08 de julho de 2026
Saúde

Corpo é atingido pelas dores da alma

Fabiana Teófilo
| Tempo de leitura: 5 min

Um paciente que apresenta doença de pele e um quadro emocional alterado diagnosticado pelo médico precisa de um tratamento psicossomático. Diversas literaturas dessa área afirmam que essa é a única solução para a esperada cura.

Muitas vezes, é difícil diagnosticar o paciente que chega ao dermatologista com algum tipo de doença de pele. Ele não fala de sua vida pessoal, portanto o médico não sabe quando indicar esse tratamento.

A psicóloga e psicoterapeuta junguiana Regina Célia Paganini Lourenço Furigo diz que é um erro de diagnóstico submeter o paciente a busca de uma solução bem maior e mais dolorosa do que necessitaria.

“Hoje vivemos tempos de interdisciplinariedade. Não podemos olhar o ser humano só sob a ótica de uma especialidade. Temos que lembrar que aquele indivíduo é um ser emocional, portanto ele tem um psíquico, é um ser social que está exposto ao dia-a-dia e, fundamentalmente, nós, profissionais de hoje, não podemos ter preconceito e nem onipotência de querer achar que cada um, dentro da sua ciência, consegue dar conta de todas as coisas. Por isso falamos de trabalho de equipe de profissionais, interdisciplinariedade, para que realmente os dados possam ser trocados e analisados por diversos profissionais com o objetivo de agilizar o tempo que se expõe tal paciente a um sofrimento desnecessário”, analisa.

O médico dermatologista, Roberto Doglia Azambuja, publicou, no Rio de Janeiro, que o nível de estresse que acompanha cada quadro dermatológico deve sempre ser medido ou, pelo menos, considerado pelo médico, pois isso faz parte da alteração da pele - ou é conseqüência dela ou anterior a ela. “O estresse emocional desempenha um papel em todo o quadro de doenças crônicas da pele”, diz. Os pacientes devem ser avaliados, de acordo com ele, com relação a indicadores físicos, psicológicos, emocionais e comportamentais de estresse.

Para Regina, quem não se abrir para a questão multidisciplinar, é um profissional que estará expondo seu paciente a um trajeto prolongado e desnecessário que ele poderia resolver. “Nem sempre o médico precisa encaminhar para a psicologia. Ele mesmo pode dar uma atenção especial para seu paciente e, com isso, o paciente se sentirá amparado, confortado e, dessa maneira a própria medicação que o médico receitar fará o efeito esperado”, explica.

Médico-paciente: um vínculo necessário

A também psicóloga e psicoterapeuta, Helenice Cristina Azevedo e Silva, explica que o bom relacionamento entre o médico e seu paciente é fundamental no tratamento das doenças. O vínculo, de acordo com ela, mobiliza no doente as forças de auto-cura. O paciente, sentindo-se bem, amparado, vai querer sarar, colocando suas forças psíquicas a serviço da adequação da medicação que ele está tomando. “No início, ele chega muito fragilizado. Essa é a hora do profissional acolhê-lo bem, para que possa dispor dessas ferramentas”, afirma.

A psicoterapeuta junguiana, Regina Furigo, alerta para o fato de que há dois lados do diagnóstico. Um lado é o profissional achar que nada é emocional, o outro é achar que tudo é emocional. Por isso, é necessária uma avaliação precisa de cada caso. Quando se pensa em emocional, muitas vezes, se vê como se o psicológico não fosse nada, de acordo com a psicoterapeuta. “As pessoas falam que não é nada, que é algo inventado. Realmente certos sintomas podem ser confundidos, por isso não podemos estar no redutivismo de achar que tudo é emocional”, explica.

A psicoterapeuta diz que, atualmente, se chama muita a atenção para a relação médico-paciente, por esse fato.

O ideal, de acordo com Regina, é integrar o biológico e o psicológico. Há uma tendência, de acordo com ela, em se afirmar que as doenças são psicossomáticas, na medida que uma parte do corpo que vai mal, conseqüentemente a pessoa fica emocionalmente atingida.

Por outro lado, explica ela, uma parte psíquica que não está bem, também fará com que o corpo sinta algo, como um cansaço, uma indisposição ou até uma depressão. “Não podemos dissociar corpo e mente”, afirma.

Discriminação

Regina, juntamente com Helenice e o médico dermatologista, Antônio Carlos Ceribelli Martelli, acreditam que existe dificuldade do indivíduo, que tem uma doença dermatológica, para se integrar na sociedade. Eles explicam que, quando a pessoa apresenta uma doença que aparece na pele, a sociedade a vê como uma transmissora de doença.

Há uma discriminação em relação ao paciente. Isso ocorre porque as pessoas acham que pode ser uma doença contagiosa. O simples fato delas questionarem o que o doente tem já incomoda. Normalmente, elas perguntam do que se trata as feridas e dão alguma receita contando um caso parecido. O intuito, muitas vezes, é ajudar, mas para aquele que apresenta as lesões é péssimo ter que ouvir sempre a mesma coisa de todo mundo.

O que o indivíduo faz, diante disso, é se afastar da sociedade. Ele não quer mais trabalhar, estudar, ou seja, não sente mais vontade de sair de casa.

“Precisava resolver meu coração”

F.P.T., de 28 anos, perdeu a vontade de sair de casa. Ela conta que adquiriu uma urticária, percorreu vários médicos e eles não chegavam a nenhum diagnóstico. Sua pele, de acordo com ela, ficava repleta de manchas vermelhas que coçavam muito. Além da pele toda cheia de feridas, seus olhos, mãos e boca, inchavam e ela se sentia totalmente deformada.

Fez diversos tratamentos, mas nenhum médico pelos quais passou, pensou em indicar uma terapia como um tratamento conjunto. Depois de oito meses, F.P.T. resolveu um problema de relacionamento afetivo que a incomodava muito. Ela nunca mais teve crises alérgicas.

Hoje, ela sabe qual era o seu problema. “Precisava resolver meu coração. A dor que sentia na minha alma”, diz.

Quando tinha as crises, F.P.T. não queria sair de casa. Chegou a ficar afastada do trabalho, tirando férias antecipadas. O problema dermatológico que teria sido causado pelo lado emocional, estava atrapalhando sua vida social.