07 de julho de 2026
Ser

Mães do Coração

Gustavo Cândido
| Tempo de leitura: 6 min

Comemorado oficialmente no Brasil desde 1932 por decreto do então presidente Getúlio Vargas, o Dia das Mães celebrado hoje é uma data especial para todas as mulheres que foram abençoadas pela natureza com o dom da maternidade. Para aquelas que driblaram ou ressaltaram essa mesma natureza, o dia tem um significado ainda mais especial. São as mães adotivas, que tiveram a oportunidade e o desejo de de transformar a maternidade num capítulo a parte de suas vidas.

“Fico superfeliz quando chega o Dia das Mães e minha filhinha vem até a minha cama de manhãzinha me dar parabéns”, diz emocionada a dona de casa Helena*, de 37 anos. “Não há um dia em que eu não agradeça a Deus por ter tido a vontade de pegá-la para criar, mas é no Dia das Mães que eu mais faço isso”, explica. Helena* e o marido, o empresário Roberto*, de 41 anos, decidiram adotar Juliana*, hoje com 6 anos por não poderem gerar filhos naturalmente. “Tentamos por muitos anos, fizemos tratamento e nada, então optamos pela adoção”, lembra a mãe.

Juliana* “chegou” com oito meses à nova casa depois que sua mãe natural a entregou para adoção. “Foi o dia mais feliz da minha vida”, confessa Helena*, filha única, que nunca tinha cuidado de uma criança antes. “Foi uma revolução na minha vida, tive que aprender tudo de uma hora para outra, mas graças a Deus deu tudo certo. Minha filha é linda, fez de mim uma mãe e uma mulher muito feliz”, afirma.

É praticamente impossível encontrar uma mãe adotiva que não se emocione ao falar de como encontrou ou viu seus filhos pela primeira vez. “Acho que isso acontece porque, diferente das mães naturais, nós não temos aqueles nove meses para nos acostumarmos com a chegada do filho. Ele vem de repente, pronto, aquilo fica marcado demais”, justifica Helena*.

Outro sentimento comum, é um certo receio de se ver sem os filhos de uma hora. Esse medo faz com que muitas mães aceitem falar sobre seus filhos apenas sob a condição de que não sejam revelados os seus verdadeiros nomes. É o caso de Helena* e da dentista Clara*, que também recorreu à adoção por não ter filhos naturais.

Sua adoção foi atípica. “Queria adotar não só uma criança, mas irmãos, estava disposta a levar até cinco crianças para casa”, lembra. Há cinco anos Clara* se tornou mãe de Patrícia*, Evandro* e Ana Luiza*, hoje com 8, 6, 5 anos respectivamente. A opção pelos irmãos, tinha o objetivo de fazer com que as crianças não se sentissem sós na infância.

Assim como Helena*, a dentista não tinha a mínima experiência com bebês e crianças novas. Ela conta que a ajuda veio de todos os lados. “Minha mãe me ajudou, minha empregada me ensinou muita coisa. Não sabia nem como se fazia uma mamadeira”, diz. Hoje, a dentista garante que a maternidade foi uma das melhores decisões de sua vida. “Não trocamos a nossa vida atual pela de antes quando não tínhamos as crianças. Somos uma família muito mais feliz agora”, comemora.

De volta a escola

A dona de casa Marilucia Pinheiro da Silva já tinha dois filhos adolescentes quando levou para casa a recém-nascida Rafaela e, mais tarde, Bruna, com quatro meses. Ela fazia parte da Pastoral da Criança e estava realizando um trabalho junto à população de uma favela no Jardim Flórida quando conheceu a mãe de Rafaela. “Ela não tinha condições de criá-la, mas ao mesmo tempo não queria se separar da filha”, lembra. Marilucia começou a ajudar na criação da menina levando-a para casa. “Ela teve um problema de saúde e eu cuidei dela. Aí ela foi ficando, ficando, até que a mãe concordou que eu a criasse e hoje tenho sua guarda”, explica. Hoje aos 10 anos, Rafaela sabe que tem uma mãe natural, mas considera Marilucia sua verdadeira mãe. “Com a Bruna, que é prima da Rafaela, foi praticamente a mesma coisa”, diz Marilucia.

Os filhos naturais da dona de casa, Thiago e Ana Cláudia, foram determinantes para que Marilucia continuasse a criar as duas meninas. “Eles insistiam para que eu deixasse elas dormirem em casa. Ficavam com medo de que acontece alguma coisa fora daqui”, lembra. Para Marilucia, a adoção foi uma forma de devolver a Deus a graça de ter sido mãe de filhos tão bons. “Eles nunca me deram trabalho, sempre foram ótimos filhos”, explica.

A entrada de Rafaela e Bruna em sua vida não mudou apenas o dia-a-dia doméstico mas está, ainda hoje mudando a sua maneira de ver o mundo. “Por causa delas estou estudando de novo junto com o meu marido. Estamos indo para escola para poder ajudá-las nos estudos. Até isso elas trouxeram para mim”, diz.

* Os nomes de algumas entrevistas e de seus filhos foram trocados para preservar suas identidades

Maternidade além da barriga

A mulher se torna mãe a partir da concepção. É mãe de um embrião, depois de um feto, mais tarde de um bebê. A relação da mulher com aquela criatura que cresce dentro dela é intenso desde o primeiro momento. Mas isso é o que basta para fazer uma mãe?

Para a psicóloga Elaine Olmo, ser mãe está além do âmbito biológico, que é importante mas não único. Por isso uma mãe adotiva pode ser tão mãe como uma mãe biológica. “Ela pode suprir toda a necessidade física e emocional do seu filho. O amor ao filho não depende de uma carga genética”, afirma. A psicóloga lembra que muitas mães adotivas dizem que se apaixonaram pelos filhos nos primeiros momentos que os viram, o que criou instantaneamente um laço natural. “A mãe adotiva jamais será menos mãe pelo fato de não ter gerado o filho”, afirma.

Uma mulher de coragem

A cabeleireira Lia Damasceno demonstra claramente uma outra característica comum em mães adotivas: a discrição. Ela, como todas as outras, não gosta muito de falar sobre os filhos adotivos para preservá-los de qualquer comentário ou preconceito. Natural de Ananindeua, no Pará, Lia é mãe de nada menos que 17 filhos, com idades entre 3 e 30 anos, sendo 15 deles de criação.

Como muitos deles possuem problemas físicos, a cabeleireira vem pelo menos três vezes por ano ao Centrinho, em Bauru, para que eles sejam tratados. “Comecei adotar porque as crianças precisavam de mim”, diz. Para cuidar de uma família tão grande sozinha (ela é solteira), Lia conta, às vezes, com a ajuda financeira da mãe e das irmãs, pensionistas da Marinha. “A gente tem que se esforçar muito, mas vale a pena”, avalia.

Em casa, ela garante que o relacionamento com os filhos e filhas é igual ao de qualquer família comum. “Eles não dão trabalho. A gente tem momentos muito bons, mas quando precisa a gente briga também”, afirma, com um ar de quem não está fazendo nada demais. A modéstia também costuma acompanhar essas mulheres de fibra.