08 de julho de 2026
Bairros

Geração de renda é para quem batalha

Josefa Cunha
| Tempo de leitura: 4 min

Praticamente 100% dos projetos sociais desenvolvidos em Bauru envolvem programas de geração de renda ou capacitação profissional. Com tanta oferta, a situação das pessoas que estão desempregadas ou que sofrem por estarem profissionalmente desqualificadas para o mercado de trabalho deveria, em tese, ser outra.

A própria Secretaria Municipal do Bem-Estar Social (Sebes), que supervisiona as entidades assistenciais, confirma certa dificuldade para o preenchimento de vagas.

O interesse pelos cursos não costuma ter grande rotatividade, ou seja, os freqüentadores são quase sempre os mesmos, em busca de aperfeiçoamento e novidades. Maria José de Paula Vilela, 40 anos, por exemplo, é figura cativa nos bancos da Central de Mão-de-Obra, espaço mantido pelo município que oferece os mais diferentes tipos de aprendizado com finalidade econômica.

Ponto-cruz, vagonite (variação de bordado manual), cestaria, guirlandas de Natal e embalagens para presentes estão no currículo da ex-digitadora, que reside em Bauru há seis anos. “Sou muito curiosa para aprender esses tipos de trabalho e meu interesse cresceu muito quando descobri que é possível ganhar meu próprio dinheiro”, conta.

Ao abandonar definitivamente a idéia de trabalhar fora - ela preferiu cuidar dos filhos -, Maria José foi atrás de uma atividade alternativa que pudesse reforçar o orçamento. Descobriu nos cursos de geração de renda que tinha talento para bordar em ponto-cruz e não parou mais.

“Vendo para os meus vizinhos e amigos, que vão fazendo a propaganda boca-a-boca e colaborando com o aumento da clientela. Sempre tenho alguma coisa para pronta-entrega, mas a maior parte faço sob encomenda. O dinheiro que ganho livra o material escolar dos meus filhos, garante minha independência e cobre as despesas picadas do dia-a-dia”, gaba-se.

O endereço e o personagem mudam, mas a força de vontade é a mesma. A faxineira Mariza Charlois, 50 anos, já está se aperfeiçoando na atividade que deverá abraçar com exclusividade após a aposentadoria, prevista para daqui a três anos. Boleira informal há muito tempo, Mariza vem dedicando seus dias ao curso de confeitaria mantido pela cozinha experimental da Prefeitura de Bauru, que funciona na Regional Administrativa da Bela Vista.

“Meu objetivo é ter meu próprio negócio, ainda que pequenininho”, sonha ela, que concluiu a oficina de salgados recentemente. “Já recebi algumas encomendas e estou decidida a fazer salgados para vender de porta em porta. Meu filho tem problema e não pode trabalhar fora, mas esse tipo de serviço está ao alcance dele. Caminhos para a gente melhorar existem, basta ter vontade de procurá-los”, teorizou.

Uma vencedora

O otimismo da paranaense Marilda do Espírito Santo, 33 anos, mãe de cinco filhos, surpreende, contagia e faz parecer imotivadas as reclamações comuns da maioria das pessoas. Ela e a família vieram de Curitiba em busca de parentes que nunca foram encontrados.

Sem ter o que fazer e nem para onde ir, investiram tudo o que possuíam num terreno no bairro Ferradura Mirim e ergueram um barraco de madeira “que não segurava a chuva”. Motivada por uma vizinha, Marilda buscou emprego na Central de Triagem de Lixo, onde foi admitida em 1998. Os três anos de trabalho - ela saiu no ano passado para cuidar dos filhos pequenos - valeram praticamente todos os bens da família.

“Meu marido ajudou, é claro, mas foi com a triagem que levantamos essa casa, compramos telefone (ela faz questão de dizer que pagou R$ 900,00 pela linha) e o carro. Foi do lixo que eu tirei muitos materiais para colocar nessa casa”, orgulha-se, apontando para os espelhos dos interruptores e tomadas e conduítes. “Tenho até material já guardado para quando eu construir minha futura casa, no Nova Bauru”, avisa.

Na residência de Marilda, por sinal, quase tudo veio do lixo. Os quadros nas paredes, os enfeites da sala e do quarto dos filhos, mesas, cortinas, o liquidificador, a touca térmica, o secador de cabelos e uma dezena de outros objetos. “Tudo é de lá”, repete ela, com um sorriso franco que acentua as rugas precoces.

Quando a filha mais velha casou, Marilda optou por voltar às tarefas domésticas, mas se arrependeu. “Eu gostava demais de lá. Não devia ter saído”, reconhece ela. O estatuto da Associação dos Catadores de Materiais Recicláveis, da qual ela fazia parte, não permite o retorno de egressos.

O emprego fixo faz falta, mas Marilda não se aperta. No momento, dedica grande parte de seu dia à venda de lingeries e mantém o comércio permanente de “gelinhos”. Uma vez por semana, Marilda, que é semi-analfabeta, freqüenta um curso de alfabetização para adultos; às quartas-feiras, aprende a bordar em vagonite, e todas as noites ocupa um dos assentos de uma classe especial de terceira série do ensino fundamental público.

“Não deixo escapar uma oportunidade. Acho Bauru uma cidade muito boa, porque oferece ensino de um monte de coisas e de graça. Em Curitiba, não era assim, não. Eu ainda quero aprender a assentar azulejo para economizar mão-de-obra na construção da minha casa nova”, antecipa.