08 de julho de 2026
Geral

Doentes da hepatite C cobram prevenção

Josefa Cunha
| Tempo de leitura: 6 min

Grupos de apoio aos portadores de hepatite C de todo o Brasil sairão às ruas hoje para cobrar a implementação efetiva do Programa Nacional para a Prevenção e Controle das Hepatites Virais (PNH), aprovado pelo Congresso em fevereiro deste ano, mas ainda sem qualquer definição quanto a sua dotação orçamentária. Os manifestos deverão ocorrer em São Paulo, Brasília, Rio de Janeiro, Rio Branco e Santos.

Bauru não possui movimento organizado, embora tenha pacientes em tratamento e programa de saúde pública já preocupado com esse mal silencioso, desconhecido e tão grave quanto a aids.

No município, o Serviço de Moléstias Infecciosas (SMI) da Secretaria Municipal de Saúde acompanha os portadores do vírus C, que, quando necessitados, recebem medicação gratuita do Estado. O setor também é responsável pelo tratamento de tuberculosos, hansenianos e acometidos pela hepatite B.

Os grupos que hoje saem em protesto, no entanto, acham que a atenção pública dada à doença é muito tímida diante do que ela representa. Afinal, são 4 milhões de brasileiros infectados, dos quais apenas 3% sabem que têm o vírus. No mundo, o número estimado de doentes é de 170 milhões, cerca de seis vezes mais do que o de infectados pelo HIV. Só nos Estados Unidos, 10 mil pessoas morrem todos os anos vítimas da moléstia.

Campanhas de esclarecimento, principalmente quanto às suas formas de contaminação, programas de detecção de infectados, atualização médica de profissionais de saúde, aparelhamento das unidades públicas e reconhecimento legal da doença no plano trabalhista, com conseqüente regulamentação dos direitos e benefícios, são alguns dos principais pontos do PNH cobrados pelos manifestantes.

A diretora do Departamento de Saúde Coletiva (DSC) de Bauru, Maria Helena Abreu, explicou que a hepatite C é uma doença de notificação obrigratória, assim como a dengue, meningite, cólera e febre amarela. De 1996 até hoje, 16 casos foram oficialmente registrados (veja no quadro) na cidade, mas o contingente de infectados deve ser bem maior. “Não temos um programa específico para a hepatite C em razão da demanda. Por enquanto, a atenção prestada pelo Serviço de Moléstias Infecciosas tem sido satisfatória”, argumentou Maria Helena.

Um mal sem sintomas

A grande vilã no diagnóstico da hepatite C é a falta de sintomas. A grande maioria dos infectados não sente nada e há os portadores que nunca irão desenvolver a doença. “Os sintomas específicos, ou seja, aqueles decorrentes já das lesões hepáticas, costumam aparecer de 15 a 25 anos após a contaminação. Por vezes, a pessoa sente dores musculares, náuseas, falta de apetite, mas raramente o profissional médico ou próprio paciente imaginam que isso seja um reflexo da moléstia”, destacou a infectologista Cibele Gomes Ghedini.

Dos infectados, 70 a 90% desenvolverão a doença crônica e, destes, 20% terão cirrose hepática, que pode ou não evoluir para o câncer de fígado. Como é imprevisível saber quais dos portadores irão desenvolver a doença, o melhor a fazer, quando identificado o vírus, é manter-se sob constante observação médica e submeter-se a exames regulares.

As formas de transmissão da hepatite C são semelhantes às da aids, embora o comportamento de risco desta última tenha adquirido um estigma negativo perante a sociedade.

O modo de contaminação mais freqüente se dá por meio de transfusões de sangue, uso de drogas injetáveis e inaladores (canudos) de cocaína, nesta ordem de incidência. Usuários de piercing e pessoas tatuadas também compõem o grupo de risco.

A possibilidade de transmissão no ato sexual existe, embora a quantidade de vírus presente no sêmen e secreção vaginal seja pequena. O risco é maior quando a mulher está menstruada, razão pela qual o uso de preservativos nesse período é indicado mesmo quando a relação do casal é estável.

Há ainda literaturas que apontam a possibilidade de transmissão por meio de alicates de unha, aparelhos de barbear e outros objetos de uso pessoal. Um detalhe importante a ser observado é que o vírus C sobrevive fora do organismo por cerca de três horas.

As chances de contaminação materno-infantil também existem. “O risco nesses casos é de 3%, mas não há indicativos de que haja transmissão pela amamentação”, ponderou Cibele.

Mesmo as pessoas que se julgam excluídas do grupo de risco podem ter o vírus C, principalmente as que se encontram com idades acima dos 40 anos. “Há cerca de duas décadas, a preocupação com a esterilização e o rigor na análise do sangue doado quase nem existiam. Há possibilidades reais de que muitos casos de infecção tenham ocorrido nessa época”, alertou.

Uma doença de difícil diagnóstico

Por ser uma doença pouco conhecida - o vírus foi descoberto em 1989 por Choo et al - e de sintomas quase imperceptíveis, a hepatite C é difícil de ser diagnosticada, razão pela qual se alastra progressiva e assustadoramente pelo mundo. “Essa doença é um problema emergente de saúde pública mundial, uma endemia perigosa”, alerta a médica infectologista Cibele Gomes Ghedini.

Segundo ela, muitas pessoas têm o vírus, mas acreditam gozar de plena saúde. “Mesmo quem que faz check up todos os anos e passa por uma bateria de exames pode estar contaminada, porque os testes normais, como o hemograma, não detectam o vírus. Às vezes, os resultados apresentam alterações que sugerem algum problema, mas só mesmo a sorologia específica é confiável. O ideal seria que todo mundo fizesse esse exame”, recomenda.

Pelos motivos mencionados, dificilmente a hepatite C é descoberta em sua fase inicial. Comumente, ela é detectada quando já se tornou crônica ou evoluiu para as conseqüências mais graves, como a cirrose e o câncer de fígado, quadros estes em que o tratamento medicamentoso não tem mais eficácia, estando a possível cura exclusivamente vinculada ao transplante de fígado.

Embora grave como a aids, a hepatite C tem cura. “Com o tratamento medicamentoso adequado, as chances de cura são de 50%. A eficácia terapêutica só não atinge 100% porque o vírus C tem uma capacidade extraordinária de mutação”, explica a infectologista.

Atualmente, existem três remédios no mercado utilizados no tratamento da doença, só que apenas dois deles, o Interferon e a Ribavirina, são distribuídos via Sistema Único de Saúde (SUS). Todos eles agem como estimuladores do sistema imunológico e redutores das lesões hepáticas. O custo do tratamento, entretanto, é um problema à parte: varia de R$ 2 mil a R$ 4 mil mensais.

De acordo com Cibele, o governo tem custeado o tratamento dos pacientes que comprovam incapacidade financeira de bancá-lo. Os exames sorológicos de detecção ainda não são feitos gratuitamente, embora o Serviço de Moléstias Infecciosas encaminhe pedidos nesse sentido quando há suspeitas visíveis da doença.

Serviço

Mais esclarecimentos sobre a hepatite C podem ser obtidos no Serviço de Moléstias Infecciosas, que fica na rua Silvério São João, SN. Telefone 235-1463.