10 de julho de 2026
Articulistas

AL: caminhos divergentes


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Duas recentes decisões da União Européia (UE), ou seus estados-membros, com relação a dois países da América Latina (Cuba e Colômbia) revelam não apenas a atitude européia em relação a esse continente, mas também o perfil de sua política externa incipiente. Ao mesmo tempo, percebe-se um contraste e uma convergência com as ações dos Estados Unidos. Na recente reunião da Comissão de Direitos Humanos da Organização das Nações Unidas, realizada em Genebra, os estados-membros da UE votaram em bloco pela resolução que criticava o balanço de Cuba nesse campo e recomendava o envio de uma inspeção.

Esta decisão não só concordava com a moção apresentada desta vez por um grupo de países latino-americanos como também contou com o apoio dos países candidatos a ingressar na UE. A ira de Havana, entretanto, centrou-se mais nos governos latino-americanos, que Fidel Castro considera “traidores” (México) ou “Judas (Uruguai), com a conseqüência da revelação de conversações secretas com o presidente mexicano Vicente Fox e a ruptura de relações diplomáticas entre Montevidéu e Havana. Por outro lado, o silêncio (ou a cautela) em relação à Europa foi clamoroso.

Convém salientar dois fatos pouco conhecidos. O primeiro é que os países candidatos não têm legalmente que votar com os membros, mas supõe-se que na aprendizagem devem aderir a estas ações nos foros internacionais, tal como vêm fazendo ao longo da última década. O segundo detalhe é que antes da votação havia rumores, bem fundados, de que a Bélgica se absteria, embora desta vez a resolução fosse muito descafeinada e, inclusive, reconhecia uma melhora na conduta social de Cuba. Ao final, impôs-se o consenso. Meta final nesta curiosa política externa coordenada: não há obrigação legal, mas tenta-se formar uma frente comum a todo custo.

Portanto, a Europa supera a América Latina: Brasil e Equador ainda se abstiveram de condenar Cuba, o que evidencia a falta de coesão do Mercosul e da Comunidade Andina. A Venezuela, depois da sobrevivência de Hugo Chávez ao golpe, votou contra. Em pleno contexto andino, a UE divulgou uma declaração que incluía em suas listas de terroristas as Autodefesas Unidas da Colômbia (AUC), os paramilitares que completam o trio violento que disputa com o governo acossado o controle do território, mas não mencionou os outros dois, o Exército de Libertação Nacional (ELN) e, sobretudo, as Forças Armadas da Colômbia (Farc), para grande espanto colombiano.

Nas Américas, as surpresas podem surgir a qualquer momento e, sobretudo, quando a falta de um acordo pode ser aproveitada por Cuba. Daí a evidente irritação de Castro pelo que intui, certamente, como um movimento nesse caminho. Somente através da conscientização quanto à necessidade de formar uma coalizão sólida é que a América Latina conseguirá se fazer ouvir, mas, para isso, deverá decidir-se pela consolidação de organizações sérias de integração no modelo da União Européia, ou tendo esta como referência. Enquanto a variedade do Caribe, o alheiamento (Brasil), o individualismo (Chile), quando não a ambigüidade (Venezuela) continuarem sendo a regra, esse consenso não será possível. (O autor, Joaquín Roy, é catedrático “Jean Monnet” de integração européia e pesquisador)