09 de julho de 2026
Política

Lula molda discurso para vencer eleição

Por Nélson Gonçalves | especial para APJ
| Tempo de leitura: 12 min

Ele deixou um dos dedos e o torno mecânico na indústria da década de 70 para se tornar o líder sindical mais conhecido do País e participar da fundação do Partido dos Trabalhadores (PT), no coração do Sindicato dos Metalúrgicos, na região do ABC, em São Paulo. Luiz Inácio Lula da Silva (PT) quer mais do que seu currículo contém. Obstinado, ele disputa pela quarta vez a eleição presidencial, ancorado em um projeto político que, fundamentalmente, combate o que o PT classifica de submissão ao modelo econômico neoliberal, mas que, ao mesmo tempo, tenta reproduzir um discurso capaz de acalmar os investidores externos e as classes mais abastadas brasileiras.

Lula garante que o PT não mudou, “amadureceu”. Contudo, quem conheceu as idéias e ideais do sindicalista que repudiava sistematicamente o modelo capitalista, hoje vê em Lula um político que afina um discurso de provocar arrepios nas alas mais à esquerda do PT e que, ao mesmo tempo, procura agregar correntes além das tendências de centro.

Apesar dos 35 pontos percentuais nas pesquisas e da ausência, até este momento, de um candidato em condições de disputar com ele as demais fatias do eleitorado, Lula indica que, para se tornar o primeiro presidente operário da história, precisa combinar a ampliação do leque de parceiros: um desafio tão espinhoso quanto manter certa distância entre os acordos e a manutenção da própria identidade política.

Lula concedeu esta entrevista pouco antes de participar de um encontro promovido pela Associação Paulista dos Jornais (APJ) com os diretores dos 15 principais jornais regionais do Interior de São Paulo, filiados à entidade, na última terça-feira.

APJ - Qual sua visão sobre o Interior de São Paulo?

Luiz Inácio Lula da Silva - Vou ousar falar do Interior deste Estado. Tem quatro pontos que marcam e dão a dimensão da grandiosidade e da pujança da economia brasileira. Uma parte é a agricultura. Outra é a agricultura familiar. Outra parte é uma fatia do Interior agrícola e a outra a do Interior industrial de São Paulo. O Interior é múltiplo em agricultura, indústria, agroindústria e serviços. Se houvesse mentalidade de incentivar o desenvolvimento regionalizado em função das particularidades de cada região, a realidade seria outra.

APJ - Mas esse Interior é também palco de desigualdades, sofre com a falta de saneamento e de maiores investimentos. Como equacionar?

Lula - Como o modelo econômico não é planejado e não leva em conta as particularidades regionais, você corre o risco de incentivar o desenvolvimento de uma região e não efetivar o mesmo em cidades vizinhas. Você, então, fomenta que um contingente grande de pessoas corra para uma região que não está preparada do ponto de vista da escola, do emprego, da moradia, do saneamento. Vou dar um único exemplo forte: a Zona Franca de Manaus. Ela poderia ter sido pensada levando em conta não apenas o desenvolvimento de Manaus, mas também de várias cidades vizinhas. Ao centralizar e não pensar assim, milhares de pessoas foram a Manaus sem a infra-estrutura.

APJ - Qual sua visão sobre a realidade agrícola do País e as diversidades regionais?

Lula - A agricultura tem que ter particularidade. Primeiro precisamos ter uma visão nacional da agricultura que ainda é um dos pilares que pode ajudar a desenvolver muito o Brasil. Se você olhar a balança comercial vai ver que é exatamente com produtos agrícolas que tivemos um superávit de quase US$ 18,5 bilhões. O potencial é extraordinário no Brasil e contamos com o privilégio de ter ainda 20% da população morando no campo e é bom que more no campo e que se leva para lá infra-estrutura para que eles tenham condições de viver e trabalhar. Trazer as pessoas para a cidade sem infra-estrutura gera um desequilíbrio maior. Não faço diferenciação entre a chamada agricultura empresarial com produção em escala e a chamada agricultura familiar. As duas se completam, não são antagônicas.

APJ - O senhor foi criticado no início do ano porque teria defendido a posição européia que subsidia a agricultura. Qual é a sua posição, afinal?

Lula - Foi muito engraçado porque a matéria política de um grande jornal de São Paulo foi contraditada pelo caderno agrícola do mesmo jornal e do mesmo assunto. E a matéria do caderno trazia dois especialistas dizendo que eu estava certo, que o Brasil precisava fazer a lição de casa ao olhar os outros. Eu defendi que o governo que subsidia uma multinacional como a Volkswagen para se implantar em Resende (RJ), ou uma General Motors em Gravataí (RS) ou uma Ford em Camaçari (BA) pode muito bem subsidiar a pequena e média agricultura brasileira. E não para exportação, mas para consumo interno.

APJ - Mas o senhor se aproximou dos franceses?

Lula - O problema do modelo da França é que ela subsidia também o produto para exportação e nós somos favoráveis para subsidiar o produto para consumo interno. O produto da exportação não pode ser subsidiado nem pelo Brasil nem por nenhum País, porque senão ele deteriora a relação comercial. E hoje eles fazem isso. O Congresso americano acabou de aprovar US$ 73 bilhões para subsídio à Agricultura. Na França, para cada tonelada de peito de frango exportado o governo dá US$ 470,00. Isso torna a competitividade desigual e nós não queremos isso. Queremos que o Brasil olhe primeiro os nossos interesses. Quando nós dizíamos, na época da importação do Mercosul, que era preciso criar políticas compensatórias para poder garantir o nosso poder de competitividade com a Argentina, éramos chamados de atrasados e hoje está provado que estávamos certos. A taxa de juros era menor na Argentina e no Uruguai, a terra era mais barata, a energia mais barata. Dar condições para competir até um determinado tempo, até dar paridade na relação. É isso que eu defendo para o Brasil.

APJ - O governo deve intervir em políticas de preço mínimo?

Lula - Em alguns casos deve. Na questão alimentar. Todo país que se preza tem a segurança alimentar como questão de soberania. Então, você tem que produzir uma quantidade de alimentos para garantir que o seu povo se alimente o ano inteiro e tem que ter uma reserva para que, em momentos de crise, haja o que comer. Isso é o básico e se for preciso tem que subsidiar. Agora você pode ter uma produção em escala que o governo pode incentivar em tecnologia, com redução na tributação para exportação para facilitar a competitividade. Mas existem setores da agricultura, sobretudo a pequena propriedade, que não consegue desenvolver se não tiver apoio do governo.

APJ - O senhor combate a proposta de livre comércio com os Estados Unidos?

Lula - Eu sou defensor da política de livre comércio. Agora, se a gente não quiser entender de economia, tem que entender de boxe. Embora todos os lutadores sejam iguais, tem peso pena, mosca, pesado. Por melhor que seja o nosso campeão, o Popó, se colocar ele para lutar com o peso pesado ele vai tomar uma porrada e não vai acordar nunca mais. Os EUA detêm hegemonia tecnologia, detêm 65% do PIB do continente e hegemonia militar. Se eu quero uma política de livre comércio com os EUA é preciso que as regras permitam que haja igualdade de competitividade entre nós porque senão tomamos um nocaute.

APJ - Como estabelecer igualdade comercial com os EUA?

Lula - A Europa começou, há 30 anos, a criar as instituições multilaterais. Criaram um parlamentar europeu, um banco central e, depois, a moeda única. Mas a parte rica da União Européia deu dinheiro para infra-estrutura para a Espanha, para Portugal, para a Grécia. Quando esses países se dotaram de infra-estrutura, eles criaram a moeda única e consolidaram o processo de unificação européia. Não há nenhuma previsão na proposta da Alca de políticas compensatórias para ajudar o Uruguai, Paraguai, Argentina, Equador, Colômbia. E não há porque a Alca é um acordo de livre comércio para o Brasil porque para aos EUA só interessa o Brasil nesse mercado. É aqui que tem indústria, agricultura, base sindical, intelectual. Se o acordo é para nós, o Brasil precisa exigir contrapartida. Se não houver compensação, não haverá livre comércio nem tampouco integração continental. Haverá uma anexação dos países mais pobres aos EUA. Essa é a verdade.

APJ - O senhor está assistindo à discussão sobre o risco Brasil. Existe limite para o senhor entre o respeito aos contratos e a excessiva subordinação?

Lula - Passei a vida inteira respeitando contratos. Me transformei, em 1978, no mais importante dirigente sindical desse País porque não só fazia acordos como cumpria os acordos. Contrato comercial e financeiro é a mesma coisa. Este País é sério. Temos que cumprir. O que acho é que temos que negociar bases mais favoráveis para o Brasil. Não pode fazer um acordo cedendo à pressão daquele que pode mais. Tem que exigir que os acordos contemplem sua realidade econômica, comercial. Que o prazo seja maior, que a taxa de juros seja adequada. Tem que negociar. Mas se o país é subserviente e os negociadores vão de cabeça baixa negociar o país sai perdendo.

APJ - Qual o leque de alianças de interesse do PT?

Lula - Nós temos interesse em fazer aliança com amplos setores dos partidos políticos de centro, da sociedade brasileira. E esses acordos passam pelo PL, pelo PMDB. Porque os mesmos que nos criticam porque queremos fazer acordo com o PMDB, amanhã nos criticarão se não fizermos. Os que estão nos chamando de light hoje, amanhã nos chamarão de sectários, de estreitos. Como o PT não tem que dar muito ouvido ao que os nosso adversários falam, nós temos que fazer acordo segundo os nossos interesses. Nós vamos ganhar a Presidência da República porque temos proposta para o Brasil. E para ganhar precisamos de apoio além da esquerda. Tem muita gente decente, ética, honesta, trabalhadora, que não está no PT e que quer ajudar e não tem instrumento.

APJ - O mesmo raciocínio para ganhar a eleição será para governar o País. Quem o senhor inclui depois da esquerda para a base de apoio?

Lula - Só posso falar em governabilidade se eu ganhar. Vou dizer, todos os homens e mulheres de bem desse País. O perfil não será o eminentemente ideológico. A sociedade brasileira é evangelizada do ponto de vista da organização partidária. Apenas o PT funcionar como partido político nesse País. Temos interesse em chamar setores do PMDB, dos partidos pequenos.

APJ - O PSDB o senhor não inclui para base de apoio?

Lula - Temos uma relação extraordinária e histórica com muita gente do PSDB. Estou disputando campanha com o Serra, mas sou amigo dele. Sou amigo de tantos outros tucanos, até do presidente Fernando Henrique eu sou amigo. Temos divergência política. Queremos chamar quem possa construir, quem pensa próximo do que acreditamos.

APJ - O ministro Pedro Malan cobra que a esquerda deixe claro a proposta para o câmbio, os juros, a dívida externa. Qual a posição?

Lula - Se nem ele sabe, por que nós temos que saber? O Malan está no governo há oito anos e se você perguntar pra ele qual é a taxa de juros daqui a 10 dias ele não sabe. Veja, com coisa séria ninguém brinca. O ideal seria um câmbio flutuante a vida inteira, mas isso não é assim. O Malan ao invés de questionar o PT deveria falar sobre o que está fazendo. A economia brasileira cresceu menos do que na década de 80 em seu período. Deveria perguntar porque em oito anos de governo as exportações estagnaram. Eles não fizeram a lição de casa.

APJ: criticidade e integração

O encontro com Luiz Inácio Lula da Silva foi o segundo de um ciclo que a Associação Paulista de Jornais (APJ) realiza desde o final do ano passado com os presidenciáveis. O primeiro a expôr suas idéias e planos de governo aos 15 principais jornais regionais do Estado de São Paulo foi Anthony Garotinho (PSB), no final de 2000.

“Os encontros da associação com os presidenciáveis têm a expectativa de contribuir com o enriquecimento da consciência crítica do leitor, à medida que se propõe a analisar as prioridades de ação dos futuros candidatos, procurando, ao mesmo tempo, antecipar tendências e apontar contradições”, expõe o presidente da APJ, Fernando Salerno.

O vice-presidente da APJ, Renato Zaiden, diretor do Grupo Cidade e idealizador do encontro com os presidenciáveis, afirma que a associação tem preocupações que vão muito além de suas funções corporativas, como a de fomentar a cidadania e as discussões sobre os destinos das regiões onde atua e do País.

“Fomos pioneiros ao realizar em Bauru, há alguns anos, o primeiro debate ao vivo pela TV com os candidatos ao Governo do Estado. Foi a primeira vez que o Interior de São Paulo sediou um evento político dessa magnitude”, lembra Zaiden.

“Por outro lado, esses encontros não deixam de demonstrar a força e toda a capacidade de articulação dos principais jornais do Interior do Estado de São Paulo, que deixam de atuar, exclusivamente, a reboque das agências de notícias, assumindo seu papel na consolidação da democracia”, comenta Salerno.

â€œÉ exatamente essa a intenção: mostrar a força e a capacidade da principal e mais forte imprensa do Interior do Brasil aos candidatos e, por conseguinte ao futuro presidente da República, e o contrário também, ou seja, os nossos públicos terão acesso a entrevistas exclusivas com os presidenciáveis, que podem expôr suas idéias e propostas de governo da forma mais clara possível”, argumenta Zaiden.

O gerente de Produtos Editoriais do JC, João Jabbour, que é um dos coordenadores do Grupo Editorial da APJ (reúne os editores dos órgãos associados), explica que os jornais decidiram publicar simultaneamente, hoje, a entrevista feita com Lula, na última terça-feira, em São Paulo. “O impacto será uníssono. Neste final de semana centenas de milhares de pessoas conhecerão um pouco mais o pensamento de Lula. Já havíamos feito com o Anthony Garotinho e, em breve, com os demais”, adianta.

A APJ engloba os 15 principais jornais regionais do Estado de São Paulo, a saber: Jornal da Cidade, de Bauru; Valeparaibano, de São José dos Campos; Correio Popular e Diário do Povo, de Campinas; Jornal de Piracicaba; Jornal de Jundiaí; O Liberal, de Americana; Jornal de Limeira; Diário da Região, de São José do Rio Preto; O Imparcial, de Presidente Prudente; Tribuna Impressa, de Araraquara; Folha da Região, de Araçatuba; Diário do Grande ABC; Diário de Mogi, de Mogi das Cruzes e O Cruzeiro do Sul, de Sorocaba.