09 de julho de 2026
Articulistas

'Atire a 1ª pedra'


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Nestas últimas semanas, a mídia nacional e internacional ocupou-se largamente com casos de pedofilia envolvendo sacerdotes e religiosos da Igreja Católica, sobretudo nos Estados Unidos. Apresentou fatos mas, muitas vezes, também versões tendenciosas e desairosas dos fatos. O jornalista Bernardo Ajzenberg, ombudsman da Folha de S. Paulo, ao analisar esse assunto em sua coluna de 28/4/02, escreveu com muita felicidade: “Isso posto, não quer dizer que a mídia tenha dado ao delicado tema a cobertura mais exemplar. Ao contrário, mesclando indevidamente aspectos diversos que o tangenciam, acabou formando uma onda que por pouco não atingiu o patamar de campanha aberta contra a Igreja ou alguns de seus princípios.” Com a isenção que lhe cabe, o ombudsman não deixou de criticar a própria Folha navegando nessa onda desabonadora da Igreja.

Na versão mais corrente dos fatos dada pela mídia, tem-se a impressão, por exemplo, de que a pedofilia seja um mal inerente aos religiosos e sacerdotes em decorrência do celibato. Uma correlação certamente inaceitável pela psicologia, psiquiatria ou outra ciência que trate do psiquismo humano. Dom Angélico, bispo de Blumenau não teme em afirmar que “a pedofilia tem origem genética, no seio da família, no ambiente do vale tudo sexual. Há homens casados pedófilos, infiéis”. Trata-se certamente de um grave desvio psíquico. Frei Antonio Moser, OFM, doutor em Teologia Moral, afirma que a “pedofilia pode se manifestar em qualquer situação, tanto no celibato como em pessoas ‘livres’ ou casadas, e deve ser tratada como qualquer outra doença. Mesmo mantidas as proporções numéricas, indiscutivelmente há mais não-celibatários pedófilos do que celibatários pedófilos”. (Cf. Folha de S. Paulo, 21/4/02)

Tenho certeza que se a mídia viesse investigar, com os mesmos parâmetros, a pedofilia em tantas instituições humanas, categorias profissionais, denominações religiosas, etc., o espanto do público seria bem maior!

Não se pode deixar de admitir, todavia, que a questão levantada pelos meios de comunicação social, é grave, preocupante e dolorosa. Diz o ditado popular “que Deus escreve direito por linhas tortas”. Se é verdade que a Igreja já vinha enfrentando esse problema, agora o fará num modo ainda mais acurado e severo. Isso ficou evidente no gesto humilde e corajoso de João Paulo II que convocou arcebispos e cardeais norte-americanos, execrando a pedofilia, pedindo perdão pelos males que ela vem causando e conclamando a Igreja para a superação de um tão grande mal. Chega a ser comovente esse alerta do Papa, alquebrado pela idade e pela doença, mas cheio de zelo e amor pelo rebanho.

Também não se pode negar que seja relevante e atual a questão suscitada pela mídia sobre o celibato clerical obrigatório. Estamos diante de uma disciplina ascética que surgiu tardiamente na Igreja Latina ou do Ocidente. No oriente católico e ortodoxo, o celibato sempre foi opcional. Sua mística ou espiritualidade consiste no seguimento radical do Cristo em vista de um serviço pleno à Igreja, como doação e renúncia “por causa do Reino de Deus”.

A mídia vem denunciando fraquezas, limitações e ambigüidades em tantos irmãos nossos, sacerdotes e religiosos. Se de um lado a atitude de quem transmite e de quem recebe essas notícias deve ser de desaprovação, de outro lado deveria ser também de humildade, de revisão moral pessoal, familiar e social. Para todos calha bem o episódio do evangelho da mulher flagrada em adultério e que deveria morrer apedrejada. Para aqueles que a acusavam e queriam condená-la, Jesus lançou um desafio: “Quem dentre vocês estiver sem pecado, atire nela a primeira pedra”! (Jo 8, 3) (Frei Lourenço M. Papin)