08 de julho de 2026
Ser

Para a vida toda

Gustavo Cândido
| Tempo de leitura: 5 min

Não é um exagero dizer que os aposentados João Batista Sandri e Januária Zulian Sandri estão juntos há uma vida. Eles completarem no dia 30 de abril, 70 anos de casamento, um período maior do que o tempo de vida de muitas pessoas. O casal, na atualidade, faz parte de um seleto grupo - cada vez mais raro - de pessoas que conseguiram driblar durante décadas todas as intempéries que podem afetar os casamentos.

Também fazem parte desse time os igualmente aposentados Manoel Bento de Campos e Rosa Bonasso, que moram em Iacanga e são casados desde 18 de abril de 1928. O segredo deles para continuarem felizes depois de tantos anos? Paciência e respeito.

“Nos conhecemos na roça quando éramos jovens. A gente se olhava de longe mas nunca tinha conversado”, conta Januária Sandri, de 90 anos, sobre as primeiras vezes em que viu o marido. Na época, na zona rural de Agudos, cidade onde vivem até hoje, não eram muitas as oportunidades que os jovens tinham para se conhecer e namorar. “A gente só ficava se olhando”, lembra.

O encontro aconteceu num baile. “Logo começamos a namorar e um ano e meio depois nos casamos”, explica.

A história de Manoel Bento de Campos e Rosa Bonasso começou de maneira quase idêntica. “A gente brincava quando era criança na fazenda”, relata Rosa, que morava no campo, na região de Jaú - onde nasceu - como o marido. O encontro que marcou o início da união também aconteceu num baile.

A diferença entre os casais é que Rosa e Manoel tiveram que lutar um pouco mais para conseguir ficar juntos. “Ela é filha de italianos, era uma menina branquinha, ele era um ‘negrão’. Se existe o ‘tal do preconceito’ até hoje, imagine naquela época”, avalia uma das oito filhas do casal, Floripes de Campos Padim. “O meu avô, pai da minha mãe, não queria saber de ver os dois juntos”, completa.

A solução foi radical. “Quando eu tinha 17 anos, nós fugimos. Era uma quinta-feira. Na sexta casamos no civil e no sábado, no religioso”, lembra orgulhosa a hoje tataravó Rosa, de 91 anos. A ousadia deu resultado: depois de alguns anos seu pai aceitou o matrimônio e o genro.

Na alegria e na tristeza

A união, nos dois casos, não poderia ter levado mais a sério as palavras que o padre profere na cerimônia de casamento sobre ficar juntos para a vida toda seja qual for a circunstância. Os Sandri e os Campos/Bonasso tiveram oito e dez filhos, respectivamente, e hoje possuem dezenas de netos e bisnetos. Na opinião de Januária Sandri, chamada de Josefa por amigos e parentes, os casamentos da sua época eram diferentes dos que acontecem atualmente. “Hoje, eles se separam com dois, três anos de casados. No nosso tempo, a gente nem pensava que isso era possível”, explica. Rosa Bonasso concorda e é mais incisiva: “Hoje as mulheres não agüentam nada, qualquer coisinha já querem se separar. Antigamente elas tinham mais respeito pelo marido”, diz.

Os maridos também respeitavam mais as esposas, segundo o casal. “Nunca brigamos”, afirma calmamente Manoel Bento de Campos, de 95 anos. A esposa confirma, explicando que nenhum casamento sobrevive por tanto tempo sem que os dois saibam “deixar passar” algumas coisas. É o que também pensa Josefa Sandri: “Para um casamento durar tanto tempo tem que ter muita paciência, passar por muita coisa e trabalhar bastante”, ensina.

Para ela, uma grande diferença entre os relacionamentos de hoje e os de décadas atrás é que os pais já não educam mais os filhos ensinando sobre a importância do casamento. “Hoje, os jovens ficam noivos e os pais nem sabem o que eles estão fazendo”, afirma. “Antes, os filhos respeitavam os pais até mais tarde. A educação era mais rigorosa”, salienta. “Antigamente, os pais tinham uma autoridade sobre os filhos, hoje o filho responde para o pai na cara dele”, diz Campos, seguindo o mesmo raciocínio.

Para durar hoje

De acordo com a psicóloga Maria Regina Vanin, não existe um fator determinante para que um casamento dure tanto tempo quanto no caso dos Sandri e dos Campos/Bonasso, mas vários. Para ela, atualmente, pessoas emocionalmente maduras são as que têm mais chances de manter relacionamentos duradouros.

Isso quer dizer que para saber resistir às inevitáveis frustrações do cotidiano a dois é necessário ter bom humor e flexibilidade. “Criatividade também é fundamental para para tornar a vida mais mais agradável, inclusive a vida sexual”, lembra, sem esquecer o afeto e o respeito que são necessários. “O ideal em um casamento é que cada um respeite a individualidade do outro, que os dois tenham espaço para crescer em todos os sentidos e que se ajudem mutuamente”, explica.

Mudanças no relacionamento

A comparação do tempo de duração dos relacionamentos de antigamente com os de hoje pode não ser muito justa como explica Maria Regina Vanin. Os casamentos no passado duravam, em grande parte, às custas da repressão e da falta de alternativa das mulheres, que dependiam economicamente dos maridos. “Quem segurava o casamento era a mulher, muitas vezes se anulando.”

A emancipação feminina, os métodos anticoncepcionais, o divórcio e os meios de comunicação mudaram esse panorama. Hoje a família tradicional vem sendo substituída por outras: mães e pais solteiros, homossexuais que adotam filhos, produção independente, etc. Mas ao mesmo tempo antigamente, a escolha matrimonial envolvia questões econômicas e conveniências. Hoje, cada vez mais, se escolhe pelo afeto e pela atração e isso é uma evolução.

O casamento não é uma “instituição falida” como pregam alguns, mas para a psicóloga ele precisa ser revisto. “Existem casamentos felizes e famílias saudáveis, então isso é possível. Temos que encontrar novos caminhos para a família e para o casamento, onde as pessoas possam ser mais verdadeiras e felizes.”