09 de julho de 2026
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Degradação do meio ambiente


| Tempo de leitura: 3 min

O relatório do Programa das Nações Unidas para o Ambiente, intitulado Panorama Ambiental Global, divulgado recentemente, traz uma perspectiva sombria para o futuro do meio ambiente. À primeira vista, nada que surpreenda, afinal os alertas de ecologistas, cientistas e organizações de proteção ao meio ambiente são bastante conhecidos, e freqüentemente notícias são divulgadas, na grande imprensa, a respeito da degradação do meio ambiente.

Mas um aspecto do relatório da ONU chama a atenção: é a íntima relação existente entre a degradação do meio ambiente com a globalização econômica e a hegemonia dos valores do mercado. No relatório recentemente divulgado, a ONU projeta quatro cenários para o meio ambiente, no ano de 2032, de acordo com as prioridades políticas adotadas pelos países, e aquela que apresenta o maior potencial destrutivo é exatamente aquela que subordina a vida social, política e econômica aos imperativos do mercado desregulamentado e à mundialização do capital (apologeticamente denominada de globalização da economia).

Aqueles que tendem a encarar a globalização com um sentido positivo ignoram que a própria expressão traz consigo uma forte carga ideológica, uma vez que contribui para difundir o preconceito de que se trata da universalização de valores que, na verdade, limitam-se a uma parcela insignificante da população mundial.

Trata-se de mundialização do capital e não de globalização porque, ao contrário daquilo que os apologistas do livre mercado reiteradamente alegam, este processo não integra as populações dos diversos cantos do mundo em uma comunidade solidária, não permite o acesso ao bem-estar e qualidade de vida dos países centrais aos periféricos, não estende o padrão de consumo e de produção dos países industrializados aos países pobres, não impede as guerras imperialistas e de conquista como recurso ao acesso da riqueza (vide Iuguslávia, Golfo Pérsico etc.) e não promove a homogeneização da cultura, das experiências cotidianas e do acesso à saúde, educação, e bem-estar em geral. A única coisa que expande de forma homogênea a todos os cantos do mundo é a lógica da reprodução tautológica do capital, abstraída de qualquer sentido humano e social e sem levar em consideração os impactos negativos sobre as comunidades e o meio ambiente.

O exemplo mais evidente deste fato foi a recusa do presidente Bush em assinar o Protocolo de Kyoto, que preferiu assumir o papel de personificação do capital e líder do comitê executivo da burguesia mundial, em detrimento não apenas das gerações futuras, mas também de grande parte da população atual que já sente os efeitos negativos da degradação do ambiente físico na sua saúde e qualidade de vida. A valorização do capital coloca o próprio ser humano em segundo plano, e apenas confirma a tese de que os limites do capital encontram-se no próprio capital, sendo que este passa a ser uma força cega que domina e subordina os interesses do ser humano ao processo de reprodução ampliada do valor.

O que de fato existe é uma contradição difícil de ser resolvida se não formos além das formas de sociabilidade do mundo contemporâneo. A “encruzilhada ecológica” com que nos defrontamos resulta da subordinação do (des)equilíbrio ecológico às forças do mercado livre de regulamentações. Este alega que busca a máxima racionalização da produção no universo das grandes corporações, mas ignora que o resultado da racionalização parcial (pois limitada ao universo microeconômico da corporação) só pode ser, como de fato tem sido, a irracionalidade total da vida social, política e cultural de toda a humanidade.

Para salvar não apenas o meio ambiente, mas a própria perspectiva de um futuro para a humanidade, será necessária uma tarefa gigantesca de transformar a sociedade produtora de mercadorias em que vivemos num mundo em que os produtores livremente associados possam estabelecer relações sócio-econômicas equilibradas e possam planejar e colocar sob seu controle, de forma consciente e racional, a produção e a distribuição da riqueza, lembrando sempre que uma vida saudável, um meio ambiente equilibrado e a sobrevivência das espécies são a verdadeira riqueza da humanidade. (O autor, Pedro G. Fernandes Fassoni Arruda, é advogado e cientista social)