11 de julho de 2026
Cultura

Música erudita: sensibilidade e cultura

Hélcio Pupo Ribeiro (*)
| Tempo de leitura: 5 min

Camille Bellaigue, compositor reconhecido da época, não gostava da música para piano de Debussy. Achava-a insípida, sem nexo, feia mesmo. Faltava-lhe, com certeza, sensibilidade para assimilá-la.

Já para os que compreendem o grande mestre francês, sua música toca as raias sutis das emoções profundas da alma humana, levando-a aos planos sensíveis da emoção superior. Suas linhas melódicas e incomparáveis harmonias, são significativamente encantadoras. Transportam-nos para regiões extra-terrenas. Adentramos o mundo onírico.

Outro músico, Lesseur, colega de Berlioz, afirmava que a missão primordial da música é “pintar”. Eis que nos ocorre perguntar: quem “pintou” melhor a música senão os grandes compositores românticos, como Lizst, Schubert, Mendelssohn e outros?

Ouçamos com atenção, a suíte sinfônica “La Mer”, de Debussy. Ele “pintou” o mar como ninguém. Aliás, o compositor chegava ao êxtase musical, contemplando as mutações do oceano, sentado numa rocha, atento e silente, saboreando as rebeldias marinhas. Dividida em três cenas, a suíte abre com Do amanhecer ao meio dia sobre o mar; Brinquedo das ondas e Diálogo entre o vento e o mar. O mago impressionista chega ao êxtase! E com ele, nos irmanamos!

No ano de 1954, a Editora Globo (Rio de Janeiro, Porto Alegre e São Paulo) publicou “Iniciação à Música”, esplêndida coletânea encabeçada pelo eminente Maurice Emmanuel, apoiado por luminares da cultura musical francesa como Reynaldo Hahn, Émile Vuillermoz, Dominique Sordet, Maurice Evayn, entre outros. Dessa colaboração nasceu uma valiosa história da música universal, compêndio que abrange abalizadas informações da nossa música, de autoria do crítico Eurico Nogueira França, da Academia Brasileira de Música.

No início, um alerta: “não existe nenhum guia, nenhum manual que, de maneira facilmente assimilável, ponha ao alcance do grande público a parte essencial daquilo que gostariam de conhecer aqueles que vão aos concertos musicais”.

Nem mesmo o rádio e a televisão, podem resolver o problema da audição e percepção do repertório musical, mas a leitura dirigida pode facilitar e muito, a assimilação do essencial. Tudo nele é clareza e ensinamento.

Afinal, que é música, essa sublime arte de misturar os sons que tanto nos agrada e envolve? Uma definição primária e corriqueira, mas a didática diz, “é arte de combinar os sons de modo agradável ao ouvido”. Atualmente, não é mais possível aceitar tal explicação, eis que compositores modernos, conhecidos como de vanguarda, utilizam sons desagradáveis, as dissonâncias, contradizendo tudo que as regras técnicas, estéticas pregam para a criação musical. “Arte é tudo que o artista diz que é arte”, proclama um artista americano.

Outro exemplo, ainda dos EUA, John Cage. Ele compôs um concerto para piano de seis minutos. No palco de um grande teatro há um piano de cauda inteira. Sobre o instrumento, um relógio despertador ajustado para disparar aos seis minutos.

O recitalista entra, traje à rigor, cumprimenta o público, espera o fim dos aplausos e inicia sua performance. Durante sessenta longos segundos mantém-se estático e calado. A platéia espera, pacientemente. Súbito, o relógio dispara, o artista levanta-se, agradece generosamente a aclamação - chegaria a tanto? - e o concerto está encerrado. Música moderna, de vanguarda, do futuro!!!

Retornando à “Iniciação à Música”, o livro prossegue, sem pretensões enciclopédicas mas atingindo plenamente objetivos didáticos. Discorre sobre compositores, escolas, nomenclatura, etc., destacando os mais importantes e conhecidos.

Continuando, um “Dicionário de Obras”, logicamente um resumo suficiente para o entendimento bio-bibliográfico dos músicos em estudo. Segue-se um “Glossário de Termos”. Abrange os mais comuns em relação ao livro. Uma obra musical pode ser, por exemplo, sonata, trio, quarteto, etc., melodiosa e harmônica, “lied” (palavra alemã que significa canção), coro, coral, etc.; sinfonia, suíte, concerto, “ouverture” (abertura) poema sinfônico, etc.; ópera, drama-lírico, ópera-cômica, opereta, etc. Parte interessante, proveitosa, é a final, referente ao ouvinte, matéria-prima do espetáculo de arte.

Três categorias são estipuladas para defini-lo: o ouvinte técnico, ilustrado, conhecedor; o melômano com algum conhecimento musical e o ouvinte comum, pouco esclarecido. Este adora a música, mas, na maioria das vezes, não sabe dizer porquê. O técnico terá por objetivo os problemas da composição - os arranjos, as dificuldades da partitura, melodia, harmonia, contraponto, fuga, etc.; a instrumentação, o colorido e a polifonia.

É o ouvinte atento aos pormenores e detalhes, às vezes insignificantes. O melomaníaco é apaixonado pela melodia, por arranjos harmoniosos, mesmo singelos, mas agradáveis. O bom ouvinte distingue a boa obra da má, coisa que o seu ouvido apurado lhe garante.

É interessado e, normalmente, quer conhecer mais. Sabe que a melhor qualidade da música é a sua resistência ao tempo. Bach, Handel e Vivaldi escreveram obras que ainda são apreciadas nos salões atuais de concerto, quase trezentos anos após compostas.

Há mais de 250 anos as sinfonias de Beethoven são aplaudidas, e como! Quem não conhece o “tam, tam, tam, tam”, da 5.ª?

Convém lembrar, porém, que a boa música não oferece tudo à primeira audição. Necessita convívio mais íntimo e prolongado e, às vezes, até mesmo, de familiaridade. Paciência e persistência, valem muito. Pode acontecer, ainda, que o momento da audição não seja propício e não favoreça condições de boa receptividade.

“A música é sempre uma sedução e um encantamento”, diz Vuillermoz. “Ela convence, deslumbra, embriaga e exalta. Ergue-nos acima de nossa condição humana. Torna-nos melhores.”

Na sua sublime missão, o artista se propõe desvendar o passado, isto é, explicar as origens da obra musical, suas razões e metas. A do historiador, é analisar esse trabalho, ressaltar suas qualidades, enaltecendo-lhe as belezas e justificá-las. O papel do intérprete é valorizar os aspectos positivos da obra de arte, quer musical, quer artística, sem esquecer o lado negativo. Deve dar sua opinião. Ser pedagogo.

Finalizando, sensibilidade e cultura podem nos dar, com o tempo, uma formação primordial e valiosa para sermos, então, audiófilos atentos e em condições de criticar e selecionar o joio do trigo, isto é, confirmar porque a música é a mais espiritual de todas as artes. Sublime e imorredoura.

Lendo, há alguns anos, um precioso tratado de música universal, editado na Espanha, deparei com uma frase extraordinária do musicólogo Lopez de Ayala. Jamais a esqueci: “La musica es todo lo que non cabe dentro del linguaje humana.”

(*)Especial para o JC Cultura