Pura empulhação esse negócio de corretoras internacionais de investimento dizerem que uma eventual eleição de Lula causará danos a este país. Se a economia brasileira não foi para o brejo nem com Itamar Franco, considerado um administrador irresponsável por patrocinar o Plano Real, como temer o Lula? Itamar ainda cometeu o desatino de inventar a candidatura de um sociólogo a presidente, e nem por isso a casa caiu. Pelo contrário, a economia está menos frágil do que já esteve. A consciência democrática da sociedade brasileira evoluiu, apesar de ainda não nos termos livrado de preconceitos contra os negros, os pobres e os sem diplomas.
Outro dia em uma cadeia de emissoras de rádio na Bahia, um ouvinte disse que rejeitava Lula por ele não ter freqüentado uma universidade. O candidato à Presidência pelo PT comparou-se a Machado de Assis, que só aprendeu a mexer com letras na tipografia. Lula disse que não vai governar livros ou estatísticas, mas “gente como vocêâ€.
Num país de bacharéis, com muitos doutores, em sentido estrito, e analfabetos em larga escala, é natural que a falta de um diploma gere discriminações. Soube de um sujeito que com dinheiro público doutorou-se no Exterior com uma tese sobre a língua de uma ave. Será que ele é mais bem preparado que o Lula?
Machado de Assis foi vítima de intolerância e demagogia muito piores. Enfrentou todos os sete preconceitos vigentes na sua época. Era preto numa sociedade escravocrata. Epilético na época em que se considerava certas doenças como castigo por pecados cometidos pelos seus ancestrais. Pobre... desgraça em si. Gago em tempo de valorização da retórica, ainda que vazia. Órfão, fruto de relações espúrias. Casou-se com uma solteirona, “encalhada†só porque havia comido a merenda antes do recreio. Não teve filhos. Ser estéril era outro castigo, mas tudo indica que foi por opção para evitar mais discriminados. A Igreja não gostava de casais descumpridores da função essencial do casamento que seria a de procriar. Machado aprendeu tudo sozinho, lendo Chateaubriand, Lamartine, Victor Hugo e autores ingleses no original. Mesmo se quisesse freqüentar uma universidade, o nosso escritor teria que ir ao exterior. O Brasil não tinha universidades no seu tempo. Diferente de hoje onde é possível conseguir títulos universitários sem sequer freqüentar as aulas.
Mesmo depois de morto o autor de “Dom Casmurro†sofreu ataques. Guimarães Rosa, outro monumento literário, acusava-o de colecionar pensamentos e frases em cadernos especiais, “espécie de surrão ou alforje de onde sacava aos punhados, ou pinçava, uma a uma†para escrever seus livros. Eram coisas para “embasbacar o indígenaâ€. Sem querer cometer o sacrilégio de me comparar com esses gigantes da literatura brasileira, também mereço castigo. Tenho o meu “surrão ou alforjeâ€. Aprendi com o Ignácio de Loyola, colega jornalista na Última Hora que ia jogando em pastas recortes e anotações aleatórias. De repente tudo criava vida. Por esse processo escreveu um livro premiado e editado na Itália onde os críticos o consideraram um inovador com a narrativa fragmentada de seu conhecido “Zeroâ€. O próprio Rosa escreveu “Grande sertão: veredas†encaixando anotações sobre a flora e a fauna das Minas Gerais conforme ia construindo a sua narrativa.
Lula “o metalúrgico†será bombardeado de todos os lados nesta segunda fase da campanha que vai de fato valer. Os marqueteiros políticos dão rasteira no vento. Os riscos serão cada vez maiores. Como alertava o Rosa: viver é muito perigoso. Tão perigoso quanto escrever.(Zarcillo Barbosa é jornalista e colaborador do JC)