã mais velha, Bruna, enfrenta o aparelho numa boa, mas... (quando o assunto é vergonha sempre há um mas) tem o maior receio de ficar em lugares onde conhece poucas pessoas. “Não tenho coragem de me aproximar para conversar”, explica.

De acordo com a psicóloga Sílvia Regina Pardo, existem pesquisas que demonstram que a timidez afeta 50% da população mundial. E não é só isso. “Os tímidos namoram menos, casam-se mais tarde e têm menos filhos, progridem menos no emprego, e, até mesmo apresentam mais doenças do que as pessoas desinibidas”, diz Pardo. Em outras palavras, pessoas tímidas acumulam prejuízos tanto no setor pessoal quanto no profissional.

Para a psicóloga, a origem do problema pode estar ainda na infância. É nesse período, principalmente dos 0 aos 5 anos de idade, que a personalidade de cada um se estrutura à base de como foi “compreendida”, de como foi “cuidada”. Por isso a educação deve ser um processo que afirme o direito da criança de não envergonhar-se de si mesma, de não ter medo de expressar suas necessidades e direitos.

Nem sempre os pais percebem isso e fazem com que a criança logo cedo passe por situações embaraçosas que vão marcá-la para o resto de sua vida, mesmo que num primeiro momento tudo tenha sido uma simples brincadeira. “Além disso”, lembra Pardo, “as experiências educacionais tradicionais, passam aos jovens a idéia de que eles têm que calar suas perguntas e ficar quietos por receio de parecer ridículos, não incentivando assim, o espírito crítico”, diz. O resultado são homens e mulheres com um medo exagerado de se expressar.

Dois tipos

Segundo Pardo, a timidez pode ser crônica ou situacional. No primeiro caso, a pessoa apresenta inibição diante de todo e qualquer evento social, como festas, reuniões, relacionamentos com colegas e contato com o sexo oposto, são exemplos mais comuns.

É o caso de Bruna Cardozo e também do empresário Luis Eduardo Arruda. “Tenho pânico de locais cheios de gente onde eu sei que tenho que conversar com elas”, conta. Uma das piores experiências de sua vida aconteceu numa feira de novos produtos que visitava em São Paulo. “Não conseguia demonstrar o meu interesse e fazer perguntas sobre um produto porque tinha vergonha de falar com o representante”, diz.

O tímido situacional apresenta inibições apenas em determinadas situações, como no caso de Mônica Cardozo com o telefone. A tendência, como explica a psicóloga, é de cada um se expor naquilo que domina, ou tem maior conhecimento. Ou seja, quando a pessoa não tem conteúdo suficiente para enfrentar uma situação, como por exemplo: comer e beber em lugares públicos, sua vergonha será exercitada.

Por isso, uma das maneiras de se livrar das inibições é procurar se desenvolver como pessoa, obter conhecimentos e buscar experiências desafiadoras para que a confiança em si mesmo possa se fortalecer (leia no boxe as dicas da psicóloga para vencer a timidez). “A vergonha e a timidez, são medos relacionados com o outro. É o medo de ser visto pelo o outro, de ser criticado pelo outro, etc.”, explica Pardo.

Solidão e orgulho

Pessoas muito tímidas ainda correm o risco de sofrerem com a solidão ou se tornarem orgulhosas demais. O primeiro caso acontece quando a pessoa deixa todas as oportunidades de contato social passarem por medo de se relacionar. A tendência, depois de um certo tempo, é que as pessoas a sua volta passem a não fazer mais convites e isolem o tímido já que ele não se manisfesta.

O orgulho, por sua vez, é uma forma de defesa para que a pessoa não sofra com o que deixou de fazer. Em alguns caso, aponta Pardo, o tímido ainda experimenta o ódio por não estar envolvido em situações de satisfação e prazer como as outras pessoas. “Seu ódio se manifesta não apenas em seu retraimento, mas principalmente em sua resistência de vencer essa barreira”, diz.

A transformação de uma pessoa tímida em alguém desinibido, para a psicóloga, só virá a partir do momento em que o tímido reconhecer a necessidade de abrir mão de suas defesas e tomar a responsabilidade para si de tudo o que o envolve e não tentar fugir da realidade.

Viva sem timidez

- Conhecer seus pontos fortes e fracos.

- Não ter medo, nem vergonha de pedir ajuda, para poder ampliar sua capacidade de comunicação.

- Não se aborrecer quando sentir certa rejeição, pois o problema pode não estar com você.

- Ser sempre mais persistente do que acha que poderia ser.

- Navegar na Internet, ler muito e fazer reflexões a respeito do que foi lido.

- Aprender mais sobre etiqueta social, para poder se expor com mais segurança.

- Aprender a compartilhar problemas e necessidades.

- Encorajar-se a fazer perguntas, porém exercitando a capacidade de ouvir as respostas.

- Aperfeiçoar o chamado “marketing pessoal”.

Remédio para a timidez

De acordo com o site da British Broadcasting Corporation (BBC), uma empresa farmacêutica está fazendo testes com um remédio que poderá ser utilizado para combater a ansiedade que algumas pessoas enfrentam em situações de convívio social. O Escitalopram, ainda foi liberado na Grã-Bretanha mas passa por testes finais e pode estar no mercado ainda esse ano.

A droga está sendo produzida pelo laboratório Lundback, que já fabrica o Citalopram, utilizado no tratamento de ataques de pânico e depressão. O Escitalopram altera os níveis de serotonina, que funciona como um mensageiro químico no cérebro e afeta o humor das pessoas.

Segundo o site, Susan Taylor, uma das médicas responsáveis pelos testes na Grã-Bretanha, afirma que a ansiedade social é mais comum do que as pessoas imaginam.

Para ela, muitas pessoas fazem de tudo para evitar as situações sociais que provocam essa ansiedade. Embora a ansiedade social costume ser provocada por situações específicas, ela pode se generalizar e afetar todos os aspectos da vida de determinadas pessoas.

Fonte: www.bbc.co.uk