A chuva de verão já não espera mais o mês de março chegar e provoca inundações; o outono não derruba tantas folhas; o inverno dura menos que antigamente; e as flores desabrocham antes de setembro. Aos olhos da maioria das pessoas, parece que o clima saiu definitivamente dos eixos, mas estudiosos de todo o mundo garantem que estas oscilações compõem um processo absolutamente natural.
“O problema é que as pessoas só consideram as médias climatológicas, que escondem os limites extremos do que ainda seria normalâ€, comenta o meteorologista Luiz Fernando Nachtigall, do Instituto de Pesquisas Meteorológicas (Ipmet) da Universidade Estadual Paulista (Unesp).
Em outras palavras, a temperatura máxima média da região de Bauru, no verão, varia entre 33 graus e 36 graus. Se os termômetros chegassem a 42 graus, a temperatura estaria fora dos padrões, mas dentro do limite. Seria uma anormalidade se o calor se aproximasse dos 50 graus - índice nunca registrado no País e que traria conseqüências danosas à saúde humana.
Na opinião de Nachtigall, a afirmação das pessoas de que o clima está louco baseia-se na “memória curtaâ€. “Quando está calor, as pessoas questionam por que não faz frio. Bastam dois dias de frio, que elas já querem saber o que aconteceu com o calorâ€, ressalta.
O meteorologista lembra que as condições do tempo são determinadas por diversas variáveis. No mês de janeiro deste ano, por exemplo, em pleno verão, uma massa de ar frio que passou pela região baixou a temperatura para 13 graus em Bauru, numa madrugada.
“Há alguns anos - não me recordo ao certo qual - o mês de julho foi campeão em chuva, com quase 30 dias de precipitações regulares. Na média, julho é um mês de estiagem, mas isso não significa que não pode choverâ€, completa.
Segundo ele, o outono deve manter temperaturas altas por algumas semanas ainda. As noites começam a esfriar no final da estação, baixando progressivamente no decorrer do inverno, conforme a atuação das frentes frias.
Processo milenar
Segundo os cientistas, a atmosfera da Terra primitiva era quase totalmente composta por dióxido de carbono. Num processo de bilhões de anos, a chuva carregou as partículas de carbono para o subsolo ou para o fundo do mar. Parte delas foi transformada em carvão e petróleo.
Paralelamente, a vegetação foi consumindo parte deste gás e liberando oxigênio livre. Estima-se que a atmosfera terrestre levou milhões de anos para estar apta à sobrevivência.
O alarme dos estudiosos é que todo esse carbono que demorou bilhões de anos para ser condensado e depositado no subsolo está voltando à atmosfera através da combustão em massa do carvão e petróleo. Pesquisas indicam que o nível de emissão do gás carbônico aumentou 600 vezes desde a Revolução Industrial, passando de dez milhões de toneladas anuais para seis bilhões de toneladas por ano.
Havendo mais carbono na atmosfera, ocorre maior retenção da energia solar ao redor do planeta. Isso faz subir a temperatura, provoca derretimento de geleiras, aumenta o nível dos oceanos, aquece a água do mar e libera mais carbono. Uma sucessão de fatores e fenômenos que parece não ter fim ou solução.
Diante deste cenário, a tendência é que, em algumas centenas de anos, as condições climáticas do planeta tornem-se cada vez mais hostis ao ser humano, seja pelo calor, pelo avanço do mar engolindo cidades ou pela saturação do ar.
Voltando ao 'normal'
Formado há bilhões de anos, estima-se que o planeta Terra já tenha sofrido inúmeros episódios de destruição devido aos extremos climáticos. Indícios apontam que populações inteiras, como os maias e os acadianos, podem ter sido exterminadas por estiagens prolongadas ou alterações radicais de temperatura.
Terremotos, maremotos, furacões, avalanches, seca, incêndios, erupções vulcânicas, alagamentos, chuvas de granizo, geadas estão aumentando realmente. Estatísticas mostram recordes históricos de catástrofes deste tipo nas últimas três décadas. De acordo com a Organização Meteorológica Mundial (OMM), entre 1991 e 2000, os fenômenos hidrometeorológicos afetaram 211 milhões de pessoas por ano - sete vezes mais que as vítimas de guerras e conflitos.
No entanto, cientistas garantem que as “aberrações†climáticas ao longo dos séculos são tão comuns quanto as variações diárias do tempo. A Enciclopédia Conhecer 2000 (Ed. Nova Cultural, 1995), por exemplo, relata que durante a maior parte de sua existência, a Terra teve um clima uniforme e benigno. As regiões polares eram temperadas e férteis, animais distribuíam-se por áreas vastas e plantas cresciam onde hoje há desertos.
“Os períodos de mutações climáticas, severas porém breves, são considerados ‘anormais’, pois representam menos de um quinto da história geológica. O último desses períodos começou há um milhão de anos, e alcançou seu ponto culminante há dez mil anos (...) Assim, toda a história da humanidade se desenvolveu dentro de um período climático ‘anormal’; o homem nunca conheceu o clima ‘normal’ do planeta que habitaâ€, informa o texto.
Ou seja, considerando esta hipótese, o planeta estaria saindo de uma variação climática para voltar a seu estado “normalâ€, em que os pólos não são cobertos de gelo e não há desertos - uma Terra quente e úmida. Este ambiente poderia ser inadequado à sobrevivência humana, mas, se os indícios estiverem corretos, esse processo ainda vai demorar alguns milhares de anos.