07 de julho de 2026
Ser

Sem medo do espelho

Gustavo Cândido
| Tempo de leitura: 5 min

Nos últimos anos, a vaidade deixou de ser uma exclusividade da mulher, ganhando cada vez mais espaço no mundo masculino. O tabu foi quebrado e hoje, além dos exercícios - que há alguns anos já se tornou básico para muitos homens - a reeducação alimentar, tratamentos de pele e uma série de outros cuidados estéticos fazem parte do vocabulário masculino. Já não há quase problema algum para os homens em admitir que cuidam do próprio corpo para ficarem cada vez mais belos.

De acordo com dados da Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica (SBCP), o Brasil é um dos países onde mais são realizadas cirurgias plásticas com fim meramente estético no mundo. Em 2000, foram 300 mil operações, segundo a entidade, sendo que, desse total, 90 mil (30%) foram realizadas em homens. O cirurgião plástico Agnaldo Elon Dizars confirma a tendência em Bauru. Segundo ele, nos últimos cinco anos, a presença de homens na sua clínica em busca de soluções estéticas para o corpo têm aumentado gradativamente.

A esteticista da Marathon Estetic Center e professora de estética do Senac, Roseli Zanardo também constata uma maior preocupação dos homens com o visual. “Eles têm procurado se informar mais sobre limpeza de pele e como cuidar do corpo e do rosto”, diz. A preocupação com a pele tem levado muitos homens às clínicas de estética, mas a maior preocupação masculina da atualidade, de acordo com Dizars e Zanardo, é a barriga.

Segundo o médico, cerca de 5% das lipoaspirações feitas atualmente são realizadas em homens, um fato impensável há alguns anos. Na lista de preocupações masculinas ainda estão a calvície, as rugas de expressão e a cor.

Preconceito e cuidados

Na opinião de Dizars, a quantidade de homens nas clínicas de estética poderia ser maior se não houvesse preconceito. “Nas cidades grandes o público masculino que faz plástica e cuida da beleza é muito maior do que no Interior”, diz. Zanardo concorda e afirma que o preconceito ainda é grande entre os mais velhos. “Já ouvi muitas histórias sobre isso. Inclusive muitos de nossos clientes confessam que acham mais fácil vir aqui porque a clínica está localizada dentro da academia. Ou seja, eles não são vistos entrando numa clínica de estética”, confessa.

Segundo a esteticista a presença masculina nas academias têm aumentado tanto que os cursos para esteticistas atuais já incluem no seu programa dicas de como lidar com os homens. Na prática, os tratamentos não são diferentes dos femininos, mas as esteticistas, segundo Zanardo, devem ter cuidado na hora do contato direto com o cliente para evitar qualquer mal-entendido.

Bonito e saudável

O estudante universitário Rodrigo Rocha é um dos que se preocupam com o visual e não ligam para preconceitos. Além de fazer exercícios físicos regularmente, ele procura visitar a esteticista e o dermatologista pelo menos uma vez a cada seis meses. Aos 23 anos, Rocha acredita que é fundamental cuidar do corpo desde cedo para ter uma vida saudável por mais tempo. Seguindo essa filosofia, o estudante também evita beber e não fuma. “Hoje em dia a gente tem que se preocupar com a imagem, senão a gente dança”, acredita.

Para o vendedor José Carlos Carneiro, de 49 anos, a preocupação com o visual na atualidade vai além da vaidade. “O mercado também requer um cuidado com a aparência”, explica. Com dois implantes de cabelo no currículo e uma lipoaspiração nos planos, Carneiro, que é divorciado, ainda lista outra vantagem em se cuidar. “Com certeza, depois que a gente cuida um pouco mais do visual, as mulheres prestam mais atenção”, diz.

Freqüentador de academia e de clínicas de estética, o engenheiro Paulo, de 37 anos, confessa a vaidade. “Sou vaidoso mesmo, faço as unhas, cuido da pele e malho”, afirma. Tavares acredita que o homem tem o mesmo direito de se cuidar que as mulheres, embora admita que ainda existe muito preconceito - razão pela qual preferiu não ter seu sobrenome divulgado. “O homem que diz que não é vaidoso está mentindo. Todos eles reclamam quando vão a um lugar onde não têm um espelho no banheiro masculino”, filosofa.

O que elas acham

A opinião feminina é variada quando o assunto é a vaidade masculina. Ao mesmo tempo que um grande grupo de mulheres admira e apoia a iniciativa do sexo oposto, outras - mais tradicionais (ou preconceituosas) - acreditam que homem que cuida de si mesmo “não é muito homem”. A professora Ana Carolina Nogueira acha os homens vaidosos sexies e modernos. “Eles não ficaram parados no tempo e perceberam que não precisam parecer com bichos da caverna só porque são homens”, diz.

A estudante universitária Clarice dos Santos Oliveira concorda: “Acho muito legal que os homens fiquem bonitos, afinal eles estão melhorando as coisas para nós mulheres”, afirma.

A comerciária Claudenice da Silva é, assumidamente, preconceituosa, principalmente com homens que fazem as unhas. “Fazer exercícios tudo bem, agora cuidar da pele e passar base nas unhas já é demais. É para desconfiar”, diz.

Reforçando o coro ao seu lado, está a dona de casa Juraci Moreira. “Acho que iria achar muito esquisito se o meu filho aparecesse em casa com cremes para passar no corpo, essas coisas”, afirma. Ela concorda, porém que, mais bonito, o homem agrada bastante a mulher. “Quem sabe não fosse melhor eles se cuidarem sem ninguém saber. Assim não teria desconfiança”, sugere ela

Quem foi Narciso

Na mitologia grega, Narciso era filho do deus-rio Cephisus e da ninfa Liriope. Ele era um jovem muito belo. Apesar de ser muito cobiçado pelas ninfas e donzelas, Narciso preferia viver só, pois não havia encontrado ninguém que julgasse merecedora do seu amor. Depois de desprezar a ninfa Eco, Narciso teve um triste fim quando se apaixonou pela sua própria imagem, refletida em um lago. Sem conseguir sair do local - onde não parava de se admirar - o jovem foi definhando até morrer. Seu através dos tempos passou a designar aquelas pessoas que gostam muito (e se preocupam demais) com sua própria aparência.