Começa hoje a Semana da Luta Antimanicomial em Bauru. Até dia 22, a programação discute problemas e revela perspectivas em relação aos serviços de saúde mental no País, com debates, mesas redondas e exibição de filme.
Os temas centrais em discussão serão “Violência É Excluirâ€, “Direito à Diferença†e “Direito à Liberdadeâ€, assuntos especificamente ligados ao movimento da Luta Antimanicomial.
A iniciativa é do Conselho Regional de Psicologia, através da Comissão de Saúde Mental e Reforma Psiquiátrica - uma comissão técnica do Conselho Municipal de Saúde de Bauru.
Coordenada pela psicóloga Sandra Elena Sposito, a comissão reúne diversos representantes envolvidos na questão da saúde mental em Bauru, como a Divisão de Saúde Mental da Prefeitura, a Secretaria Municipal de Saúde, Ambulatório de Saúde Mental, Hospital Psiquiátrico, universidades, associações de usuários e profissionais da área.
“Existe uma preocupação muito grande hoje na área de saúde mental com a forma como o paciente é tratado. Já há algum tempo existe uma série de estudos e uma orientação na Organização Mundial de Saúde (OMS) indicando que os melhores tratamentos talvez estejam relacionados à não internaçãoâ€, esclarece a psicóloga.
Segundo ela, os hospitais psiquiátricos já não são considerados a forma ideal de tratamento dos doentes mentais. A alternativa ideal seria buscar o que os profissionais chamam de rede substitutiva.
“Essa rede seriam formas de substituir a internação, criando serviços que possam acolher ou tratar, de modo emergencial ou preventivo, os doentes mentaisâ€, explica Sandra.
“A internação tira o indivíduo da sociedade, o isola da família, do contato social, das possibilidades de trabalho, lazer e educação. Ele fica dentro de uma instituição que, infelizmente, na maioria dos casos, não tem uma estrutura digna para acolhê-lo, incluindo condições mínimas de higieneâ€, acrescenta.
Luta Antimanicomial
A Luta Antimanicomial é tida como segundo maior movimento popular em projeção no Brasil, ficando atrás apenas do Movimento dos Trabalhadores Sem Terra. Os milhares de profissionais envolvidos defendem que os doentes mentais, assim como as demais pessoas, devem ter direito à identidade própria, liberdade e privacidade, além do convívio social e familiar.
Em Bauru, o Hospital Psiquiátrico mantém 400 leitos, entre temporários e permanentes. Sandra disse que a comissão técnica mentém contato freqüentes com a instituição no sentido de melhorar as condições dos doentes.
“A questão não é atacar o Hospital Psiquiátrico. A gente não acredita é na concepção dele. Historicamente, os manicômios foram criados há alguns séculos para abrigar e aprisionar todos elementos que eram desagradáveis ao convívio e incomodavam as pessoasâ€, lembra Sandra.
Neste contexto, conviviam naqueles locais mendigos, prostitutas, alcoólatras, loucos, etc. Eles eram confinados com o pretexto que estariam em tratamento, sem, no entanto, existir um projeto terapêutico claro, a não ser processos anacrônicos como a lobotomia e eletrochoque.
“Os hospitais psiquiátricos são um resquício disso, não que ainda usem os mesmos métodos, mas mantêm a idéia de que o melhor para o doente mental é ficar confinado. Nossa pergunta é: isso é melhor para o doente mental ou melhor para as pessoas que não vão ser incomodadas por ele?â€.
Programação
Hoje
Abertura oficial, 14h, na Tribuna Livre da Câmara Municipal (praça D. Pedro II, s/n.º);
Amanhã
Debate sobre projeto de lei para criação de um sistema de saúde mental para bauru, 15h, no “plenarinho†da Câmara;
Quinta-feira
Mesa redonda “O papel dos usuários dos serviços de saúde mental no avanço da reforma psiquiátrica, 19h30, na sala 7 da faculdade de Serviço Social da Instituição Toledo de Ensino (praça 9 de Julho, s/n.º, Vila Falcão);
Sexta-feira
Exibição em vídeo do filme “O Bicho de Sete Cabeças†seguida de debate, 19h, na sala 7 faculdade de Serviço Social da ITE - vagas limitadas reservadas pelos telefones (14) 223-3147 / 223-6020;
Sábado
Mesa redonda “Saúde mental no Brasil: problemas e perspectivasâ€, 8h às 12h, na sala 9 da faculdade de Serviço Social da ITE;
Panfletagem e divulgação da luta antimanicomial e dos serviços de saúde mental na quadra 5 da rua Batista de Carvalho, das 9h às 12h;
Dia 22
Experiência da atuação da Associação dos Usuários Franco Basagila no atendimento em saúde mental, 19h30, na Diretoria de Ensino de Bauru (rua Campos Salles, 9-42, Vila Falcão).