09 de julho de 2026
Regional

Ousadia era marca de pintor italiano

Da Redação
| Tempo de leitura: 3 min

Pirajuí - Antonio Maria Nardi é um ilustre desconhecido para a comunidade católica de Pirajuí. O pintor responsável pela decoração interna da Igreja Nossa Senhora Aparecida é também o autor das pinturas internas de belas igrejas brasileiras, como a Matriz de Nossa Senhora do Perpétuo Socorro, no bairro do Grajaú, Rio de Janeiro, e do Santuário das Almas, de Niterói.

Nardi nasceu em 1897, na cidade de Ostellato, Itália, e estudou arte em Bologna. Em seu país natal, decorou diversas igrejas e chegou a realizar algumas exposições individuais, obtendo certo reconhecimento. Chegou ao Brasil em fins dos anos 40, instalou-se no Rio de Janeiro e ganhou notoriedade ao receber prêmios importantes na cidade e em São Paulo.

Seu trabalho em Pirajuí se deu graças ao holandês Teodoro Kock, pároco de Pirajuí que promoveu uma reforma na Igreja Nossa Senhora Aparecida nos anos 50 e resolveu introduzir a arte sacra aos interiores do lugar.

O aposentado Basílio Bannwart, 81 anos, ainda se recorda da presença de Nardi na cidade. Bannwart fez amizade com o pintor, que costumava “tomar café” em sua casa. “O padre Teodoro Kock fez uma campanha para angariar fundos para a reforma da igreja. Depois o padre foi atrás de um pintor ‘grande’, capaz de fazer esse trabalho, e encontrou ele (Nardi), que fazia pinturas no Rio de Janeiro, em Niterói”, relembra.

Bannwart conta que nem todo o trabalho de Nardi na igreja foi feito em Pirajuí. Dos quadros da Via Sacra, por exemplo, apenas os esboços eram feitos na cidade. A obra pronta vinha do Rio de Janeiro. “Fui eu quem comprei a madeira, um compensado do melhor que tinha na época; ele fazia os desenhos em crayon aqui e levava para o Rio. Depois de pronto, ele mandava de volta, vinha por trem”, explica.

Segundo Bannwart, Nardi permaneceu na cidade por “uns seis meses”, quando realizou as pinturas murais. O pintor morreu em 1973, na Itália.

Ousadia

De acordo com o artista plástico José Renato Bertoldi, restaurador das obras de Nardi em Pirajuí, o pintor italiano trabalha com um estilo cubista, gênero criado pelo espanhol Pablo Picasso. Suas pinturas são cheias de ângulos e formas geométricas, mas, ao contrário das obras do artista espanhol, as fisionomias representadas por Nardi são sempre joviais e “tranqüilas”. “Quase não há sangue”, observa Bertoldi.

Para o restaurador, as obras sacras de Nardi são bastante “ousadas”, o que demonstra o conhecimento e o talento do pintor. “O Nardi usa muitas modelos femininas e representa as passagens por uma perspectiva que foge do convencional. Olha que ele está em 1958 e fica à vontade para fazer isso”, ressalta Bertoldi.

Quanto às figuras femininas, Bertoldi faz uma curiosa observação: quase todas têm feições árabes. Isso porque Nardi “recrutava” modelos na cidade, entre as famílias de conhecidos - a maioria delas de origem árabe.

Com certo orgulho, também Bannwart, um dos maiores amigos de Nardi em Pirajuí, admite que conhece o bebê que serviu de modelo para a pintura do menino Jesus na manjedoura: é seu filho Hélder, hoje com 46 anos.

Arte sacra é catequese

Nas cidades da região de Pirajuí, erigidas em torno das fazendas de café, é comum encontrar igrejas tão ricas em obras de arte quanto a Nossa Senhora Aparecida, a maioria construída na década de 30.

O custeio da construção e da decoração dessas igrejas era feito, em grande parte, pelos ricos cafeicultores da época, com doações em dinheiro e sacas de café.

Segundo o padre Valdecir da Silva Gódi, a representação da Via-Sacra nas paredes das igrejas, no entanto, não servia apenas para embelezar os interiores. “A representação da Via-Sacra nas igrejas é a catequese. Antigamente, muito poucas pessoas tinham acesso a livros ou sabiam ler. Com as pinturas, ficava mais fácil ensinar”, explica.

Além da Via-Sacra, nos murais da Igreja Nossa Senhora Aparecida estão representadas, entre outras obras, os sete Dons do Espírito Santo, as profetisas e o nascimento de Jesus Cristo. “São coisas fundamentais da fé cristã. É fantástico”, ressalta Gódi.