08 de julho de 2026
Ser

Ele vive de poesia

Gustavo Cândido
| Tempo de leitura: 5 min

Se o artista deve ir sempre aonde o povo está, como diz a canção de Milton Nascimento, o bauruense Cláudio Domingues segue a letra à risca. Há dois anos, ele decidiu não mais trabalhar em empregos convencionais para se dedicar única e exclusivamente à poesia. Diariamente, o poeta, que estudou até o ensino fundamental, distribui pelas ruas da cidade cópias dos poemas que escreve e cola sobre fotos - geralmente de eventos violentos. Em retribuição, aceita qualquer valor. Na última semana, ele falou ao JC, sobre sua relação e expectativas com a arte.

Jornal da Cidade - Quando você começou a escrever poesias? Cláudio Domingues - Eu era criança, devia ter uns nove, dez anos. Mas comecei a sobreviver da minha própria arte há dois anos.

JC - O que fez você tomar essa decisão? O que você fazia antes? Domingues - Eu trabalhava. Já tinha trabalhado como office boy, entreguei panfletos, já fui até servente de pedreiro. Parei com tudo não por questão de desemprego, porque por um bom tempo eu trabalhei e fiz as minha poesias junto. Eu simplesmente decidi viver da minha própria arte e estou indo à luta.

JC - Você mora com os seus pais? Domingues - Moro.

JC - Eles disseram alguma coisa quando você decidiu se tornar um poeta “profissional”? Domingues - Não falaram nada. Eles me apoiaram e me apoiam até hoje.

JC - Você sempre usou esse método de contato direto com o público na rua? Domingues - Sempre fiz isso. Já fui a encontro de poetas, mas o que eu gosto mesmo é de semáforos. É mais fácil e rápido de divulgar porque a quantidade de pessoas é maior. Para mim é melhor.

JC - Você pede uma colaboração qualquer quando entrega seus poemas. Como o público reage? Domingues - Tem gente que não leva muito a sério. Alguns acham que é esmola, dão qualquer moeda e nem fazem questão de pegar a poesia. Mas existem as pessoas que realmente valorizam e se não ajudam muito financeiramente, dão um apoio moral. São as que se interessam mesmo pela poesia. Aqui em Bauru não é difícil de divulgar, já fui em cidades piores. Existe um certo desprezo, mas não é em todos os casos. Tem pessoas que fecham o vidro na minha cara.

JC - Para quantos lugares você já foi? Domingues - Eu sempre viajo, quase não paro aqui em Bauru. Sempre sobrevivo dessa maneira. Já fui para várias cidades do Interior paulista, para o Paraná e Santa Catarina.

JC - Qual o seu método de confecção das poesias? Domingues - Escrevo e depois faço uma colagem em cima de fotos que retiro de jornais e revistas. Tiro cópias e distribuo para as pessoas. Estou sempre fazendo coisas novas para que os textos não fiquem muito repetidos. Tem pessoas que - na hora que vou entregar - dizem “já tenho”. Dai ofereço outros e pergunto se ela não quer fazer uma coleção.

JC - Onde você busca sua inspiração, quais são seus temas favoritos na hora de escrever? Domingues - Escrevo sobre várias coisas: questões políticas, carência afetiva. Tenho influências do surrealismo, do dadaísmo... Na arte como ela é e não na arte imposta, na elite da arte, mas na arte criada por nós mesmos, que a gente descobre dentro da gente mesmo. Eu não sou um Carlos Drummond de Andrade, sou como qualquer um.

JC - Você tem algum poeta favorito? Domingues - Augusto dos Anjos, Fernando Pessoa, Camões e meus amigos, que escrevem junto comigo.

JC - Mais alguém em Bauru usa o seu método de divulgação? Domingues - Não. Que eu saiba não.

JC - E como você sobrevive da sua arte? Domingues - Tem dias que eu consigo mais, tem dias que eu consigo menos, depende do meu próprio esforço. É na precariedade mesmo, como poeta falido, mas sobrevivo assim.

JC - Você tem planos profissionais e artísticos para o futuro? Domingues - Com a poesia eu não tenho muitas esperanças de passar disso. Para dizer a verdade, eu não quero crescer dessa forma como poeta. Eu renego os valores da poesia assim. Ela é uma forma de me expressar e para mim tem que ser dessa forma marginal. A essência da minha poesia é a marginalização, são poesias falidas.

JC - Por que suas poesias têm uma visão um pouco pessimista, sem esperança? Domingues - A poesia tem uma coisa mágica, ela nunca termina como eu quero. Às vezes, quero fazer uma página inteira e saem duas linhas. Às vezes, quero fazer duas linhas e sai uma página inteira. Acho que tudo o que escrevo são coisas de momento, que estão no meu inconsciente, elas refletem alguma coisa que eu sinto, eu não sei. A “Essência do Kaos”, que é o nome do livrinho que eu montei com as coisas que eu escrevi, é a minha essência. E a poesia também é uma forma de conscientizar as pessoas. Não que eu queira isso mas as pessoas lêem e criam muitas visões que ficam no seu inconsciente. Eu acredito nisso.

JC - Você nunca pensou em escrever um livro, divulgar suas poesias comercialmente através dele? Domingues - Eu já juntei minhas poesias, mas nunca pensei em fazer um livro de poesia. Até porque, mesmo se eu lançar um livro, não vai ter tanto sucesso assim. Minha mãe gostaria que eu fizesse isso.

JC - Você acha que as pessoas não sabem avaliar a poesia? Domingues - São poucas as pessoas que valorizam. Elas têm idéia que cultura vem através dos meios de comunicação como a televisão, o jornal, o cinema. A cultura é a expressão de um povo. O que aparece na tevê, como novelas, filmes, não mostram a realidade que a gente vive. Mostram a vida burguesa, é uma ilusão que passa para a cabeça das pessoas. Elas ficam iludidas, ficam sonhando em viver como as pessoas das novelas. Honestamente, não acho que isso vá acontecer.

JC - Porque você assina com nomes diferentes? Domingues - É para dar a impressão que são várias pessoas. Cada poesia tem um personagem imaginário que a escreve.

JC - Você sempre pára na mesma rua? Domingues - Não. É tudo improvisado. Saiu, acho um lugar e começo a “impregnar”.