As principais lideranças nacionais do Partido dos Trabalhadores (PT) adotam cautela ao falar de temas polêmicos como o tratamento a ser dado à dívida externa e aos compromissos do País com o Exterior. De um lado, o candidato do PT à presidência, Luiz Inácio Lula da Silva, fala com empresários para minimizar qualquer susto ou surpresa. De outro, ontem, em Bauru, o deputado federal e candidato petista ao Senado Aloízio Mercadante afirmou que o partido não vai fazer auditoria na dívida externa. A justificativa é que o Banco Central já tomou esta medida neste governo.
Para Mercadante, a dívida externa está controlada. â€œÉ uma dívida completamente administrável, é uma dívida fundamentalmente privada. A dívida pública é de US$ 90 bilhões e temos reservas cambiais para controlar. Portanto, é uma dívida que não traz maiores dificuldades neste momentoâ€, cita.
Segundo ele, o Banco Central acabou de realizar uma auditoria preliminar e reduziu em US$ 30 bilhões a dívida, contabilizando uma dívida entre matriz e suas filiais que eram na verdade empréstimos e não fazem mais parte desses valores. Houve um alívio e vamos monitorarâ€, esclarece.
O deputado prefere discorrer sobre a causa das turbulências cambiais enfrentadas pelo País. “O que não podemos mais manter é a vulnerabilidade externa do Brasil. Precisamos de superávits comerciais exatamente para eliminar as turbulências cambiais que temos assistido que decorre desse déficit muito alto das transações correntesâ€, adverte.
Ele traça um paralelo entre a origem e o crescimento da dívida. “No ano passado, o déficit foi de US$ 23 bilhões. Quando o presidente Fernando Henrique Cardoso tomou posse, o déficit era de R$ 1,7 bilhão. Esse é o dinheiro novo que o País tem que pedir emprestado todo ano para fechar as contas. É isso que gera pressão no câmbio, instabilidade e especulação. Precisamos exportar mais e substituir importações para ter estabilidade na balança de pagamentosâ€, menciona.
O programa do PT trabalha com dois pontos principais que também são mencionados por outros candidatos. “O País precisa retomar o crescimento para poder gerar emprego. Em segundo, precisa orientar este crescimento para os problemas sociais. Tem uma multidão que precisa virar consumidor, cidadão, trabalhadorâ€, conta.
Imposto de Renda
A estratégia de comedimento se reafirma quando o tema é a cobrança de Imposto de Renda (IR). “O imposto de renda com seis anos sem reajuste na tabela provocou um arrocho muito grande para a classe média. A faixa de isenção foi reduzida e há um segmento que ganha cerca de R$ 3 mil que está sendo sobretaxado. Queremos mais progressividade para que as diferenças nos níveis de renda sejam mais espaçadas e que as alíquotas sejam progressivasâ€, explica Mercadante.
O comentário do deputado petista contrasta com uma citação de Lula ao tema. O candidato a presidente chegou a citar progressividade de até 55%. A reação a afirmação foi imediata, há poucas semanas. “Não queremos mexer só no imposto de renda para desonerar o cidadão. Queremos acabar com a cumulatividade de impostos para exportações e reduzir os impostos em cascata sobre o faturamento e desburocratizar, simplificar e racionalizar a estrutura tributáriaâ€, amplia.
O líder petista vai mais além, mas sem se arriscar a falar em percentuais elevados. “O consumo, a renda e a riqueza devem ser os fatos principais para a arrecadação. A progressividade tem que levar em conta vários fatores no imposto de renda. Hoje, você não paga nada até uma faixa e, logo em seguida, passa a pagar 15% e depois 27,5%. Quem está no miolo está sendo penalizado. O sujeito que está na faixa de renda bem acima está solto. Precisamos equalizar com uma alíquota mais gradual para não arrochar a classe média. É injusta a relação entre os 15% e os 27,5% e as rendas respectivasâ€, completa.