As maiores vítimas dessa discriminação - embora obviamente não existam dados sobre o assunto - estima-se que sejam as mulheres, que dominam alguns cargos de atendimento direto ao público como secretária, recepcionista e vendedora.
“Muitas empresas ainda estão presas nesse conceito de beleza que valoriza a mulher magraâ€, diz a psicóloga organizacional Marta Alice Nelli Bahia. Há pouco mais de um mês, em Santa Catarina, um caso de discriminação contra duas mulheres obsesas ficou famoso em todo País.
Apesar terem sido aprovadas na prova escrita de um concurso público para a Prefeitura de Blumenau, Marta da Silva e Claudete Souza Cagnetti, não puderam assumir os cargos de cozinheira e auxiliar de serviços gerais, respectivamente. Elas foram impedidas porque a perícia médica pela qual foram submetidas indicou que ela eram obesas demais.
Marta da Silva, de 33 anos e 1,56m, tem 125 quilos e Claudete Cagnetti, de 24 anos e 1,60m, 95 quilos, entraram na Justiça para não perderem o emprego, pois sempre trabalharam apesar do peso. De acordo com o laudo da perícia, Marta da Silva tem obesidade mórbida e, por isso, pode ter problemas de saúde no futuro. Claudete Cagnetti, por sua vez, foi considerada obesa, hipertensa e com problemas em um braço. Ambas foram consideradas incapazes de executar suas funções.
A tendência não é uma característica nacional. Essa semana, nos Estados Unidos, a professora de aeróbica Jennifer Portnick, de 108 quilos, conseguiu junto a uma comissão administrativa da cidade de San Francisco, onde mora, o direito de dar aulas numa academia que havia se recusado a contratá-la. A alegação da academia, da rede esportiva Jazzercise, com sede em San Diego, era que Portinick, de 1,73m de altura, não parecia “suficientemente em forma†para o cargo.
A professora argumentou que sua aparência é mais próxima à da média das mulheres americanas que a dos professores de aeróbica, acrescentando que seu modo de vida sadio a qualificava para dar aulas.
A comissão de direitos humanos de San Francisco, que recebeu sua queixa no ano passado, concordou. A rede de ginásios acatou a decisão e garantiu que no futuro os candidatos a professores nas academias de ginástica passarão a ser avaliados de uma forma diferente, em testes que avaliem sua resistência e capacidade física para realizar passos de dança.
Imagem da empresa
A justificativa número um das corporações para recusar pessoas obesas é que o funcionário, principalmente o que está em contato direto com o cliente, representa a imagem da empresa. Por isso precisa ser magro e, na medida do possível, bonito. “As empresas buscam essa aparência porque o mundo vive de aparência, a mídia valoriza a idéia de que o magro é o belo, o saudável, o corretoâ€, explica a psicóloga.
Agnaldo Silva*, gerente de uma loja de roupas do centro de Bauru, admite que na hora da contratação de uma nova vendedora a aparência conta muito. “A pessoa que está em contato com o público precisa ser bonita, ter uma boa aparência, para agradar o clienteâ€, diz.
Silva* afirma acreditar pessoalmente que o visual pode não afetar a qualidade do trabalho da pessoa. “Tenho consciência de uma pessoa gorda pode ser tão boa profissional do que uma magra, mas é até uma questão de concorrência. Com atendentes de boa aparência a gente tenta chamar atenção do cliente que está passando. É mais fácil olhar para pessoas bonitas, não éâ€, questiona.
Quem passa pela humilhação de perder o emprego por causa do peso revela que as empresas nem sempre afirmam diretamente que a obesidade é o problema, mas tentam deixar a afirmação subentendida.
Eles dizem que você não se aplica no padrão da empresa, mas não dizem que é por ser gordaâ€, diz a comerciária Maria Cristina de Jesus, que pesa 90 quilos e tem 1,65m de altura, que acredita ter perdido algumas vagas por causa da obesidade. “Uma vez me disseram que o cargo exigia agilidade e por isso não tinha sido chamadaâ€, revela.
Padrão de beleza
Todas as publicações e profissionais de recursos humanos concordam que durante uma entrevista de emprego o candidato deve fazer o máximo para “encantar†o empregador. Algumas revistas de RH chegam a usar o termo “se venderâ€, ou seja, mostrar ao empregador o que se é capaz, educado e capacitado para o trabalho. Para Marta Bahia, esse tipo de recomendação é perfeitamente aceitável porque o candidato precisa realmente mostrar que é adequado para a função e, sua aparência, coerente a ela. A psicóloga não concorda, porém, que a obesidade deva ser colocada em questão. “Quando a gente faz uma seleção, não sai em procura de mulheres como Julia Roberts ou Gisele Bündchen, procuramos pessoas que tenham conteúdo, sejam carismáticas, espontâneas e possam desempenhar bem a funçãoâ€, diz.
Marta Bahia ainda argumenta que não é possível julgar uma pessoa pelo seu visual porque o padrão de beleza varia de indivíduo para indivíduo, de empresa para empresa ou país para país. “A própria questão da obesidade é relativaâ€, afirma. Para ela isso depende de até que ponto a pessoa está satisfeita com o seu visual e também do quanto o seu peso interfere na sua função.
A afirmação faz sentido, se o peso de uma pessoa for ser sempre considerado, milhões de brasileiros vão ficar para sempre desempregados. Segundo dados de 1999 do IBGE, 36% da população nacional tem o índice de massa corpórea (IMC) - medida que estabelece a relação entre o peso e a altura - igual ou maior a 40. Resumindo: são gordos ou estão acima do peso.
*O nome do entrevistado foi trocado para preservar sua identidade
(*)Agência Folha e France Presse